Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 163 | Ano 17 | Mai 2012
JOSÉ ALONSO

Colunista José Alonso

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Um dos aspectos mais instigantes do atual momento brasileiro é saber como a população, em seus diversos segmentos sociais, percebe o que está acontecendo de bom ou de ruim no país. Obviamente, a visão é diversa dependendo de cada grupo social, classes alta, média ou baixa, definidas pela renda, instrução ou qualquer outro critério. As dificuldades de avaliar as diversas leituras da complexa realidade brasileira num espaço tão reduzido quanto este nos impõem um esforço de simplificação. Por esta razão, tentaremos definir a percepção da “classe média”, supondo que ela represente uma “amostra” com razoável grau de representatividade da sociedade brasileira.

Tomando como exemplo os últimos 20 anos, podemos afirmar que o país encaminhou soluções para muitos problemas no atacado. A conquista da estabilidade dos preços, o tema da dívida externa saiu da agenda nacional (eliminando o garrote dos banqueiros internacionais, FMI, Bird e BID) e a arrumação parcial das contas públicas criaram as condições mínimas para que o país voltasse a crescer. Associado a esses resultados, as forças desenvolvimentistas (esquecidas nos anos 1980 e parte dos 1990) parecem ter renascido no país. Em função disso, o mercado interno passou a ser prioridade nas políticas econômicas (redução do desemprego, aumento real do salário mínimo e forte estímulo a alguns setores como a indústria naval, por exemplo) e o aproveitamento das possibilidades do mercado externo de commodities asseguraram taxas de crescimento mais elevadas do que nas décadas anteriores.
No século 21 o país parece ter recuperado a sua tradição desenvolvimentista, privilegiando a produção interna de segmentos dinâmicos como a indústria naval, a química e a petroquímica, por exemplo, ao mesmo tempo em que se transformou num importante player mundial na exportação de commodities. Todavia, todos esses avanços combinados com a crise (2008) nos países centrais e alguns entraves da política econômica (juros e câmbio), ainda remanescentes, têm causado todo o debate em torno da desindustrialização do país. A questão que se coloca é: Como o Rio Grande do Sul se insere nesse arranjo, ou ainda, que trajetória deve percorrer nas próximas décadas?

Esses resultados e uma bem concertada estratégia política e diplomática colocaram o país em outro patamar no plano internacional, assumindo um papel de potência emergente. Todas essas evidências têm sido motivo legítimo para “celebrações” oficiais e de muitos analistas, elevando a auto-estima da maioria dos brasileiros, o que é compatível com os bons índices de aprovação dos governos federal e de alguns estados.

Todavia, ainda contabilizamos um passivo expressivo nas áreas da Infraestrutura (rodovias, portos, aeroportos, saneamento básico), Educação (falta de mão de obra em todos os níveis) e Saúde. Essas deficiências, ainda à espera de soluções, tendem a constituir um freio ao crescimento econômico.

A persistência da crise internacional e a nossa incapacidade interna para encaminhar soluções, em especial para as áreas de Educação e Saúde, associadas com o permanente anúncio de casos “comprovados” de corrupção e desvios de recursos públicos, têm sido razões suficientes para que se coloquem dúvidas sobre os avanços alcançados pelo país. Neste sentido, as pessoas começam a dizer que o país que elas estão vendo não corresponde às avaliações positivas. A inflação não parece estar contida, as notícias sobre educação, saúde, segurança e infraestrutura registram atrasos na entrega de obras, superfaturamento, baixa qualidade na prestação dos serviços públicos. Começam a aparecer chavões como “todo o político é corrupto” ou “o servidor público é sinônimo de ineficiência”.

Essa percepção da realidade brasileira é preocupante, provavelmente movida pelo imediatismo e a ansiedade das pessoas em ver os problemas de educação, saúde e segurança resolvidos imediatamente. Talvez a velocidade no encaminhamento das soluções para as graves questões nacionais esteja abaixo do que é esperado. É possível que esse seja o ritmo que a capacidade do país permite imprimir na solução dos seus problemas estruturais. Se isso for verdade há, pelo menos, duas coisas a fazer: acelerar o ritmo das transformações e não deixar “a peteca cair”.

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