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Gritos racistas e xenofóbicos de torcedora do Avaí durante partida contra o Remo, em Florianópolis
Foto: Reprodução
Descendentes de imigrantes europeus sabem de onde vieram seus ancestrais, muitas vezes com detalhes dos lugares e das famílias. Os descendentes de escravizados não tiveram esse direito.
A Folha publicou esses dias uma reportagem sobre as origens dos 3,1 milhões de negros trazidos à força para o Brasil entre 1574 e 1856.
Os escravizados vieram principalmente de Angola e da região da Costa da Mina, que corresponde ao território atual de Gana, Togo, Benin e Nigéria, na África.
Historiadores perseguem há muito tempo essas perguntas feitas pelos negros: de onde viemos? Eles gostariam de saber mais do que o país de origem. Sabem muito pouco ou quase nada.
Um desses historiadores, o gaúcho Mario Maestri, dedicou-se ao estudo do tráfico interno e conta que nos anos 80 foi a Rio Grande pesquisar os registros de entrada de escravizados pelo porto.
De onde eles vinham para o Rio Grande do Sul? Descobriu que chegara tarde. As fichas que registravam de onde eles vieram haviam sido descartadas e vendidas junto com papel velho para reciclagem.
O que muitos descendentes de europeus não sabem é que, com o fim do trânsito de escravizados, donos das charqueadas gaúchas defenderam, em carta ao preposto do Império no Estado, que os colonos brancos substituíssem os negros.
Os charqueadores queriam escravizar os que aqui chegavam para recomeçar a vida. Racistas descendentes de alemães, italianos, poloneses, austríacos, letos, russos e de todos os europeus que vieram para cá deveriam se lembrar sempre disso.
Os imigrantes também eram vistos como seres inferiores por alguns dos senhores das charqueadas, descendentes dos portugueses que chegaram primeiro, porque foram expulsos da Alemanha e de outros países em meio à fome, à perda de renda como artesãos ou agricultores e sob os efeitos da revolução industrial.
Eram vistos como povos subalternos, a serem desprezados, assim como certos descendentes de imigrantes veem hoje os negros, os nordestinos e os indígenas.
Os charqueadores desejavam que os colonos desembarcassem em Rio Grande, no mesmo porto por onde chegavam os escravizados negros vindos de outros Estados, e ficassem ali mesmo, na região sul, como escravizados.
Escolas de todas as regiões, e não só das áreas de colonização, deveriam ensinar a crianças e adolescentes o que foi a escravidão no Rio Grande do Sul, por tanto tempo considerada cordial e amigável.
Os colonos atraídos para o sul do Brasil tiveram o que os povos originários perderam. Ganharam terras que foram tiradas de indígenas que aqui moravam. E muitos viraram escravistas.
É preciso ler o livro Invisíveis (Carta Editora), dos jornalistas Gilson Camargo e Dominga Menezes, que trata desse abandono, enquanto os ‘desbravadores’ brancos chegavam, como se não houvesse ninguém aqui antes deles.
Um descendente de imigrante europeu deveria saber disso tudo e não poderia nunca ser racista. O racista que descende deles ofende a memória dos seus, que na chegada também enfrentaram racistas e, em alguns casos, acabaram absorvendo esse racismo.
Ana Costa Milena Schwtzer, a torcedora do Avaí que agrediu torcedores do Remo com falas racistas e xenófobas (“olha a tua cor”, “pobre aqui não fica”, “quer comer? está com fome? ali tem a comidinha de graça”), em jogo em Florianópolis, dia 15 de novembro, deveria estudar a imigração.
Os Schwtzer podem ter enfrentado racismo quando chegaram ao Brasil, ou será que ela considera seu sobrenome o indicativo de alguma supremacia racial?
O agressor de negros, indígenas e nordestinos e nortistas é, num dos resumos possíveis, alguém que precisa provar sempre que é superior, quando é apenas um racista inseguro.
Moisés Mendes é jornalista e escreve quinzenalmente para o Extra Classe.