Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 145 | Ano 15 | Jul 2010
PALAVRA DE PROFESSOR

Márcia da Silva Viegas *

Quando estava com seis meses de gravidez, havia mudado de cidade e comecei a procurar trabalho, apesar do alerta geral de que, grávida, jamais conseguiria um emprego.

Na teimosa esperança, sem levar em conta o senso comum e acreditando que gravidez não é motivo para não contratar um profissional, procurei incansavelmente um posto de trabalho no intuito de oferecer um nascimento com melhores condições para minha filha.

Como é de praxe a todo cidadão desempregado que busca mudar de condição, investi tempo e “sola de sapato” em busca de uma oportunidade trabalho. Recebi os “nãos” anunciados e sustentados por muitas pessoas das minhas relações, inclusive pessoas queridas, próximas e até de sindicalistas, defensores dos direitos trabalhistas, dos direitos humanos.

Depois de ter passado por seleção em uma escola da rede privada, de ter começado a trabalhar, ido a várias reuniões e a um dia de jornada pedagógica, com direito à recepção com material personalizado para começar o ano letivo, todo o calor humano e inúmeras perguntas a que qualquer grávida se submete em meio a um grupo de professoras, fui chamada ao final deste dia glorioso de boas-vindas para receber dispensa de meus serviços.

Essa notícia me foi dada pela mesma pessoa que me selecionou e contratou, uma religiosa, diretora de escola cristã. Apesar de concordar que eu seria a pessoa indicada para cumprir o papel de professora de Espanhol na escola, me afirmou, convicta: “eu não contrato grávida”.

Respondi à sua argumentação explicando minha surpresa por dois motivos: primeiro, porque minha gravidez era visível e, segundo, porque eu estava sendo acolhida em uma escola cristã, que pelo meu entendimento, trabalha em prol da vida. A diretora, que estava com minha carteira de trabalho retida havia um mês, devolveu-a junto com outros documentos, dizendo que, de fato, não entendia como não havia observado meu estado e concluiu dizendo: “Não assinamos nada, não é mesmo?”.

palavra_professor_discriminacao_escola

Arte: Claudete Sieber

Arte: Claudete Sieber

* Pós-graduada em Ensino e Aprendizagem de Línguas Estrangeiras pela Ufrgs, professora de Língua Espanhola da Rede Municipal de Ensino de Porto Alegre

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