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Nº 230 | Ano 23 | DEZ 2018
ARTE+
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Por Renato Dalto

Foto: Fragmento de “El muchacho de los arreos”, óleo sobre tela de Cesáreo Bernaldo de Quirós (Argentina, 1879-1968)/ Domínio Público

Foto: Fragmento de “El muchacho de los arreos”, óleo sobre tela de Cesáreo Bernaldo de Quirós (Argentina, 1879-1968)/ Domínio Público

 

Onde eles habitaram, não tinha lei nem rei. “Naquela realidade singular entrechocavam-se, antinômicas, tendências monstruosas e qualidades superiores. Umas e outras no mesmo grau de intensidade”. Ao lembrar essa frase do coronel Moreira Cesar, citada por Euclides da Cunha, o artista plástico uruguaio Gustavo Nakle faz a primeira alusão ao seu novo trabalho no qual abordará a velha rivalidade entre chimangos e maragatos, referência à revolução de 1923 que dividiu o Rio Grande do Sul. A frase refere-se aos caciques indígenas, mas Nakle entende que pode se aplicar perfeitamente ao ambiente onde se gera esse tipo do Cone Sul, mistura de peão, andarilho e soldado. Será um tabuleiro de xadrez, com 32 peças, sobre o qual ele criará figuras de peões, ícones mitológicos e outras estampas para penetrar num mundo cheio de dicotomias, interpretações hiperbólicas e abstrações em torno disso que costuma se chamar gaúcho. Um símbolo que muitas vezes, na sua profundidade, se conhece pouco. E que é capaz de suscitar inúmeras interpretações.

Nakle é um especialista em criação simbólica de tabuleiros e suas dicotomias, simbolizadas por rivalidades reais ou simbólicas. “São 32 peças exclusivas. Já fiz muitas, como a disputa entre portadores de fogo e carregadores de água, místicos e financistas. Então, achei interessante fazer essa guerra entre chimangos e maragatos como se fosse um jogo de xadrez. Eu já fiz um em bronze pequeno, gostei muito como ficou, e decidi elaborar um de grande porte. Os peões de tamanho natural e figuras maiores”, explica Nakle.

Será, evidentemente, uma discussão das dicotomias da própria identidade do gaúcho. Embora esclareça que não pretende polemizar com movimentos tradicionalistas e outras visões, esse trabalho se insere numa longa discussão entre metáfora e realidade disso que se costuma chamar de gaúcho, uma permanente contraposição entre realidade e mistificação.

A própria origem da palavra, derivação do francês gauche, remete ao “vagabundo dos campos, carneador assalariado ou clandestino, contrabandista de couro, agregado das primeiras estâncias, ginete hábil de costumes e vestuários particulares, ao qual se chama também de changueiro ou gaudério”, na definição do historiador uruguaio Fernando Assunção em História do Gaúcho.

Nakle também vai acrescentar, no tabuleiro, figuras mitológicas. Uma delas é o Minotauro. “É a primeira figura, que se chama peão degolador maragato. É extremamente  simbólica por ser produto de uma traição da esposa do Rei Minos (Psifae) e que dá origem a esse homem com cabeça de touro, o Minotauro, que depois é escondido no labirinto. Ele significa o poder do inconsciente. O corpo, carregando a cabeça do touro, um animal que  é o símbolo da abundância aqui na visão pampeana, aquilo que o Alberto Spindola, pintor lá de Mato Grosso, chamou de bovinocultura”, revela Nakle.

Esse pampa, antes terra de ninguém, depois dividido entre os países que costeiam o Rio da Prata (Sul do Brasil, Uruguai e Argentina), é território fértil para o galope do imaginário ou a construção de alegorias, tipos, gestos e projeções a partir de quem olha de fora, ou de longe. O professor  de História Cláudio Knierin é um pesquisador debruçado sobre o tema da contribuição do negro na tradição gaúcha. Ele entende que a amplidão do que se chama gauchismo ou tradição cria, muitas vezes, figuras e narrativas que, na vida real, não se confirmam. “Por exemplo, é questionável se existe tão forte essa divisão de tipos de gaúchos por região. Falam do gaúcho missioneiro  e eu pergunto o que é esse gaúcho. Ninguém sabe responder”, afirma. Assim como as questões de indumentárias e diferenças, forjadas a partir de uma visão utilitária do homem enfrentando a natureza. O pala ou poncho é um dos casos (leva os adjetivos de bichará, pampa, pátria e assim por diante), que nada mais é do que um acessório usado pelos povos na proteção contra o frio, desenhado de acordo com nuances de cada cultura.

São as projeções, muitas vezes feitas da cidade para o campo. Knierin lembra de três personagens de Erico Verissimo, fundadores da saga exposta na trilogia O Tempo e o Vento: o fanfarrão Capitão Rodrigo Cambará, o ordeiro e silente Licurgo e o singelo e sábio Pedro Terra, o filho de Ana Terra. Na projeção da literatura, a síntese estereotipada aponta um caminho. O que talvez Nakle proponha seja um jogo onde o próprio público pode se movimentar na vastidão do tabuleiro. E projetar, assim, a posição de cada personagem e movimentá-lo. Propõe a dúvida e o movimento. Afinal, a narrativa é uma, mas o personagem pode ser outro. Ou estar em outro espaço. O próprio ato de falar também pode ser uma invenção. Jorge Luis Borges escreve: “Homens da cidade lhes fabricaram um dialeto e uma poesia de metáforas rústicas”. Resta perguntar o que é real e o que é projetado. Talvez não haja resposta.

“Sem saber quem eram ou que eram”

“Muitos não terão ouvido jamais a palavra gaúcho, ou a terão ouvido como uma injúria”. Em um dos primeiros versos de Os Gaúchos, Jorge Luis Borges começa uma densa viagem poética a uma desmistificação. Começa assim, em versos, a descer do pedestal a estátua do nobre altivo a cavalo. E esparrama, ao olhar para a planície pampeana, o homem sem terra e sem destino que costumou se chamar gaúcho. Gaúcho de gauche, torto, sem caminho.

Borges fala desse homem sem apego ou perspectiva. Menosprezado pelos brancos, inimigo dos índios, seu lugar foi a construção de uma identidade anônima, silente, aventureira na medida em que a aventura chegava quase ao desamor à vida. Seu despojo pouco tem a ver com a pintura heroica do nobre a cavalo, imagem que o estancieiro pinta de si mesmo.

“O diálogo pausado, o mate e o baralho foram as formas de seu tempo.
À diferença de outros campesinos, eram capazes da ironia.
Eram humildes, castos e pobres. A hospitalidade foi sua festa”.

Sem ranço ideológico, sem tratado sobre igualdade ou desigualdade, ele traça um ícone real. Em contraponto à construção mitológica, Borges trata o gaúcho na história como um condenado à indiferença. Lembra que foi a soldados de Artigas, Rosas, Urquiza, Peñaloza, Saravia e tantos outros que a história reservou o lugar dos heróis. Mas demarca, ao final do poema, a ironia de um símbolo cujo destino é o anonimato.

“Viveram seu destino como num sonho, sem saber quem eram ou que eram. Talvez o mesmo aconteça conosco”.

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