SAÚDE

Doação de órgãos deve ser estimulada depois da pandemia

Além de ampliar campanhas para aumentar doações de órgãos, a estrutura para o sistema de transplantes precisa ser melhor qualificada
Por Stela Pastore / Publicado em 22 de abril de 2021
Doação de órgãos deve ser estimulada depois da pandemia

Foto: Elza Fiúza/Agência Brasil

No Rio Grande do Sul, no primeiro ano da pandemia, a queda no número de transplantes foi de 62% em relação a 2019, quando foram realizados 477 transplantes. Comparando o primeiro trimestre deste ano com o mesmo período de 2020, a redução foi de 40%

Foto: Elza Fiúza/Agência Brasil

O agravamento da pandemia no Brasil impactou severamente nos transplantes realizados no Brasil, especialmente no Rio Grande do Sul, resultando em menos transplantes, mais mortes e, no caso das doenças renais, mais diálise. Esta realidade foi tratada no painel Covid-19, pacientes renais e transplantes, realizado na noite desta quarta, 21, com a participação da médica nefrologista Tatiana Michelon, o jornalista Paulo Moreira e a estudante Fabiana Bender. O evento, realizado pela Fundação Ecarta, foi gravado e pode ser acessado na íntegra no Canal da Fundação Ecarta, no Youtube.

No Rio Grande do Sul, no primeiro ano da pandemia, a queda no número de transplantes foi de 62% em relação a 2019, quando foram realizados 477 transplantes. Comparando o primeiro trimestre deste ano com o mesmo período de 2020, a redução foi de 40%. Atualmente o Brasil tem 26 mil adultos na espera por um rim e 340 crianças e adolescentes. No RS, esse número é de 1.005 e 22 respectivamente, informa a coordenadora do projeto Cultura Doadora, Glaci Borges.

O rim é o órgão mais transplantado e o Brasil é o segundo país no mundo em transplantes renais em números absolutos, mas cai para o 32º lugar comparativamente. “Isso nos motiva a formar e ampliar uma cultura doadora na sociedade para multiplicar a doação nas famílias e reduzir as listas de espera”, observou o idealizador do projeto e presidente da Fundação Ecarta, Marcos Fuhr.

Telemedicina

Tatiane Michelon, a equipe de transplante renal do Hospital de Clínicas de Porto Alegre

Foto: Igor Sperotto

Tatiane Michelon, a equipe de transplante renal do Hospital de Clínicas de Porto Alegre

Foto: Igor Sperotto

“O transplante não acontece se não houver um doador, e a sociedade está em pânico com a pandemia. Questionamos os pacientes para saber se queriam seguir em lista. A maioria preferiu parar. Há medo do paciente e também das equipes porque não se sabe o que esperar dessa doença para pacientes imunossuprimidos e frente à escassez de leitos de UTI”, relata a médica Tatiane Michelon, que integra a equipe de transplante renal do Hospital de Clínicas de Porto Alegre.

Segundo ela, em função disso, o número de pacientes em diálise aumentou muito e os transplantes diminuíram. “Tem sido um desafio muito grande. Começamos a ter problemas graves em todos os sentidos. Pacientes mais severos não recuperam e seguem em hemodiálise. É uma bola de neve. É necessário retomar”, observa. “Mas estamos confiantes que vamos passar esse período e retomar os transplantes”.

A telemedicina tem sido um dos recursos para evitar que os pacientes desloquem para atendimentos presenciais nos centros de diálise, localizados em hospitais que tratam a covid-19. Os exames são realizados em laboratórios e enviados on-line. Também foi criado o Tele Covid, serviço de contato diário das equipes médicas com o paciente renal com sintomas de covid para monitorar. “Tem funcionado positivamente.  Se tornou impossível trazer todos os pacientes, só se estiver com gravidade”, resume.

Testemunho animador

Fabiana Bender, transplantada

Foto: Reprodução/YouTube

Fabiana Bender, transplantada

Foto: Reprodução/YouTube

Transplantada renal há oito anos, Fabiana Bender é um exemplo de como o transplante pode melhora a qualidade de vida e salvar pessoas. “Sou muito grata por tudo que o transplante fez por mim.  Prezo muito pelo rim que me foi doado”, conta a jovem de 25 anos, aluna do quarto semestre de medicina.

Com doença renal diagnosticada desde os dois anos de idade, ela se transformou em uma ativista das doações de órgãos e está sempre disposta a dar seu depoimento animador onde for chamada.

Integrante da Associação Brasileira de Transplantados (ABTx), Fabiana atua como uma porta voz dos direitos dos transplantados em obter os medicamentos, vacinas e procedimentos de como viver com um novo órgão.

E fez um apelo diante do trágico número de óbitos pela Covid e as variadas sequelas que a doença gera.É muito importante se cuidar e não se contaminar”, enfatiza. “Seja um doador de órgãos, seja o sim da vida de alguém para que outros continuem suas vidas. Conversem com suas famílias sobre o desejo ou não de doar. Isso é decisivo para salvar vidas”, completa.

A tensão da diálise na pandemia

Paulo Moreira aguarda na fila do transplante

Foto: Reprodução/YouTube

Paulo Moreira aguarda na fila do transplante

Foto: Reprodução/YouTube

Todas as terças, quintas e sábados pela manhã o jornalista Paulo Moreira, 60 anos, se dirige ao setor de diálise da Santa Casa de Misericórdia, em Porto Alegre e faz o tratamento que dura pouco mais de três horas. Nos últimos 17 anos ele cumpre religiosamente essa rotina.

Com a chegada da covid-19, esse procedimento ficou muito mais tenso pela temeridade em pegar a doença. “Cada dia que saio do hospital digo: passei por mais esse!  Não sei até quando vou driblar a covid”, conta aguardando a vacina na próxima semana. Desempregado no momento, diz ter o privilégio de sair de casa apenas para o tratamento e ir ao supermercado quinzenalmente. Espera pela imunização ansioso para abraçar seu pai de 90 anos, que mora próximo a sua casa.

Moreira descobriu aos 35 anos que tinha uma doença renal congênita, que o levou a precisar da diálise. Ele ficou na lista de transplantes por dez anos e se retirou. Fez a opção para manter a intensa atividade profissional que consolidou sua carreira nos mais diversos jornais e rádios da capital, especialmente com o programa Sessão Jazz, na FM Cultura, que produziu e apresentou por 21 anos.  “Tinha me adaptado à rotina e fiz essa escolha.  Nos horários do hospital não posso assumir outro compromisso. Levei tão a sério que devo ter faltado 6 a 7 vezes em 17 anos”, relata.

Durante a live, Paulo Moreira tirou dúvidas dos participantes sobre como é ter uma fístula arteriovenosa enxertada no braço, um tubo de plástico que permite maior fluxo sanguíneo para que as veias suportem as agulhadas semanais, e o processo de diálise que retira do sangue as impurezas que o rim não consegue realizar.

Suas histórias de coberturas nacionais e internacionais incluindo, por exemplo, diálise na Alemanha, sensibilizaram os participantes sobre a rígida disciplina de um paciente renal e o quanto a doação de órgãos pode transformar essa rotina complexa.

Oportunidade de falar em doação

“O que chega para as pessoas é a vontade de viver que vocês mostram e a gratidão eterna para a família doadora. É um momento estratégico para a retomada do projeto Cultura Doadora com viés diferente, porque nunca se falou tanto sobre morte”, enfatizou a médica após os relatos de Fabiana e Moreira.

A nefrologista Tatiana Michelon reforça: “Para a doação de órgãos acontecer a gente precisa conversar tranquilamente.  Suavizar o tema morte e intensificar o assunto de ter uma vida menos dolorosa e mais doadora”, concluiu.

Redução dos transplantes

Marcos Fuhr, presidente da Fundação Ecarta e idealizador do projeto Cultura Doadora

Foto: Reprodução/YouTube

Marcos Fuhr, presidente da Fundação Ecarta e idealizador do projeto Cultura Doadora

Foto: Reprodução/YouTube

A covid-19 retraiu as doações e transplantes em todos os órgãos e tecidos no país. Houve queda nas taxas de doação e de transplante. A taxa de doadores efetivos era de 18,1 por milhão de população em 2019, caiu 12,7% em 2020, voltando ao patamar obtido em julho de 2017, de 15,8, com médias regionais variáveis.

“Que este painel tenha contribuído para dar visibilidade ao tema, esclarecer e sensibilizar para a importância da doação de órgãos e tecidos, assim como para a necessidade de se qualificar o sistema de transplante no país e no Rio Grande do Sul”, enfatizou Marcos Fuhr no encerramento do painel.

Assista ao painel na íntegra:

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