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27/06/2018
POLÍTICA

Em menos de 24 horas, mais de 40 mil pessoas assinaram a petição on-line que pede à emissora de TV uma oportunidade para a pré-candidata à presidência do Brasil apresentar seu programa de governo
Por Marcelo Menna Barreto

Manuela D'Ávila (PCdoB)

Foto: Reprodução Roda Viva/Youtube

Foto: Reprodução Roda Viva/Youtube

Das poucas coisas que conseguiu expressar sobre suas expectativas políticas durante o programa Roda Viva (TV Cultura), na última segunda-feira, 25, a pré-candidata do PCdoB à presidência do Brasil, Manuela D’Ávila, está conseguindo dar materialidade a uma: a união da esquerda. O PT se manifestou em uma nota oficial lamentando o episódio; e os pré-candidatos Guilherme Boulos (PSol) e Ciro Gomes (PDT) declararam pessoalmente sua solidariedade à deputada estadual do Rio Grande do Sul.

Na realidade, mais do que isto. Após o conturbado programa, que gerou uma série de repúdios e memes nas redes sociais, uma petição on-line que exige da emissora pública do estado de São Paulo uma nova oportunidade para Manuela apresentar suas propostas, conseguiu, em apenas um dia, mais de 40 mil assinaturas – superando 50% das adesões angariadas em uma semana pela russa Alena Popova com a sua petição internacional, que pede a punição dos torcedores que humilharam mulheres do seu país na Copa do Mundo.

Para Ronaldo Carlotto Batista, doutor em Física e professor de matemática na Universidade Federal do Rio Grande do Norte, em uma estimativa preliminar, nesse ritmo, mais 280 mil assinaturas seriam coletadas em uma semana. “Achei a entrevista de Manuela ao Roda Viva um espetáculo de falso jornalismo, onde pseudo-profissionais abusaram de falácias, simplismos, grosserias e interrupções, muitas delas de cunho machista, com a clara intenção de depreciar as ideias da entrevistada”, disse o físico

Não houve entrevista

“É jovem, é mulher, é bonita. Isso tudo não seria problema para os opressores se ela não fosse uma política inteligentíssima, que, além de tudo, é comunista, pensa livremente e é super bem preparada onde muitos só mostram sua ignorância”, destaca a filósofa Márcia Tiburi. E sentencia “os machistas heteronormativos estão em pânico. Morrem de medo de Manu”.

Roda Viva/TV Cultura São Paulo

Foto: Roda Viva/Reprodução

Foto: Roda Viva/Reprodução

“Não foi uma entrevista. Parecia um interrogatório. O ambiente lembrava os porões do DOI CODI”, falou a editora da revista Cult, Daysi Bragantini, ao Extra Classe. Para a professora da rede pública municipal de São Paulo Flávia Alves Bezerra o programa “foi lamentável… retrata tudo o que estamos vivendo hoje e mais, representa o preconceito histórico em relação às mulheres… repúdio”, firmou.

O episódio repercutiu mal dentro da própria TV Cultura.

Mais de um funcionário da emissora pediu anonimato ao Extra Classe, com medo de represálias da TV estatal. “Nem quando o Augusto Nunes, um cara extremamente parcial, estava comandando o programa a gente chegou a esse ponto”, diz um dos funcionários. Para outro, é de lamentar o que fizeram com o Roda Viva. “Os últimos governos de São Paulo conseguiram arruinar a reputação de um programa que era considerado um marco do jornalismo brasileiro” declara, lembrando em especial a saída do jornalista Heródoto Barbeiro do comando da bancada do Roda Viva, em 2010, devido as perguntas que fez ao então candidato à presidência pelo PSDB, José Serra, sobre os pedágios paulistas.

A questão dos pedágios paulistas inclusive para os funcionários da Cultura foi uma pá de cal no jornalismo da emissora. Segundo registrou o jornalista Luis Nassiff também em 2010 o “pedágio derruba mais um jornalista da TV Cultura”. Nassiff se referia à Gabriel Priolli, na época recentemente nomeado diretor de jornalismo da TV Cultura. Priolli planejou matéria sobre os pedágios paulistas, onde foram ouvidos Geraldo Alckmin e Aloízio Mercadante, candidatos ao governo do estado. A Secretaria dos Transportes de São Paulo não quis participar das entrevistas e nem sequer aceitou em enviar uma nota sobre o assunto.

Depois de uma reunião com o também novo vice-presidente de conteúdo da TV Cultura na ocasião, Fernando Vieira de Mello volta, Priolli informou à redação que a matéria teria que ser derrubada. Um dia depois, informou Nassiff, Priolli foi demitido do cargo. “Não durou uma semana”, declarou o jornalista.

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