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Nº 161 | Ano 17 | Mar 2012
FRAGA

Colunista: Fraga

Ilustração: Rafael Sica

Ilustração: Rafael Sica

Antes de mim teve minha mãe, pouco instruída e muito vivida. Teve meu pai, que ela soube quem foi e eu não. De antes dela e dele, só conheci a avó materna, que me criou, a mais inesquecível criação. Essa avó lidou na roça e depois nas lides urbanas. Mãe e avó já se foram.

Daí em diante, tirando a tia amada já não mais aqui e outra tia e um tio, ambos sumidos, não há parentes sabidos, só há especulação. São os bisavós, nomes ainda disponíveis nos registros, para investigações que não serão feitas. Se espalham por volumes de folhas antigas, em cartórios de Santo Antonio da Patrulha, folhas antigas, de um amarelecido indiferente às buscas. Tumbas de celulose.

Indo além, para trás, começa o limbo genético, perdição em pilhas e montes de livrões. Neles, tataravós e seus ancestrais, links de sangue na internet da vida, se dispersam. São restos mortais em manuscritos à tinta, páginas esfareladas, alheias à descendência.

Nesse nível, a especulação de parentesco tem que cruzar o Atlântico, onde tudo, parece, se iniciou.

Lá, e abaixo das possibilidades de antepassados anotados, abaixo das épocas registradas, vêm outros indistintos familiares não-catalogados, hipóteses que um dia foram gente e povoaram o seu redor.

Ao pensar nessas sombras que legaram o DNA que sobrevive em mim, falta pé. É um mar de pensamentos sem base, um funil invertido. Algumas gerações e a hélice genética cavoca mais fundo. E quanto mais a broca afunda, mais parentesco há de encontrar, nunca irá cessar a busca de identidade comigo mesmo.

Ao chegar nesse vazio de parentes inimagináveis, o desassossego me envolve.

Perdidas as referências, quem é este a sondar essas profundezas? Impossível cogitar rostos e nomes, impossível negar a solidão existencial, imensa. Nada nem ninguém existe para chamar de meu aqui nesse ermo racional.

E no entanto, algo de mim está lá, lá no infinito da reprodução dos seres. Quem sabe até alguns sinais primitivos estão agora aqui comigo, imperceptíveis mas intrincados sob a pele que habito.

Para, Fraga. Não há mais o que escrever assim no ar e no escuro imenso. Sim, recorro ao único conforto nessa zona: a espiral que me trouxe ao passado remoto me traz ao presente. Aos irmãos e irmãs – éramos 10, somos 9. E aos meus 3 filhos e 3 netos.

Em anos, o ascendente conhecido como pai e avô será bisavô, tataravô etc. Mas sem perdas no futuro: o registro agora é pleno, exato até demais. Fim dos extravios familiares. Ufa.

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