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17/05/2018
ENSINO PRIVADO

Duas chapas lideradas por professores disputam comando da universidade comunitária de Passo Fundo
Por Gilson Camargo | De Passo Fundo
Eleições mobilizam comunidade acadêmica nos campi da UPF

Foto: UPF/ Divulgação

Eleições mobilizam comunidade acadêmica nos campi da UPF

Foto: UPF/ Divulgação

Uma das poucas instituições privadas do estado que ainda preservam o processo democrático na escolha de dirigentes, a Universidade de Passo Fundo (UPF) terá eleições diretas no dia 23 de maio para definir a sua reitoria para o quadriênio 2018-2022. O atual reitor, José Carlos Carles de Souza, eleito em 2010, ano em que quatro chapas concorreram ao pleito, foi reconduzido ao cargo em 2014, em uma eleição de chapa única. Souza, que pelo estatuto da instituição não pode ser reeleito por já ter cumprido dois mandatos, deixa o cargo em julho.

Integrantes da Chapa 1 receberm os diretores do Sinpro/RS Cláudia Freires e Amarildo Cenci

Foto: Gilson Camargo

Integrantes da Chapa 1 receberm os diretores do Sinpro/RS Cláudia Freires e Amarildo Cenci

Foto: Gilson Camargo

Duas chapas homologadas no dia 8 pela Comissão Eleitoral disputam os votos dos 17.847 eleitores. A Chapa 1 –    UPF mais! tem como candidato a reitor o professor Agenor Dias de Meira Junior, atual vice-reitor administrativo; e a Chapa 2 – Ação UPF, é liderada pela professora Bernadete Maria Dalmolin, vice-reitora de Extensão e Assuntos Comunitários da UPF desde 2012. Além de propostas para assegurar a viabilidade econômica e financeira da instituição e a valorização dos professores, norteiam a campanha o debate sobre a identidade comunitária da UPF e a aproximação das consultorias educacionais privadas via Consórcio das Universidades Comunitárias do RS (Comung), que para os candidatos representa risco de rebaixamento da qualidade do ensino.

Dirigentes do Sindicato foram recebidos também pela Chapa 2 e expuseram reivindicações dos professores

Foto: Gilson Camargo

Dirigentes do Sindicato foram recebidos também pela Chapa 2 e expuseram reivindicações dos professores

Foto: Gilson Camargo

A mercantilização do ensino representada por essas consultorias, os direitos dos professores e a qualidade da educação, entre outros temas, foram pauta de reuniões de representantes da direção do Sinpro/RS com os integrantes das duas chapas no sábado, 12, no campus central da UPF. “O Sinpro/RS vem alertando sobre as propostas patronais que visam a excluir ou flexibilizar direitos dos professores, descaracterizar a representação sindical e ainda a aproximação das instituições comunitárias com a tendência de mercantilização da educação representada pelas consultorias privadas. Temos interesse em que as comunitárias não entrem em aventuras, comprando pacotes de quem quer o fim das instituições, e invistam em parcerias mútuas que as fortaleçam enquanto universidades comunitárias”, explicou Amarildo Cenci, diretor do Sinpro/RS. O Sindicato entregou aos representantes de cada chapa cópias do Manifesto do Ensino Privado Gaúcho aprovado em assembleia dos professores do ensino privado e as Resoluções do Fórum das Comunitárias.

VOTAÇÃO – Estão habilitados a votar na eleição para a reitoria da UPF os professores em exercício ou licenciados (exceto convidados e substitutos), funcionários da Fundação com funções vinculadas à universidade, alunos da graduação e da pós e representantes da comunidade que integram os órgãos colegiados superiores da universidade. Cada categoria, no entanto, tem pesos diferenciados na proporcionalidade do pleito: os votos dos professores e representantes da comunidade têm peso 70 e os das demais categorias, peso 15 cada uma. O processo é informatizado, com a utilização de terminais de computadores em diversos locais de votação, entre os quais as unidades acadêmicas e os campi, das 9h às 21h30min do dia 23 de maio – quarta-feira. O voto é facultativo mediante identificação junto à mesa eleitoral antes de assinar a lista de votantes. “Será uma eleição democrática, pois temos duas chapas inscritas, e seus integrantes são pessoas bastante qualificadas, com ampla vivência na universidade”, projeta a professora Renata Pagliani, presidente da Comissão Eleitoral.

CANDIDATOS

Com duas chapas concorrentes, a eleição para a reitoria da UPF, gestão 2018-2022, será realizada no dia 23 de maio, das 9h às 21h30min, no Campus I (Bairro São José – Passo Fundo), Campus II (Rua Teixeira Soares, 817 – Passo Fundo) e nos campi Carazinho, Casca, Lagoa Vermelha, Palmeira das Missões, Sarandi e Soledade.

 Chapa 1

Reitoria: Agenor Dias de Meira Junior
Vice-Reitoria de Graduação: Rosani Sgari
Vice-Reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação: Jurema Schons
Vice-Reitoria de Extensão e Assuntos Comunitários: Edemilson Jorge Ramos Brandão
Vice-Reitoria Administrativa: Adriano Lourensi

Chapa 2

Reitoria: Bernadete Maria Dalmolin
Vice-Reitoria de Graduação: Edison Alencar Casagranda
Vice-Reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação: Antonio Thomé
Vice-Reitoria de Extensão e Assuntos Comunitários: Rogerio da Silva
Vice-Reitoria Administrativa: Cristiano Roberto Cervi

 

ENTREVISTA

Identidade comunitária e a ameaça das consultorias privadas

Doutor e Mestre em Engenharia Mecânica, respectivamente pela Ufrgs e Ufsc, MBA em Gestão de Instituições de Ensino Superior pela UCS, professor da UPF desde 1987, membro do Conselho Universitário da instituição de 1995 a 2002 e desde 2018, o candidato ao cargo de reitor pela Chapa 1, Agenor Junior integra a atual reitoria como vice-Reitor Administrativo. A professora Bernadete Dalmolin, candidata da Chapa 2, é doutora e mestre em Saúde Pública pela USP, tem MBA em Gestão do Ensino Superior e especialização em Saúde Mental e Administração Estratégica em Saúde pela UFPel. Vice-reitora de Extensão e Assuntos Comunitários da UPF desde 2012, já integrou o Conselho Diretor da FUPF, a equipe de Planejamento Estratégico Institucional da UPF e atua na coordenação nacional do Forum de Extensão das Instituições Comunitárias de Educação Superior. É professora da UPF desde 1992. Na entrevista a seguir, a síntese das propostas:

Chapa 1: Edemilson Brandão, Rosani Sgari, Agenor Junior, Jurema Schons e Adriano Lourensi

Foto: Gilson Camargo

Chapa 1: Edemilson Brandão, Rosani Sgari, Agenor Junior, Jurema Schons e Adriano Lourensi

Foto: Gilson Camargo

Chapa 2: Cristiano Cervi, Bernadete Dalmolin, Rogério Silva e Edison Casagranda

Foto: Gilson Camargo

Chapa 2: Cristiano Cervi, Bernadete Dalmolin, Rogério Silva e Edison Casagranda

Foto: Gilson Camargo

Extra Classe – Quais são os desafios a serem enfrentados pela UPF no próximo período e a síntese das propostas da sua chapa para fazer frente a essa realidade?

 Agenor Dias de Meira Junior – Muitos são os desafios que enfrentam as universidades comunitárias, como a UPF, no contexto atual, de aceleradas e imprevisíveis mudanças econômicas, sociais, culturais, atitudinais. Entre eles, a redefinição do espaço e do papel da Universidade, após 50 anos de existência, como protagonista das mudanças necessárias à sociedade. Tais demandas, mais ou menos complexas, sempre exigem a leitura atenta do cenário, o bom senso e o equilíbrio para buscar as alternativas que permitam o enfrentamento das dificuldades e a construção de soluções plausíveis. Nesta perspectiva, os integrantes da Chapa 1 assumem o compromisso de um trabalho colaborativo e cooperativo, em que a experiência em gestão já vivenciada nos mais diferentes espaços e instâncias, soma-se ao desejo de manter a UPF renovada e fortalecida, de modo a continuar impulsionado o desenvolvimento que nossa região necessita e merece. As propostas da Chapa 1 estão marcadas por três grandes princípios, que sustentam as diretrizes a serem perseguidas ao longo da nova gestão: a) a vivência da colegialidade com autonomia, responsabilidade e sustentabilidade; b) a vivência da cultura, da inovação e da internacionalização; c) a vivência da universidade comunitária, respeitando forte ligação com a região e o cumprimento de sua missão de transformação social. Privilegia-se, assim, o trabalho integrado a ser efetivamente desenvolvido pela equipe, que assume o compromisso de uma articulação produtiva, com base nos projetos estratégicos e integrados definidos à Instituição que, pelos impactos que causam, naturalmente transversalizam todas as pastas.

Bernadete Dalmolin – Além do ambiente externo de crise econômica, política e moral pela qual o país está passando, a UPF, assim como grande parte das instituições comunitárias, também precisa conviver e dialogar com um contexto de profundas transformações no campo da educação superior, tais como a massificação dos sistemas e a competição entre instituições de ensino superior. No contexto interno, o Movimento Ação UPF – Para Além dos 50 anos (Chapa 2) entende que os principais desafios estão relacionados à busca pela sustentabilidade econômica, a necessidade de qualificar o ensino de graduação e a governança, bem como consolidar os recentes e reconhecidos avanços na extensão, na integração com a comunidade, na pesquisa e na pós-graduação. Diante disto, valorizando as conquistas produzidas ao longo dos 50 anos da instituição, apresentamos propostas para reforçar o caráter de universidade comunitária da UPF, equilibrar colegialidade e pró-atividade na gestão, mover-se com agilidade frente aos desafios e preservar os valores acadêmicos. Nesse sentido, as principais propostas são: fortalecer o ensino de graduação, garantir a sustentabilidade econômica, implementar a gestão compartilhada e consolidar a pesquisa, a extensão e a pós-graduação.

 EC – Qual a sua avaliação sobre a situação financeira da instituição?

 Agenor – A situação financeira da Instituição está equilibrada. Ações, como a oferta de Fies e dos programas próprios de parcelamento PAE e PEC, levaram a Instituição a obter resultados econômicos positivos, mesmo nos últimos três anos de intensa crise.  O percentual de endividamento da Instituição em relação à receita vem reduzindo ano a ano, graças às ações de controle e de planejamento adotadas. Também, foi necessário negociar o endividamento que herdamos em 2010, com redução de taxas de juros, o que reduziu as despesas financeiras da Instituição. Manter e consolidar o que construímos, fortalecendo a qualidade acadêmica, sem perder o foco na valorização e o desenvolvimento das pessoas em um período em que outros têm encolhido, seja pela demissão de professores e de funcionários e/ou do fechamento de cursos, significa ser maior e, efetivamente, fazer a diferença por ocasião da retomada do crescimento em nosso País.

 Bernadete – Assim como quase todas as instituições de educação superior não mercantis, que não visam lucros, a UPF também enfrenta desafios de ordem econômica e financeira. É uma situação que gera preocupação, mas temos domínio e conhecimento dos números da instituição, conhecemos e entendemos de educação superior, do seu momento de transformação e sabemos o que fazer para administrar a crise e projetar a UPF a médio e longo prazo. A sustentabilidade econômica da UPF deve estar pautada por um conjunto de práticas econômicas, financeiras e administrativas que visam a valorização do capital humano da instituição, a busca do equilíbrio financeiro e a descentralização e modernização da gestão administrativa. A gestão de pessoas e da atividade econômico-financeira da instituição precisa inovar e avançar de forma inteligente e criativa. Deve-se garantir a transparência e a validade das informações para a tomada de decisão no sistema colegiado. Torna-se necessário, prospectar novas fontes de recursos na graduação e pós-graduação lato sensu, ampliar as relações com a matriz produtiva regional e inovar com o corpo docente na prestação de serviços. Trata-se de estratégias fundamentais para o futuro da UPF. Da mesma forma, a criação de um setor de inteligência estratégica para a geração de estudos, trabalhos e análises técnicas que subsidiem a tomada de decisão em nível gerencial qualificará e resgatará, de forma significativa, o capital humano e a estabilidade financeira da instituição.

EC – Qual é a proposta para assegurar a manutenção dos postos de trabalho dos professores, a qualificação docente e assegurar os direitos contratuais da categoria?

Agenor – A UPF implementou, desde 2010, a Cultura Orçamentária. Despesas como folha de pagamento de professores, folha de pagamento de funcionários e de custeio passaram a ser geridas de forma eficiente. Os recursos gerados pela Instituição passaram a ser efetivamente alocados para a qualificação acadêmica, seja na infraestrutura, no ensino de graduação, na pesquisa e pós-graduação, na extensão e/ou na inovação. Essas ações, aliadas ao planejamento e à antecipação de cenários futuros, têm levado a UPF a não sofrer significativo impacto da crise. A prioridade da gestão, nesse momento, é a manutenção de seu corpo de funcionários e professores, em detrimento aos investimentos em infraestrutura e imobilizações. Também foi adotada uma política efetiva de marketing e de comunicação para a captação de alunos através do vestibular e das modalidades de ingresso especial, utilizando como ferramenta os programas institucionais próprios de financiamento e parcelamento. A prestação de serviço, apesar da crise, tem mantido seus níveis de geração de receita. Essas ações, em conjunto, têm sustentado a saúde econômica da UPF.

Bernadete – Entendemos que o equilíbrio entre sustentabilidade econômica e qualidade acadêmica é uma estratégia fundamental para desenvolver a UPF. Essas duas vigas mestras de uma instituição, se bem articuladas, podem se retroalimentar e possibilitar que as atividades-meio e os aspectos econômicos suportem as políticas de melhoria de qualidade e valorização do corpo docente. A nossa maior riqueza são nossos professores, funcionários e alunos. Nosso compromisso é com a manutenção, valorização, formação continuada, capacitação e aproveitamento da inteligência dos nossos professores para implementar uma gestão compartilhada, baseada na colegialidade e na autonomia. Com responsabilidade, planejamento e avaliação, procuraremos avançar especialmente no processo de formação docente e na humanização na relação com os professores e a comunidade acadêmica. A história e a trajetória dos candidatos do Movimento Ação UPF – Para Além dos 50 anos (Chapa 2), conhecida e reconhecida pelos professores da nossa instituição, são a maior garantia de que a manutenção dos postos de trabalho dos professores, a qualificação docente e os direitos contratuais da categoria serão uma prioridade na nossa gestão.

 EC – A UPF cumpre papel comunitário? 

Agenor – Sim. A UPF, ao longo de seus 50 anos, formou mais de 77 mil profissionais que contribuíram para o desenvolvimento de toda a região.  Destes, mais de 30 mil são professores. A principal missão da Universidade, atrelada a sua origem, que é a de ofertar educação superior de qualidade no norte do Estado do Rio Grande do Sul, vem sendo atendida plenamente. Na atualidade, são exemplos de ações que demonstram o papel comunitário da UPF: a manutenção de 13 cursos de licenciaturas; a disponibilização de elevado percentual de benefícios, bolsas e financiamentos próprios a estudantes de todos os cursos, que possibilitam sua permanência no ensino superior; a criação do UPF Parque; a operacionalização  de pesquisas e de projetos de extensão com impacto no desenvolvimento regional; o compromisso com a geração e socialização do conhecimento pelo viés da integralidade da formação humana e profissional; o envolvimento com as demandas locais e com as pessoas, entre outras iniciativas.

Bernadete – A UPF é uma instituição grande e forte que muito fez em termos comunitário ao longo de seus 50 anos. Assim, para responder a essa pergunta façamos o exercício de imaginar a região de Passo Fundo sem a UPF! Como seria? Que estágio de desenvolvimento estaríamos? Só com esse pequeno exercício, já podemos perceber o quanto nossa UPF se constituiu em sólida base de desenvolvimento em nossa região. Ao longo desses 50 anos como Universidade, a UPF entregou à região mais de 75000 profissionais de diversas áreas, mais de 2 mil mestres e doutores, incontáveis pesquisas e sólidos projetos de extensão, que fortalecem nossa relação com a comunidade. Além dos dados tangíveis, a chegada da UPF promoveu um choque cultural que promoveu o desenvolvimento cultural de toda a região a ponto de colocar Passo Fundo no mapa nacional como Capital Nacional da Literatura. Mais recentemente, a UPF foi e é protagonista de uma iniciativa portadora de futuro, o UPF Parque que culmina tantas iniciativas dos cursos, programas de pós-graduação, polos de inovação tecnológica e de todos envolvidos no desenvolvimento regional. Pretendemos reforçar o caráter de instituição comunitária da UPF, reforçando o perfil comunitário, visto que esse é um aspecto central para a própria sobrevivência e sustentabilidade econômica de longo prazo da nossa universidade.

 EC – Qual a sua opinião sobre as consultorias privadas, muitas de caráter mercantilista, contratadas pelo Comung e qual o impacto na qualidade do ensino nas universidades? 

 Agenor – Não recomendo consultorias mercantilistas dentro do segmento comunitário. De fato, não compreendem o modelo, apresentam soluções que comprometem a qualidade do ensino, o processo de formação permanente de professores, a sustentabilidade e a autonomia da Instituição; geram passivos trabalhistas, comprometem os quesitos de regulação do MEC, além de destruir o modelo colegiado e democrático característicos de nossas IES.

Bernadete – As consultorias privadas surgiram no contexto da recente expansão de instituições com fins lucrativos e de competição na educação superior. Acreditamos que no âmbito específico das instituições comunitárias, entretanto, a contratação de consultorias privadas não faz sentido visto que possuímos professores e funcionários altamente capacitados para avaliar, analisar, planejar e implementar ações estratégicas para nossas instituições.

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