Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 224 | Ano 23 | JUN 2018
LUIS FERNANDO VERISSIMO
COLUNISTA

Arte: Ricardo Machado

Arte: Ricardo Machado

Em Porto Alegre havia um cinemeiro, fã de filmes classe B, que dizia “Como é bom ver filmes ruins!” Era o seu lema, e ele tinha até uma escala de diretores preferidos, numa ordem de lamentável a horroroso. Naquela época a gente também tinha um lema, nunca declarado mas tácito, que era “Como é bom ver filmes deprimentes”. Íamos ao cinema para sermos arrasados pela inviabilidade da condição humana e o vazio existencial da vida moderna, e voltávamos no dia seguinte para ser arrasados de novo. No topo da nossa escala de diretores deliciosamente depressores estavam Ingmar Bergman e Michelangelo Antonioni, que morreram quase ao mesmo tempo.

O grande paradoxo, e a grande arte, de Bergman e Antonioni era esta, a de nos maravilhar com a nossa própria desgraça. Bergman ainda fez algumas comédias mas Antonioni só repetiu em seus filmes que nenhuma criação humana importava muito diante da indiferença do mundo natural e o silêncio das estrelas – inclusive os seus filmes.

Antonioni filmando os grandes espaços mudos que separam as pessoas, a estranheza com o outro e a impotência dos sentimentos – sempre com muita elegância – e Bergman com suas parábolas sombrias sobre culpa, redenção e morte, repartiram entre si a crise de consciência da segunda metade do século 20, pós-Hiroshima e pós-Holocausto, e definiram a estética do desespero de que gostávamos tanto. Os cenários usados pelos dois, que no caso de Bergman podia ser apenas rostos humanos, eram os de um mundo desprovido, espaços tristes representando a ausência de significado, de Deus ou de solução.

Bergman fugiu para a comédia, para uma extasiante evocação da infância e exaltação da vida em Fanny e Alexander e até para a redenção pelo calor materno, como no final de Gritos e sussurros em que a atormentada protagonista encontra a paz nos vastos e nada complicados peitos de uma antiga ama. Antonioni fez menos filmes e, talvez por isto, não encontrou nenhuma solução. Não nos traiu, foi deprimente até o fim.

Uma cena arquetipal do Bergman é aquela de O sétimo selo, do jogo de xadrez com a Morte. Woody Allen reeditou a cena medieval: na sua versão um novaiorquino moderno recebe a Morte em casa, propõe um jogo de biriba em vez de xadrez – e ganha. Pode ser uma das cenas inaugurais do pós-modernismo, ou um mote para a redenção sem depressão. Afinal, parodiando a célebre frase dostoievsqueana, só porque Deus não existe não é razão para ficar de cara feia.

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