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Nº 178 | Ano 18 | Out 2013
ESPECIAL
INTERNET

Segundo psicanalista, vivemos uma transição, como no início do século 19, com a chegada do sistema fabril e o êxodo rural. “Havia perplexidade; hoje, temos uma loucura coletiva”
Por Marcia Camarano

Foto: Igor Sperotto

Igor Sperotto

Igor Sperotto

Quando esteve no Brasil para uma série de palestras sobre a relação do trabalho com a saúde, inclusive em Porto Alegre, em maio de 2012, o psiquiatra e psicanalista francês Christophe Dejours afirmou que há um aumento preocupante de casos de descompensações psicológicas oriundas das relações de trabalho. E ele não está só nesta constatação. Muitos estudos recentes demonstram crescente número de pessoas com problemas de transtornos mentais e tudo indica que, em breve, os adoecimentos mentais suplantarão as doenças osteomusculares (hoje a primeira no ranking) nas estatísticas de afastamento do trabalho.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 340 milhões de pessoas no mundo estão afetadas por depressão, 45 milhões por esquizofrenia e 29 milhões por demência. Isto sem falar na dependência química (álcool e drogadição), com um índice cada vez mais elevado de afastamento do trabalho. A OMS aponta que os transtornos mentais estão entre as doenças mais onerosas do mundo.

Para Dejours, esta é a consequência do desejo de explorar ao máximo a força de trabalho, e o mundo moderno apresenta novas armas para isto. Como as novas tecnologias que, vindas para facilitar e melhorar a vida das pessoas, dando a elas condições de trabalhar menos, parecem se transformar em mais um meio de escravidão.

A revista virtual Caros Amigos, de julho de 2013, informa que a pressão de estar conectado 24 horas por dia vem mudando o perfil das doenças do trabalho. “Atualmente, porém, as pessoas, em todos os níveis sociais, trabalham mais e têm sua vida pessoal e profissional misturada pelo mundo digital e virtual, são atingidas por uma crise de sociabilidade e veem suas vidas encolherem, a despeito do tempo médio de vida da população”, diz o texto. Ao ser entrevistada, a médica e pesquisadora da área de saúde do trabalhador, Maria Maeno, faz coro com Dejours ao constatar que, cada vez mais, os transtornos mentais vêm tomando o lugar das doenças incapacitantes, e mesmo das doenças cardiovasculares, nas estatísticas mundiais. “Quem tem meta para cumprir faz parte da população de risco que, a qualquer momento, mesmo na folga, pode receber um torpedo, um e-mail ou uma ligação pelo celular do chefe”.

Pesquisadores da área salientam que não é a tecnologia que deve ser desmoralizada e, sim, entender que ela foi absorvida como uma nova forma de exploração que faz explodir os limites das jornadas de trabalho. “O capital tomou para si a vantagem do avanço tecnológico e transformou isto em lucro. Ao invés de reduzir a jornada de trabalho, reduziu as equipes, estipulou metas audaciosas e usa os meios de comunicação em tempo real como forma de controle e de extensão do trabalho”, destaca o sociólogo Giovanni Alves, professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp), de Marília.

“A vida está reduzida e o trabalho estranhado. No modo de vida just in time tudo é feito no limite. As pessoas estão sempre correndo e estão encolhendo os espaços para as relações humanas”, acrescenta o professor. E avisa ser muito difícil impedir que os trabalhadores, sejam do setor público ou privado, braçais ou intelectuais, sofram uma invasão nas suas horas de lazer.

O psicanalista Christian Ingo Lenz Dunker, professor do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP), confirma que a cultura do trabalho contínuo e da disponibilidade permanente têm produzido estragos subjetivos cujos traços clínicos mais mencionados são a irritabilidade, reatividade, agressividade impulsiva e transtornos do sono e do sonho, pois dormir seria desligar.

O problema, para ele, é a impossibilidade de controle social das novas tecnologias. “O celular é uma coleira eletrônica. Estamos numa fase de transição, como na primeira década do século 19, com a chegada do sistema fabril e o êxodo rural. Havia uma perplexidade; hoje, temos uma loucura coletiva”.

O tema é pauta dos trabalhadores
1ª Conferência Estadual de Saúde do Trabalhador, realizada em Porto Alegre, em 2002, já trazia a influência dos pensamentos de Paul Lafargue e Domenico De Masi. Com o tema A saúde do trabalhador em debate, o SUS (Sistema Único de Saúde), trabalho, direito, cidadania e ócio, abriu espaço para a discussão raramente feita entre trabalhadores. Em 2014, acontecerá a 4ª Conferência Nacional de Saúde do Trabalhador e o Rio Grande do Sul fará sua segunda edição.

O objetivo daquela conferência era debater as transformações ocorridas a partir das relações sociais e do trabalho impostas pela sua organização e como impactavam na saúde dos trabalhadores. O debate destes temas foram o ponto de partida para a reflexão sobre o ritmo intenso e contínuo do processo produtivo imposto pelo trabalho moderno e que agregava algo até pouco tempo pouco comentado: o resgate da importância do prazer e do ócio para a manutenção da saúde.

O diretor do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias do Fumo e Alimentação de Santa Cruz do Sul e Região (Stifa), João José Costa, foi delegado naquela conferência. Ele lembra que os livros do italiano De Masi tiveram grande influência no tema escolhido. “Para nós, foi importante mostrar que o trabalhador tem que ter tempo de lazer, que isto tem tudo a ver com saúde”. Onze anos depois, Costa constata que a realidade do trabalhador hoje é muito pior, pois este direito não foi internalizado e as pessoas estão levando trabalho para casa com seus telefones e e-mail. “A informatização nos trouxe mais trabalho”, diz.

O também sindicalista João Darcy Resende, hoje coordenador adjunto da 11ª Coordenadoria Regional de Saúde (11ª CRS), com sede em Erechim, foi um dos organizadores daquela conferência. Ele recorda que houve muitos debates sobre as extensivas jornadas de trabalho de várias categorias profissionais, o que acarretava fadiga de trabalhadores. “Isto levava a muitas situações de adoecimentos, daí pensamos que a discussão sobre o direito ao ócio, ao lazer, era fundamental em uma conferência de saúde do trabalhador”.

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