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06/11/2018
CULTURA
ARTE

Um dos principais cartões postais de São Paulo, a sede Museu de Arte na avenida Paulista completa 50 anos nesta quarta, 7, com a mais completa coleção de arte do hemisfério Sul
Por Marcelo Menna Barreto

Foto: Marcelo Menna Barreto

Feirinha de antiguidade aos domingos, projeções de cinema ao ar livre, shows de rap e hip hop, pregações religiosas, atos pro-impeachment de Dilma, atos contra o impeachment de Dilma, Lula livre, Lula preso, assembleia de professores e muito mais. Nesse dia 7 de novembro, mais do que um cartão postal da cidade de São Paulo, um verdadeiro ponto de encontro da capital do estado mais rico do Brasil comemora seu cinquentenário, o prédio do Museu de Artes de São Paulo (Masp), marco na história da arquitetura do século 20.

Projetado pela arquiteta ítalo-brasileira Lina Bo Bardi (1914-1992) e tendo como engenheiro responsável Isac Grobman, o prédio erguido para sediar definitivamente a agora mais completa coleção de arte ocidental da América Latina e do hemisfério Sul, já surgiu quebrando conceitos. Se na década de 1960 a avenida Paulista intensificava um processo de verticalização, dando lugar a sedes de importantes empresas do setor financeiro, corporações e prédios comerciais, Lina Bo Bardi apostou em uma grandiosa e horizontal edificação.

Construção do Museu, década de 1950

Foto: Arquivo do CP/Masp

Concebido pelo engenheiro José Carlos de Figueiredo Ferraz, o vão livre de 74 metros que se equilibra sob quatro gigantescos pilares tornou a instituição tão conhecida quanto por seu próprio acervo: são mais de 10 mil obras, incluindo pinturas, esculturas, objetos, fotografias, vídeos e vestuário de diversos períodos, abrangendo a produção europeia, africana, asiática e das Américas. É sob a sombra de um valor incalculável de obras de arte que durante todo o ano o chamado “vão livre do Masp” se torna palco para diversas manifestações, feiras livres, exibições de filmes, flashmobs e apresentações de artistas de rua.

A controvérsia do Belvedere

A edificação do Masp no terreno do antigo Belvedere do Trianon que foi demolido em 1951, nos últimos meses tem gerado pelo menos uma controvérsia. Enquanto arquitetos louvam a genialidade de Lina Bo Bardi, Flora Figueiredo, única neta viva do médico português José Borges de Figueiredo diz que o vão livre “não é casual. Está cumprindo acordo feito à época com a prefeitura”, fala. Segundo Flora, seu avô que foi um dos pioneiros na construção da avenida Paulista no fim do século 19, era dono do terreno e o vendeu à prefeitura de São Paulo por um preço irrisório, abaixo do mercado, com a condição de que a administração municipal não permitisse a retirada da vista da Paulista para o centro da capital, mantendo um parque aberto à população. “É por isso que quando a Lina Bo Bardi foi construir o Masp teve de manter o vão”, explica ao informar ainda que guarda a documentação que comprova a transação imobiliária com a condição expressa por seu avô.

Vista externa do Museu, década de 80

Foto: Luiz Ossaka. Arquivo do CP/Masp

Controvérsias à parte, o fato é que o projeto de Lina manteve a vista para o centro, criando entre a parte suspensa e as dependências subterrâneas do museu uma grande esplanada, o Vão Livre – pensado como uma praça pública para uso da população.

Brutalismo e Primeira Bienal

Baseado no uso de vidro e concreto, o cinquentenário Masp mescla em sua arquitetura as superfícies ásperas e sem acabamentos com leveza, transparência e suspensão e é considerado um importante exemplar da Arquitetura Brutalista brasileira e um dos mais populares ícones da capital paulista, sendo tombado pelas três instâncias de proteção ao patrimônio: o Instituto do Patrimônio e Artístico Nacional, pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico e pelo Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da cidade de São Paulo.

Dezessete anos antes, o terreno que viria posteriormente sediar o Museu já dava mostras do futuro que aguardava. De 20 de outubro e 23 de dezembro de 1951, um pavilhão provisório foi erguido no local para a primeira edição da Bienal Internacional de Arte de São Paulo, realizada pelo Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM-SP). Hoje, em sua 33ª edição, a Bienal de São Paulo acontece em prédio próprio no Parque do Ibirapuera.

Financiamento e manutenção

Instituição particular sem fins lucrativos, o Masp foi fundado em 1947, por iniciativa do paraibano Assis Chateaubriand e ao longo de sua história, notabilizou-se por uma série de iniciativas importantes da museologia e do ensino da arte. Foi também um dos primeiros espaços museológicos da América a atuar com o conceito de Centro cultural.

Este ano, o Ministério da Cultura autorizou o Masp a captar R$ 28,7 milhões para contribuir com a manutenção de suas atividades anuais de custeio para 2019.

Albert Eckhout – Homem negro (esq) e Mulher negra com criança (dir); Ellen Gallagher – Extático Aguado (centro) – exposição Histórias Afroatlânticas, em cartaz em 2018.

Foto: Masp

Outra importante novidade é que a instituição passará a receber aportes do programa Keeping It Modern, da norte-americana Fundação Getty, cujo objetivo é desenvolver pesquisas voltadas à conversação de edifícios modernos no mundo. O objetivo do trabalho, completado neste ano, foi estabelecer um plano com diretrizes de conservação e manutenção permanente.

Além das mostras de seu acervo, o Masp conta com uma programação de exposições coletivas e individuais que se articulam em torno de eixos temáticos – as histórias afroatlânticas (2018) e  as histórias feministas/histórias das mulheres (2019). Também, conta com programas públicos desenvolvidos pelo núcleo de mediação, que inclui seminários internacionais, palestras realizadas mensalmente no primeiro sábado de cada mês; o programa Masp professores; oficinas, cursos no Masp escola e programação de filmes e vídeos.

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