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20/02/2018
DOAÇÃO

Coração, pulmões, rins e fígado de Felipe Santos Silveira, 17 anos, morto após acidente de motocicleta no último dia 14, foram doados para transplantes pela família do jovem
Por Clarinha Glock

Foto: Arquivo da família

Foto: Arquivo da família

Felipe Santos Silveira tinha 17 anos, um sorriso contagiante, e uma paixão por cavalos e caminhões herdada da família. Desde pequeno, participava de rodeios com o pai, João, e o irmão mais velho, Fernando. Com eles pegou o gosto pela estrada, já que pai, irmão, primos e tios são caminhoneiros de profissão. No dia 14 de fevereiro deste ano, Felipe sofreu um grave acidente quando pilotava uma motocicleta em um trajeto pequeno entre a casa e uma oficina mecânica, em uma faixa lateral da BR 386, em Vendinha, interior de Montenegro. Levado para o Hospital Montenegro, ali foi constatado traumatismo craniano grave, quadro que evoluiu para coma profundo e para a morte encefálica. Os pais, que haviam acompanhado a luta da equipe médica para salvar o filho, questionaram então se era possível doar algum órgão de Felipe. E foi assim que o coração, o fígado, os dois pulmões e os dois rins do caçula da família foram transplantados para seis pessoas diferentes. A dor da tragédia havia se convertido em solidariedade.

Nem o pai, João, nem a mãe, Fátima Santos, tiveram dúvida de que era o melhor a fazer naquele momento de extrema dor. “Eu tinha esse desejo no meu coração, e a minha ex-esposa também”, relata João. “Para subir ao céu não precisa de órgãos, mas para viver na terra, sim. E Felipe gostaria muito de poder salvar pessoas”, pensou Fátima. João concordou: “Se houvesse possibilidade de transplante de cérebro, eu teria corrido o mundo para salvar Felipe”. Como não existe, os órgãos dele poderiam salvar outras pessoas. Além disso, João havia testemunhado o sofrimento de seu patrão, que esperou cerca de sete anos na fila por um transplante de coração. “Antes do transplante, ele era como um morto/vivo, agora está muito bem, joga bola conosco. Esteve comigo, dando apoio no velório”, consola-se.

João e Fátima talvez nem tenham a dimensão do tamanho da bondade de seu ato ao autorizarem a doação de órgãos de Felipe, observa a nefrologista Tatiana Michelon, diretora do Hospital Montenegro. Até este mês, Montenegro era um dos poucos municípios do Rio Grande do Sul em que havia sido registrado 100% de negativa familiar para doação de órgãos.

O Hospital Montenegro, que pertence à Ordem Auxiliadora de Senhoras Evangélicas, foi o primeiro do Brasil a assumir, em 2012, o modelo 100% SUS. Em 2017 instalou a Comissão Intra-Hospitalar de Doação de Órgãos e Tecidos para Transplantes (CIHDOTT). Com equipes treinadas, UTI e equipamentos necessários, o processo de retirada dos órgãos de Felipe foi rápido e bem-sucedido. “Há toda uma logística, porque cada órgão tem um tempo para ser transplantado, e é preciso preparar os receptores”, explica a médica. “Foi emocionante ver o engajamento da equipe, e tudo isso aconteceu porque a família, em um momento tão difícil, confiou nos médicos e enfermeiros. Esse é um motivo de orgulho para a cidade”, atesta.

O amor por rodeios

Foto: Arquivo da família

Foto: Arquivo da família

Em sua curta vida, Felipe colecionou conquistas. Já tinha participado e ganhado alguns rodeios, e em 2016, com o irmão, Fernando, foi campeão do Laço Irmão no Rodeio do Piquete de Laçadores do Rambor, em Triunfo. Por isso, no rodeio do próximo final de semana os amigos vão vestir camisetas com a foto de Felipe laçador.

Ainda nos próximos dias, o guri humilde, carismático, cheio de sonhos – como bem descreveu sua irmã, Eduarda – vai ser lembrado dentro do Estado, e fora dele. É que Felipe, que se divertia fazendo fotos de caminhões para o blog Flogão VIPS do SUL nos intervalos de trabalho como operador de máquina injetora, agora vai circular pelas estradas, levado por centenas de amigos caminhoneiros em adesivos colados no vidro de seus caminhões, onde se lê “Eterno Sacolinha” – como João vivia recolhendo pasto para seu cavalo, tinha sido apelidado de “Saco Véio”; Fernando era o “Saquinho”, e Felipe o “Sacolinha”.

CULTURA DOADORA – Pois o “Eterno Sacolinha” vai continuar vivo também através do Projeto Cultura Doadora, lançado em 2012 pela Fundação Ecarta para contribuir na formação de uma cultura de solidariedade e de uma atitude proativa para a doação de órgãos e tecidos. “É lamentável o ocorrido com uma pessoa tão jovem, mas devemos cumprimentar os pais pelo discernimento e sensibilidade de autorizar a doação”, diz o professor Marcos Fuhr, coordenador do Projeto. “É importante que haja na sociedade um maior número de pessoas com disposição doadora para que, quando defrontados com uma situação assim, tenham um ato de generosidade que vai prolongar as condições de vida de outros que estão aguardando um órgão para viver melhor”, enfatiza.

Desde o final de 2017, o Cultura Doadora é parceiro no processo de sensibilização da população de Montenegro para ampliar ainda mais o número de doações. Ainda neste mês, o Cultura Doadora Montenegro levará palestras para todos os professores na Escola Sinodal Progresso. Nos dias 5 e 7 de março, representantes da Organização de Procura de Órgãos 1 (OPO1), com sede na Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre, que atua na Região Metropolitana, farão uma palestra para alunas da Pedagogia da Uninter, a partir das 18h30. No dia 12 de abril, haverá uma palestra do cirurgião torácico especialista em transplantes de pulmão Spencer Camargo, e show da banda Los 3 Plantados na Fundarte, às 19h.

Mais informações sobre o Projeto Cultura Doadora podem ser acessadas no site da Fundação Ecarta

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