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Espantástico
O assombro sobre os ombros não pesa, não cheira, mas muitas e muitas vezes é…

“A obsessão pelo corpo feminino manda o sinal errado para muitas de nós, principalmente para as adolescentes que enfrentam mudanças naturais em seus corpos e precisam adotar estratégias para se adaptar a ambientes muitas vezes hostis e misóginos”
Foto: Gu Kssn/ Pexels
Nós, mulheres, conhecemos bem os olhares indiscretos, as brincadeiras, insultos e demais violências relacionadas aos nossos corpos. Na sociedade em que vivemos, o corpo das mulheres é taxado, avaliado e precificado. É uma mercadoria entre outras, na qual é preciso colocar um valor. Essa objetivação do corpo feminino resulta em padrões impossíveis de serem atingidos (todas conhecemos o corpo impossível das modelos), com toda a carga de transtornos e conflitos internos que a busca pelo “corpo perfeito como moeda de troca na sociedade” acarreta.
Anorexia, bulimia e dietas eternas. Fora esse quadro de doenças ou comportamentos que nos adoece, quero propor a reflexão do quanto a projeção social do corpo perfeito não só cancela nossa subjetividade, como é um desrespeito com o corpo singular de cada uma de nós.
O padrão de beleza muda constantemente conforme a época. Basta observar os rostos, cores e corpos das modelos da Victoria Secret nos anos 1990 (morenas, negras, asiáticas, loiras, altas e baixinhas) e os catálogos da última década, nos quais desfilam apenas mulheres magérrimas, loiras, altas e, principalmente: parecidas umas com as outras.
Esse tipo de obsessão pelo corpo feminino manda o sinal errado para muitas de nós, principalmente para as adolescentes que enfrentam mudanças naturais em seus corpos e precisam adotar estratégias para se adaptar a ambientes muitas vezes hostis e misóginos.
A menina que começa a se identificar com esses padrões ou projeções sociais, em sua estratégia de adaptação, frequentemente sacrifica aquilo que ela tem de mais importante: desejos, vida íntima, o desenvolvimento da própria subjetividade, para atender a desejos artificiais, a modos de conduta e de existência, distantes daquilo que ela de fato é, precisa e deseja.
Impor um padrão de corpo a quem quer que seja (lembremos de que muitos homens também sentem pressão para serem sarados e fortes, ou qualquer coisa que é vendida e embalada pelo mercado) é um desrespeito à pessoa enquanto ser único com sonhos e desejos próprio, bem como ao corpo como suporte de memórias e afetos.
Diferentemente do que imaginamos, o corpo também “pensa”. Por meio dele sentimos dores e prazeres (alguns extasiantes), frio, calor, medo, arrepios… É com o corpo que abraçamos a quem queremos bem e é com o corpo que fugimos de muitos perigos que nos rondam.
O corpo guarda saudades e memórias, o toque da pessoa amada na nossa pele, a lembrança do último abraço do avô que se foi. A pele se comunica com o mundo e troca com os outros afeto e calor. Muito mais do que um “veículo” para a alma, o corpo também funciona como um filtro e um intermediário entre nossa realidade interior e exterior. É com o corpo que circulamos socialmente, estabelecemos contatos, somos identificadas e conhecemos o outro.
É com o corpo que guardamos e protegemos nossos órgãos, vida interior e pensamentos. Desrespeitar o corpo alheio impondo um único padrão de beleza é desrespeitar a identidade e o lugar de troca de afeto de todas nós.
Para terminar, quero indicar o livro que me ajudou a desenvolver esta reflexão. Em Mulheres que correm com lobos (Rocco, 2018, 600p.), Clarissa Pinkola Estés apresenta mais um argumento para o empoderamento do corpo feminino: muitas vezes nossos corpos lembram o das nossas mães, avós e ancestrais.
Se quisermos ter bebês, provavelmente os corpos dos nossos filhos lembrarão os nossos.
Sendo assim, desrespeitar o corpo alheio com deboches, dietas restritivas e demais violências é também desrespeitar nossas raízes, nossas famílias e nossos filhos. Nosso passado, presente e futuro. Não é hora de cada uma de nos orgulharmos de quem nós somos e do corpo que temos?
Gabrielle Farias Oliveira é psicanalista e psicóloga clínica