OPINIÃO

Spoilers

FRAGA / Publicado em 17 de agosto de 2022

 

Spoilers

Ilustração: Rafael Sica

Ilustração: Rafael Sica

 (Spoiler inicial: esta croniqueta começa um assunto, desenvolve um pouco, enrola, enrola, mas após a última linha acaba.)

Spoiler, todo mundo sabe, é aquele desmancha-prazer nas resenhas cinéfilas ou literárias. Só que spoiler não surgiu ontem – sempre existiu. Spoilers nos cercam por todos os lados, o tempo todo, e não há sobreavisos. A própria intuição da gente é um alerta spoileador, mas quem liga pra ela hoje em dia?

Pra mim, o maior e pior exemplo de spoiler é o Bolsonaro: ele próprio alardeou na sua campanha que ia foder o povo e arrebentar o país. E mesmo nos adiantando, esse final infeliz foi eleito! Quer dizer: spoiler pode ser insidioso, inescapável.

Mais que secular ou milenar, spoiler é pré-histórico. Quando o primeiro primata desceu das árvores, foi um alerta para as demais espécies – vem merda aí.

O flerte é o spoiler do romance, que é o spoiler do casamento, que é o spoiler do divórcio.

Em toda transa há um spoiler subentendido, que só não recebe a devida atenção porque o par está muito ocupado com as mãos e bocas e genitais. Resultado: o ovário e os testículos então dizem “Ah, é, é?”. Nove meses depois um alguém dá à luz um spoilerzinho rechonchudo.

Trabalhar também inclui spoilers. O primeiro emprego, é óbvio, é prenúncio de futuro desemprego. Nas ruas, há 14 milhões de desavisados dessa spoileadora correlação. Aliás, a economia nacional tem sido um spoiler contumaz. Entra governo, sai governo, entra equipe econômica sai equipe econômica, os planos e os desastres dos planos vão spoileando. Quer mais spoilers daquilo que nos espera? Leia e releia as declarações do Paulo Guedes. A inflação dele começou com menos de meio dígito, já tá em dois. A feira, o açougue, o supermercado exibem spoilers diários do arrocho do dia seguinte.

O cotidiano é o spoiler da rotina, ou é o vice-versa? Cada festa de aniversário é o spoiler da longevidade, e sabemos até onde isso vai. Festas também são spoilers de faxina. A semana é spoiler de mais um ano acabado. O dia é o spoiler da noite, a noite do sono, o sono do pesadelo. A fome é spoiler da insaciedade, da obesidade, do colesterol alto.

Consultórios médicos são ambientes muito propícios para spoiler. A própria consulta spoileriza diagnósticos. Daí para spoilers hospitalares é uma ida. E cada receita contém spoilers não da cura, mas da evolução da doença. Pacientes terminais são acompanhados de spoilers que não terminam. E UTIs, nem preciso dizer que tipo de spoilers anunciam.

(Spoiler final: cada coluna é um spoiler da próxima. Tsk, tsk, tsk.)

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