OPINIÃO

Enquanto houver preconceito e discriminação, haverá orgulho!

Por Rudson Adriano Rossato da Luz / Publicado em 28 de junho de 2021

Enquanto houver preconceito e discriminação, haverá orgulho (2)

Foto: Paulo Pinto/APT/Divulgação

Foto: Paulo Pinto/APT/Divulgação

No dia 28 de junho, celebramos o Dia do Orgulho LGBTIA+, fazendo memória ao grupo de drag queens, travestis, lésbicas e gays, os quais, nesse mesmo dia, mas no ano de 1969, revoltaram-se contra os policiais que, mais uma vez, haviam invadido o bar Stonewall, em Nova York, para hostilizar e prender os frequentadores. A partir dessa data, intensificou-se a luta do movimento LGBTIA+ por garantia de direitos.

No Brasil, somente no ano de 2020, 237 pessoas LGBTIA+ morreram de forma violenta, segundo o relatório do Grupo Gay da Bahia (GGB), simplesmente por manifestarem sua sexualidade de uma maneira diferente da socialmente instituída como padrão. Apesar disso, os políticos – que foram democraticamente eleitos para trabalharem em prol de toda a população – ainda não aprovaram nenhuma legislação em nível nacional a nosso favor. Ressalto aqui que tanto a união civil homoafetiva (2011) quanto o direito à adoção por casais homossexuais (2015) e a criminalização da LGBTIA+fobia (2019) foram garantidas pelo STF.

Mas por que ainda hoje existe preconceito contra pessoas LGBTIA+? Na busca de responder a essa pergunta, entendo como importante discutir sobre dois aspectos que estão interligados: legitimidade e reconhecimento.

Passeata pelos direitos dos gays na Times Square, New York, em 1970, poucos meses depois de Sonewall

Foto: Diana Davies/New York Public Library/Divulgação

Passeata pelos direitos dos gays na Times Square, New York, em 1970, poucos meses depois de Sonewall

Foto: Diana Davies/New York Public Library/Divulgação

Historicamente, nossa sociedade legitimou uma única forma de se viver a sexualidade: a heterossexual. Assim sendo, alguém que nasceu com a genitália masculina, na prática, deve se relacionar afetiva/amorosa/sexualmente com alguém que nasceu com a genitália feminina. Isso é o que os discursos trazem como sendo natural. No entanto, de natural não tem nada, pois isso foi socialmente construído, a partir de uma visão de família que vê o ato de se relacionar apenas como visando à reprodução da espécie.

Contudo, ao mesmo tempo em que há um discurso que naturaliza – e naturalizar é diferente de ser natural – essa possibilidade e que a torna única, qualquer outra possibilidade é entendida como ilegítima, antinatural e desviante. É disso que advém a ideia de que as pessoas que manifestam sua sexualidade necessitam “assumir” que são LGBTIA+, bem como a ideia de que tudo o que foge do padrão hétero tem, muitas vezes, uma explicação dentro de uma perspectiva patologizante.

Essa falta de legitimidade leva ao não reconhecimento de nossas vidas, ou seja, muitas vezes, somos questionados quanto à nossa própria categoria de humanos. Não é raro ouvimos discursos que nos apresentam como “aberrações”, em razão de manifestarmos nossa sexualidade de maneira diferente daquela padronizada. Ouso afirmar que uma das causas dos LGBTIA+ serem mortos de forma violenta se deve ao fato de que muitas pessoas ainda resistem em nos colocar na categoria de humanos, pelo simples fato de manifestarmos a própria sexualidade diferente da do padrão.

Foto: Igor Sperotto

Foto: Igor Sperotto

Se buscarmos os relatórios do Grupo Gay da Bahia (GGB), e da Associação Nacional de Travestis e Transsexuais (ANTRA), podemos verificar que muitos de nós foram mortos com requintes de crueldade, como pedradas ou queimadas. Em 2017, no Ceará, Dandara Velasques, uma mulher trans, foi torturada por quase uma hora, à luz do dia, antes de ser morta a pedradas e tiros. Pessoas a filmaram e a fotografaram, mas ninguém interveio para ajudá-la. Em 2019, Quelly da Silva teve seu coração removido com golpes de uma garrafa quebrada, e ele substituído pela imagem de uma santa, pois, segundo o jovem que a matou, ela era o demônio.

Relatos como esses mostram o quão ainda é difícil existir não estando dentro da norma socialmente imposta no que se refere à sexualidade. Além de medo, nós, que não somos minorias, mas, sim, pessoas que são histórica e socialmente minorizadas, também sentimos grande tristeza, pois cada vez que um LGBTIA+ é morto de forma violenta, apenas em razão de sua sexualidade, um pouco de nós morre junto.

Vivemos numa sociedade heteronormativa, ou seja, a norma (ou o normal) é ser heterossexual. Antes mesmo de nascer, a criança já é colocada dentro da norma, uma vez que já na ultrassonografia o médico fala se a criança é um menino ou uma menina. A partir disso, sua vida já é pensada dentro da heteronormatividade: cores de roupa, brinquedos que receberá, referências a seguir. Ainda quando criança, se for um menino, ouvirá perguntas como: e as namoradinhas? Uma vida toda já definida a partir do que a sociedade espera. Na escola, também haverá todo um cuidado para reiterar as normas: filas para meninos e outra para meninas, brinquedos e brincadeiras segundo o sexo biológico, dentre outras questões.

Contudo, a sexualidade humana escapa a todas essas normas, não podendo ela ser definida. Além disso, a sexualidade é algo de cada pessoa, é individual. Então, não há o porquê de uma pessoa se preocupar com a sexualidade do outro, a menos que tenha algum interesse por ela. Além disso, ao tentar negar a possibilidade do outro manifestar sua sexualidade, acaba-se por anular uma das dimensões da vida humana.

Por tudo isso, o dia 28 de junho é uma data importante dentro da nossa comunidade LGBTIA+. Dia de comemorarmos e de nos orgulharmos pela nossa existência. De dizermos que, apesar do preconceito e da discriminação pelo qual grande parte de nós passa cotidianamente, seguimos lutando e resistindo. A maneira que manifestamos nossos afetos ou por quem o manifestamos não nos define. Como diria Simone de Beauvoir: “que nada nos defina”.

 Rudson Adriano Rossato da Luz é professor, historiador, mestre em Educação. Design Educacional na Universidade de Caxias do Sul (UCS). 

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