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17/12/2018
TRANSPORTE

Seis anos depois da compra de 15 trens pela Trensurb, oito seguem parados e são motivo de vergonha para a estatal e de indignação para usuários
Por Tom Belmonte

Trens parados na Trensurb

Foto: Igor Sperotto

Foto: Igor Sperotto

Em junho deste ano o Extra Classe denunciou que a Empresa de Trens Urbanos de Porto Alegre (Trensurb) jamais conseguiu colocar a rodar juntos os 15 trens da série 200, comprados em 2013 por quase R$ 245 milhões. Meio ano depois da denúncia, que apontava ainda a suspeita de cartel na licitação ganha pelo consórcio Frota Poa e a canibalização dos trens, com a retirada de peças dos veículos parados para colocação naqueles em serviço, o vexame e a vergonha continuam. Quando do fechamento desta reportagem, apenas oito dos 15 trens estava em operação. A falta de peças, que só existem na Suíça, e o polêmico cronograma de recall dos veículos pelo consórcio, é a justificativa do conta gotas. Enquanto isso, os cavalos de ferro que seguram a operação da Trensurb são os velhos trens da série 100, trabalhando há 33 anos e apelidados no verão de “micro-ondas”, por não terem ar-condicionado. O ônus da acomodação e omissão da estatal em, efetivamente, resolver a questão, se estampam nos mais de R$ 4 milhões em gastos extras em energia elétrica e o desconforto diário a milhares de passageiros.

Micro-ondas pra cozinhar gente

“Sem ar-condicionado não dá. Não adianta abrir janelinha, é um micro-ondas”, desabafa o servente de obras Nairo Augusto da Silva, 45 anos, enquanto seca o suor da testa. Silva é um dos cerca de 50 passageiros que balançam num dos vagões de um trem da série 100 na tarde escaldante de 11 de dezembro de 2018. Dia em que os termômetros ultrapassaram os 38º em Porto Alegre e região metropolitana. O efeito sauna é rotina conhecida há vários verões pelos quase 200 mil passageiros/dia do “metrô de superfície”. Os velhos trens não tem de ar-condicionado e como um picolé ao sol percorrem os 48 quilômetros entre a Estação Mercado, em Porto Alegre, e a Estação Novo Hamburgo, no Vale do Sinos. Somam 16 dos 24 veículos que atuam na linha diariamente. Os demais oito que completam a operação são os “novos”, e que de novos só tem o adjetivo. Adquiridos em 2013, sob argumento de ar-condicionado, TV a bordo e bancos ergonômicos, viraram um exemplo do descaso com o dinheiro público. Dos 15 novos, cinco estão parados. O 14º e 15º findariam seu recall em dezembro, conforme cronograma lerdo entre a Trensurb e o Frota Poa, que reúne a francesa Alstom e a espanhola CAF, ganhador da licitação para a fabricação dos trens. E aqui um parêntese que talvez explique a falta de colhão dos gestores da estatal em “chamar na chincha” a dupla: as multinacionais dominam o setor de trens no País e, na prática, fazem os reparos ao seu tempo, num comprometimento questionável com prazos.

Faltam peças, sobram explicações

Foto: Igor Sperotto

Foto: Igor Sperotto

Mas, na real, o quê explica a novela? A Trensurb afirma que as peças para o fim da manutenção preventiva nos trens parados, como contatos fixos e móveis, abafador de arcos, bloqueador de arcos e proteção contra faíscas, dependem de um único fornecedor homologado. “É a Sécheron e as peças são fabricadas em sua unidade na Suíça”, diz a estatal. O que faz o presidente do Sindicato dos Metroviários (Sindimetrô-RS), Luiz Henrique Chagas, perder a paciência. “Falta gestão e recursos pra comprar as peças. Essas peças não estão na garantia? Mas será que foi feita essa garantia? Esses trens não rodaram, a garantia tem que ser estendida”, brada ele. Reitera que a Trensurb não dá satisfações e só diz que a Alstom/Caf está cumprindo o cronograma, enrolado desde 2016 por sucessivas falhas do consórcio no cumprimento dos reparos. “Mas a cobrança nossa é e as multas? Estão sendo aplicadas? Este ano são quase 10 milhões a mais em energia elétrica, vai ficar entre 35 e 40 milhões em conta de luz”, ilustra Chagas. Ressalta que o sindicato, que representa 100% dos metroviários, desconhece a sindicância aberta pela Trensurb. “Não recebemos nada até agora dessa sindicância, o que deveria acontecer de forma natural”, cobra ele. A Trensurb garante que os pagamentos ao Frota Poa foram suspensos a partir da quebra dos trens, com os valores das multas de 1% e 2% do custo global do contrato descontados do saldo a pagar, bem como os prejuízos adicionais com energia elétrica em decorrência da não circulação dos trens da série 200. Despesas essas que somente de abril de 2016 a fevereiro deste ano totalizavam R$ 4,6 milhões.

Ação do MPF só em 2019

Se omissão e acomodação explicam o imbróglio na Trensurb, inoperância é um termo que cabe ao Ministério Público Federal (MPF) de Novo Hamburgo, que investiga o caso. Há seis meses o procurador Celso Antônio Tres prometia uma Ação Civil Pública contra a estatal e o consórcio. Mas, ficou no verbo. “Temos uma sobrecarga de trabalho no MPF em Novo Hamburgo. São três Procuradores para 12 Juízes Federais, a maior desproporção do Estado e das maiores do País. Não reclamo, apenas justifico a maior demanda”, diz Tres. Observa, porém, que outros “incidentes” também explicam a sua marcha lenta. “Como a sindicância recentemente instruída pela Trensurb, que concluiu pela responsabilidade de alguns servidores na aquisição dos trens”, destaca. Assegura que já pediu explicações sobre o saldo da sindicância e que apesar da falta de respostas vai apontar culpados. “Pretendo ajuizar a ação no início de 2019.Os danos todos estão consumados. Desde a questão de improbidade na aquisição dos trens, da gestão, do cartel, das pessoas terem ficado privadas dos equipamentos, a questão da energia elétrica, que a empresa gastou a mais”, enumera Tres, pontuando que nos últimos dias a justiça estadual de São Paulo condenou a Alstom e a Caf por cartel na compra dos trens da capital paulista.

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