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Nº 178 | Ano 18 | Out 2013
ESPECIAL
FAMÍLIA

Mães trabalhadoras ficam longos períodos distantes dos seus filhos e, apesar da valorização de suas carreiras, gostariam de ter mais tempo com a família
Por Marcia Camarano
Foto: Igor Sperotto

Igor Sperotto

Daniela Mendes compensa a distância do filho com fotos na mesa de trabalho

Igor Sperotto

Em seu texto, Paul Lafargue fala em “arrancar os operários dos seus lares para melhor os torcer e para espremer o trabalho que continham”. E expunha uma preocupação particular para com as mulheres, questionando por que uma mãe trabalha, respondendo a seguir que ela é obrigada, devido à carestia de renda.

Ao trazer a questão para os dias hoje, o dilema permanece atual. A funcionária pública Daniela Nunes Mendes, 25 anos, trabalha 8 horas por dia. Ela voltou da licença-maternidade em maio e, desde então, usa de vários artifícios para amenizar a saudade. Sua mesa de trabalho tem fotos do pequeno Gabriel, hoje com 12 meses, e ele também está na tela do computador.

Enquanto está no trabalho, a mãe da Daniela e a sogra se revezam nos cuidados com o menino. “Tento evitar ligar, fiz uma lista com todos os telefones, meu, do meu marido, Rafael, dos pediatras com quem ele já consultou, dos postos de saúde mais próximos…”. Deixa dinheiro para alguma eventualidade, mas “qualquer coisa, sendo grave ou não, que me liguem”.

Daniela não pensa duas vezes quando é perguntada sobre o que faria se tivesse mais tempo livre: “Preciso trabalhar, não posso deixar, trabalho porque preciso complementar a renda de casa”. Mas, se pudesse trabalhar menos horas, com o mesmo salário, ela ficaria mais tempo com Gabriel, sem pensar em arranjar outra atividade remunerada. Ela gosta do trabalho, de se sentir útil, gosta de estudar e há pouco se formou em Administração. Sentiria falta se fosse afastada do trabalho, mas gostaria de ter mais tempo para o filho, para o lazer com a família.

Aos 43 anos, a secretária executiva Adriana Limberger passa, no mínimo, 8 horas no trabalho. A filha, Joana, de quatro anos, fica o dia na creche, enquanto sua mãe cumpre a carga horário de trabalho. “Se pudesse, pararia só para cuidar dela. O que me prende é que, parando, a renda do meu marido não daria para a escola dela e todas as despesas”. Adriana sofre por perceber que o tempo passa: “fico sem curtir as fases dela”. E afirma que se pudesse reduzir o tempo de trabalho sem reduzir salário, não pensaria em outra coisa a não ser ficar um período em casa com a menina, “pelo menos enquanto ela é pequena”.

A educadora Cleci Souza Lima Martins, 48 anos, tem uma carga horária semanal de 40 horas, mas contabiliza muito mais tempo que isto. (“Eu não tenho 40 horas, eu estou o tempo todo ligada ao trabalho”). Mãe de quatro filhos (José, dez anos, João, nove, Miriana, sete, e Pedro, quatro), ela sofre porque o seu trabalho dá garantia de subsistência à família, “mas o que eu tenho que fazer como mãe, educadora, fica para trás”.

Se tivesse a chance de reduzir seu tempo para o trabalho, ela gostaria de dedicar suas manhãs para fazer as coisas de sua casa e acompanhar as tarefas dos filhos, como as escolares. “Mas isto não é possível, e aí tenho que dar conta destas coisas do jeito que dá, sobrecarregada, e coisas de qualquer jeito significam coisas de mau jeito”. Não ter tempo para ver os filhos crescerem, enxergar pouco o que acontece com eles, delegar a educação para terceiros são problemas para Cleci.

“Faço o máximo que posso, não é o ideal. Meu perfil é o de dar mais atenção para os filhos, que são minha prioridade. Quero poder trabalhar e dar qualidade de vida para eles, mas é um esforço muito grande para um retorno muito pequeno”. Mas se o tempo que ela tem para ficar com as crianças é pouco, ela faz de tudo para que seja com qualidade. “Mesmo que sejam poucas horas, que seja o melhor tempo que se possa oferecer”.

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