MOVIMENTO

Territórios e memória da classe operária em Porto Alegre

Por Gilson Camargo / Publicado em 15 de setembro de 2022

Foto: Jener Gomes/ Divulgação

A centenária sede do Sindicato dos Estivadores, que ainda está em uso pela categoria, na Rua André da Rocha, no Centro Histórico da capital gaúcha, é um dos locais de memória e lutas da classe operária em Porto Alegre

Foto: Jener Gomes/ Divulgação

Os locais de organização e mobilização da classe trabalhadora na capital gaúcha estão mapeados no projeto Caminhos Operários em Porto Alegre, iniciativa do historiador Frederico Duarte Bartz. Mestre e doutor em História pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), Bartz é técnico em assuntos educacionais na Faculdade de Arquitetura dessa mesma universidade e é autor do livro O horizonte vermelho: o impacto da Revolução Russa no movimento operário do Rio Grande do Sul, 1917-1920 (Sulina, 319 p. 2017).

Foto: Reprodução

Frederico Bartz: “Mesmo que se negue a sua existência ou se mude sua denominação, o trabalho e a classe trabalhadora seguem existindo”

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Com esse projeto, ele amplia o tema geral das suas pesquisas sobre o movimento operário com uma nova abordagem que incorpora as questões de território, patrimônio e memória. O objetivo é identificar e tornar conhecidos os lugares de memória da luta operária, retratados em textos e fotos na página virtual do projeto – que virou curso de extensão da Biblioteca da Faculdade de Arquitetura da Ufrgs.

“A ideia de um trajeto de memória que tivesse como objetivo resgatar a história da classe trabalhadora de Porto Alegre foi desenvolvida a partir de 2015, provocada pelos debates sobre o direito à cidade que se intensificaram durante as Jornadas de Junho de 2013 e, no caso da capital do RS, se mantiveram vivos nos anos seguintes através de diversas mobilizações contra a privatização dos espaços públicos”, relata o pesquisador. A iniciativa mostra, ainda, preocupação com questões como raça, etnia, gênero, nacionalidade e orientação política da classe trabalhadora.

Capacidade de mobilização

De acordo com Bartz, o debate está centrado na valorização dos locais em que trabalhadores e trabalhadoras atuavam como classe, principalmente através de suas organizações. “Esses sujeitos não eram apenas operários e operárias em seus lugares de trabalho. Fora das fábricas e das oficinas, essas pessoas se encontravam e se identificavam como classe, se engajando em movimentos poderosos, que, muitas vezes, paravam a capital gaúcha”, ressalta.

O Caminhos Operários enfoca um longo período histórico, que se inicia com a Abolição da Escravatura e a Proclamação da República, passando pela Revolução de 1930 e se encerrando no Estado Novo.

“Esse período coincide com o avanço das relações capitalistas e das suas contradições, marcando, também, o surgimento do movimento operário e o desenvolvimento de uma solidariedade de classe ativa entre os trabalhadores e as trabalhadoras”, sublinha.

Itinerários da luta de classes

Foto: Caminhos Operários/ Divulgação

O jornal Gazetinha, na Andradas, foi fundado em 1891 por Octaviano Manoel de Oliveira como uma folha literária e popular, que durou menos de um ano, mas ressurgiu em 1895, com notícias sobre o movimento operário, textos sobre o socialismo e ilustrações produzidas pelo líder sindical Francisco Xavier da Costa

Foto: Caminhos Operários/ Divulgação

As seis caminhadas são realizadas em diferentes regiões da cidade: no Centro Histórico; na Cidade Baixa e Azenha; nos bairros Rio Branco e Bonfim; no Floresta e São Geraldo; no Partenon e Santo Antônio e na Tristeza.

Alguns dos pontos visitados são antigos locais de moradia, outros eram de trabalho, porém o principal foco são aqueles de organização da classe operária. “Nesse caso, os locais visitados causam surpresa, porque costumamos passar por casinhas de porta e janela ou pequenos sobrados, que eram residências de militantes ou tavernas, mas que serviam para reuniões de sindicatos ou de outras associações operárias. Hoje, a maior parte desses lugares está completamente anônima, pois quase ninguém sabe o quão importante foram para o passado da classe trabalhadora em Porto Alegre”, relata.

Bartz destaca que muitos dos locais onde o movimento operário se reunia foram destruídos, daí a importância de valorizar as edificações que restaram.

“Há lugares que ainda estão de pé, mas que são pouco conhecidos: o local onde funcionava o jornal Gazetinha, na Rua dos Andradas, 1257; a antiga sede da Federação Operária, na Rua do Parque,  460; a Sociedade Florida, na Rua Comendador Azevedo, que abrigava as reuniões dos socialistas alemães; a sede do Sindicato dos Estivadores, na Rua André da Rocha, que se encontra em uso pela categoria até os dias de hoje; a antiga Livraria Internacional, lugar onde se organizava o movimento antinazista, na Rua Voluntários da Pátria, 1095…”, enumera.

Para participar do projeto na sua integralidade é necessário estar matriculado no curso de extensão, que é gratuito, com pagamento pelo certificado emitido no final. A terceira edição começa no dia 21 de setembro e se encerra em 23 de novembro. As vagas estão esgotadas, mas é possível negociar um encaixe com a coordenação para participar de uma ou mais caminhadas: frederico.duartebartz@gmail.com.

Descaso e resistência

Foto: Google Street View/ Reprodução

Antiga sede da Federação Operária, na Rua do Parque, 460

Foto: Google Street View/ Reprodução

A pesquisa aponta, também, o descaso do poder público quanto à memória, à história e ao patrimônio arquitetônico da capital gaúcha.

“Em relação à história do movimento operário e da classe trabalhadora, tenho muito medo dos efeitos da especulação imobiliária e das possíveis demolições em série que podem se suceder com as mudanças no Plano Diretor da cidade. Não vejo, da parte da Prefeitura Municipal, por exemplo, uma preocupação em fazer uma prospecção sobre locais que deveriam ser preservados e que são significativos na história da cidade. A demolição da casa do escritor Caio Fernando Abreu é uma consequência prática disso. Para não ficar apenas na perspectiva de quem aponta defeitos sem apresentar soluções, acredito que muitos desses lugares poderiam se tornar pequenos centros de convívio comunitário, bibliotecas públicas, museus de bairro, etc…”

Para o autor, apesar da atual conjuntura de precarização do trabalho e direitos, violência do Estado e desmobilização das massas, ainda faz sentido falar em classe trabalhadora, mas não nos mesmos termos do começo do século 20. “Mesmo que se negue a sua existência ou se mude sua denominação, o trabalho e a classe trabalhadora seguem existindo”, constata.

Protagonismo feminino e imprensa antifascista

Porto Alegre foi pródiga em movimentos que lutavam contra o fascismo entre 1920 e 1940. São pouco conhecidos atualmente, no entanto eram muito diversos, variando conforme a comunidade em que surgiam e o movimento fascista que combatiam. O Grêmio Giacomo Matteotti, dos antifascistas italianos, e o Centro Republicano Espanhol eram reduto de profissionais liberais e de intelectuais. Enquanto isso, a Liga dos Direitos Humanos dos antinazistas alemães e o Comitê Antiguerreiro eram formados por militantes brasileiros da classe operária.

Foto: Caminhos Operários/ Divulgação

O 1195, último dos três prédios ocupados pela Livraria Internacional na rua Voluntários da Pátria. Fundado por Friedrich Kniestedt e administrado por ele e sua companheira, Elisa Hedwig, o estabelecimento foi um difusor de textos e ideias anarquistas a partir da década de 1920

Foto: Caminhos Operários/ Divulgação

Já a comunidade judaica combatia os integralistas através de seus clubes sociais, como o Grêmio Esportivo Israelita, e os bielorrussos e ucranianos criaram a União e Luz Operária para lutar contra os efeitos do expansionismo polonês. A organização da classe trabalhadora na capital gaúcha também foi marcada pela imprensa engajada, em uma época em que, com frequência, não existiam entidades sindicais para representar as categorias profissionais. “Porto Alegre teve muitos jornais operários ou populares, com destaque para a Gazetinha, O Exemplo, o L’Avvenire, A Democracia, A Luta, O Syndicalista, o Der Freie Arbeiter, o Aktion e a Voz do Trabalhador”.

Apesar de ser liderado por homens na Primeira República (1889-1930), o movimento operário teve forte organização e atuação feminina. “Na década de 1890, as operárias socialistas Elisa Sonnenstrahl e Leopoldina Schacherslehner aparecem discursando para suas companheiras de classe. Nas Greves Gerais de 1906 e 1917, temos registro de grandes mobilizações de trabalhadoras, principalmente na região dos Navegantes, que reunia um grande número de tecelãs, que era uma das categorias mais combativas”, ilustra.

A organização das mulheres seria mais marcante nos anos 1920, com o surgimento de entidades como o Centro Libertário Feminino, liderado por Alzira Werkhauser e Cantalice Grecco, por exemplo.

Frederico destaca que esse surgimento também se vincula a um movimento internacional mais amplo, de surgimento de organizações feministas que lutavam por igualdade nas condições de trabalho e pautas específicas. “Nos anos 1930, o Comitê Antiguerreiro tinha em sua direção duas mulheres, Edelmira Flores Cabral e Laura Longe, em uma organização onde as tecelãs também se destacavam”, completa.

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