Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 134 | Ano 14 | Jun 2009
FRAGA

Monopólio é pior que pólio, pois paralisa muito mais. Por isso a Escrita, essa que todo mundo acessa por lápis, caneta, teclados, demorou a se espalhar entre os povos. Era inacessível, uma exclusão social, mais crucial que a da internet. Afinal, sem internet as pessoas passam, e até são felizes; sem a escrita não dá para viver nos dias de hoje – não haveria nada para ler antes de dormir!

A monopolização da Escrita começou com o mercado dos analfabetos. Como o primeiro analfabeto se alfabetizou ninguém sabe, nem o Millôr Fernandes, que vive perguntando isso. Mas assim que apareceu o primeiro letrado, iniciou a exploração da Escrita. Sabe aquelas pessoas escrevendo cartas na Central do Brasil? Elas se inspiraram no escriba ancestral: ele botou uma mesinha de frente pro povoado e a fila se fez. Todo mundo queria missivas, epístolas.

Quando os ricos se deram conta do novo negócio, compraram aquela habilidade toda e multiplicaram o abuso (os royalties viriam mais tarde). Instalaram bancas de escrita por toda parte, de frente para a humanidade. Aperfeiçoaram o sistema de fornecimento e enriqueceram com a necessidade criada, a multidão atraída por aqueles símbolos fantásticos, que significavam qualquer coisa, do insignificante ao significativo.

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A coisa funcionava assim: o iletrado chegava e pedia o que podia pagar, desde letras avulsas até, se tivesse mais dinheiro, palavras, e davam fortunas por frases inteiras. As pessoas ensandeciam com essa moda da época, faziam de tudo para ter algo escrito sob as lamparinas, papiros sebentos, tudo isso que escraviza um ser humano que não sabe escrever.

Os séculos passaram e a prosperidade com a Escrita só trocava de mãos, enquanto a maioria da população empobrecia, sobrevivendo de migalhas gráficas, rabiscos desgastados, de sobras manuscritas. Até que.

Um dia (não se sabe se havia algum monólito negro por perto), alguém juntou por sua conta algumas sílabas guardadas com outras emprestadas e – faísca! – formou um conjunto diferente dos que tinham. No alvoroço da descoberta, centenas de letras e palavras foram se somando ao acervo e ali, em pleno reino da ignorância, surgiu a autonomia para produzir a Escrita. Daí para a gratuidade da Escrita foi um passo (até hoje se escreve coisas gratuitas, como esta aqui).

Depois disso, apareceu outro monopólio, que dura até hoje, e ocorre neste exato momento: a monopolização da atenção do leitor.

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