Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 156 | Ano 17 | Ago 2011
JOSÉ ALONSO

José Alonso

Arte: Pedro Alice

Arte: Pedro Alice

Um dos temas mais importantes a respeito do desenvolvimento no RS refere-se às generalizadas divergências políticas sobre as mais diferentes questões da vida gaúcha. O debate sobre esse assunto tem sido prejudicado pelas posições “apaixonadas” com que é abordado, tanto por aqueles que consideram o regionalismo gaúcho obtuso, atingindo as raias do provincianismo, quanto pelos que consideram as diferenças políticas como essenciais à construção de um desenvolvimento para todos. Inegavelmente há radicalizações de ambos os lados. Queremos contribuir nesse debate, mostrando algumas evidências pouco lembradas quando se aborda essa questão.

Uma síntese das ideias daqueles que consideram as diferenças políticas um entrave ao desenvolvimento pode ser encontrado na prestigiada coluna de David Coimbra em ZH (p. 2, 29/4/2011). O autor realça o que alguns consideram o pensamento dominante do gaúcho, calcado na dicotomia entre chimangos e maragatos, bandidos e mocinhos, Grêmio e Inter, PT e anti-PT. Ainda segundo o autor, “essas são as causas do estrondoso atraso do RS”. Comparando as estradas congestionadas e a educação com as dos demais estados conclui que o RS anda para trás. Convém esclarecer que todas as metrópoles brasileiras e seus acessos estão literalmente congestionados por atividades, população e automóveis.

Vejamos alguns indicadores de desempenho de uma organização social e econômica forjada com base na pluralidade política. O Índice de Competitividade Estadual (ICE-F) calculado com base na Qualificação da Força de Trabalho (QFT), no Conhecimento e Inovação (C&I) e na Infraestrutura (IE) coloca o RS em quarto lugar entre os estados, abaixo apenas de São Paulo, Rio de Janeiro e Distrito Federal. No caso da QFT, o estado ocupa igualmente a quarta posição no país, enquanto é o terceiro em C&I. Na infraestrutura, considerada o patinho-feio da economia, o estado ocupa o quinto lugar de um total de 27 estados. Acaba de ser divulgado outro indicador, altamente significativo, elaborado pelo economista Marcelo Néri (FGV). Trata-se do ranking nacional de distribuição de renda entre os 5.568 municípios do país. Há 29 municípios gaúchos entre os 50 com maior percentual de famílias nas Classes A, B e C. Mais ainda, há seis municípios do estado entre os dez primeiros.

Esses indicadores comparativos refutam a tese de que, enquanto as coisas no Brasil estão acontecendo, o RS anda para trás. Essa posição, de alguma forma, privilegiada do estado no país nada mais é do que o resultado real da organização social, econômica e política dessa fração do território nacional. Isso tudo permite algum ufanismo da nossa parte? É claro que não. Convivemos no RS com problemas como dívida pública, déficits em serviços de educação, saúde e segurança, a exemplo do resto do país. São problemas endêmicos que exigem soluções inteligentes e radicais, do ponto de vista político. Um ingrediente indispensável na superação desses problemas é, certamente, a pluralidade política e ideológica.

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