Os novos oráculos da saúde

Entre promessas de prevenção e riscos de diagnósticos desnecessários, é necessário ter cautela no uso de testes diagnósticos precoces

Os novos oráculos da saúde

Ilustração: L'Oracolo (O Oráculo de Delfos), de Camillo Miola (1840–1919)

Em tempos mais antigos, era comum que os oráculos fossem consultados para se conhecer os ditames da fortuna dos pobres mortais. Um dos mais famosos desses oráculos ficava na cidade grega de Delfos e recebia constantemente nobres e plebeus que ali chegavam em busca de conselhos sobre os mais variados temas. É de se supor que assuntos envolvendo morte e doenças fossem comuns, dada a escassez de recursos médicos efetivos naquela época.

Com o passar dos séculos e as mudanças culturais ocorridas na sociedade, a responsabilidade por essas previsões passou das divindades consultadas nos oráculos para as autoridades religiosas, chegando aos médicos apenas tardiamente, com a consolidação da ciência como uma nova forma de divindade no imaginário popular.

Em tempos mais recentes, previsões sobre saúde e doença costumavam ser feitas por médicos, os quais, munidos de conhecimento sobre as mais variadas doenças e recursos terapêuticos e conhecendo a fundo o histórico de cada pessoa que consultavam, podiam fornecer uma previsão mais ou menos confiável sobre os riscos a que seus pacientes estavam submetidos.

O tempo passou um pouco mais e estamos adentrando uma nova fase: a fase em que as pessoas começam a ter acesso a inúmeros testes diagnósticos vendidos diretamente ao consumidor para diagnosticar as mais variadas doenças. Há testes para diversos tipos de câncer, doenças cardiovasculares e até mesmo doença de Alzheimer. Tudo isso sem precisar passar pelo filtro do bom senso representado por uma boa consulta médica.

Mas o problema é exatamente este: furar o dedo para fornecer uma gota de sangue ou cuspir em um tubinho para fornecer saliva para testes de DNA não costuma ser um ato de profunda reflexão e pode ser apenas o primeiro passo para uma espiral de novos exames, consultas variadas e muita ansiedade. Isso porque o diagnóstico precoce de uma doença ou da propensão a desenvolvê-la nem sempre é algo positivo. E isso ocorre por pelo menos duas razões.

A primeira delas está relacionada às inúmeras campanhas de detecção precoce de cânceres e de outras doenças. Embora, em nível individual, seja geralmente benéfico detectar precocemente um determinado câncer, em nível populacional essas campanhas não costumam trazer benefícios palpáveis. Isso porque os testes costumam acusar doença em pessoas saudáveis, assim como costumam não detectar doenças em pessoas realmente doentes. Os testes podem ainda detectar doenças que jamais evoluiriam a ponto de causar qualquer prejuízo a essas pessoas. Além disso, muitas pessoas nas quais os testes indicaram alterações podem ser submetidas a procedimentos desnecessários, algumas vezes com desfechos clínicos desfavoráveis.

No final das contas, e como mostram inúmeras análises de campanhas coloridas para detecção precoce do câncer, o benefício individual não se traduz em benefício tangível para a população. Assim, embora possa parecer contraintuitivo, a realização de testes individualmente pode ser benéfica, mas sua adoção ampla como campanha de saúde pública pode ser prejudicial à população e ao sistema de saúde.

Em segundo lugar, existem testes que detectam indícios moleculares de doença no sangue ou propensão genética ao desenvolvimento de doenças sem que se possa ainda detectar ou localizar qualquer enfermidade clinicamente significativa na pessoa. Isso pode acontecer, por exemplo, com testes genéticos ou moleculares que detectam um DNA sugestivo de câncer ou uma propensão ao desenvolvimento da doença de Alzheimer. Essas pessoas podem ser obrigadas a conviver com a ideia de serem acometidas por um câncer ou por uma doença mental degenerativa grave durante décadas. Porém, viver assim é como viver com a espada de Dâmocles pendurada por um fio e constantemente pairando sobre a própria cabeça, o que dificilmente seria considerado algo positivo.

Talvez o melhor a fazer, enquanto sociedade, seja exercer muita parcimônia na hora de abraçar essa nova corrida aos oráculos da gananciosa indústria dos métodos diagnósticos e retornar à época do bom senso médico. Alguns testes podem ser pertinentes e oportunos em determinadas situações e para algumas pessoas capazes de conviver com o peso de seus resultados. Porém, na imensa maioria das vezes, essa coisa de consultar oráculos deveria mesmo ficar restrita à história antiga e à mitologia.

André Islabão é médico, integrante do movimento Slow Medicine Brasil e autor dos livros Slow Medicine – Sem pressa para cuidar bemO risco de cair é voar e Entre a estatística e a medicina da alma – Ensaios não controlados do Dr. Pirro.

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