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Nº 217 | Ano 22 | SET 2017
ESPECIAL | CULTURA DOADORA
CADERNO DOAÇÃO DE ÓRGÃOS

Iniciativa visa a aumentar número de doadores

A doação e transplante de órgãos compõem um cenário relativamente novo no Brasil

Foto: Igor Sperotto

A doação e transplante de órgãos compõem um cenário relativamente novo no Brasil

Foto: Igor Sperotto

O Rio Grande do Sul é sede de uma iniciativa que poderá ajudar a melhorar os índices de transplantes em todo o país. Intitulado Donors (do inglês, doadores), o projeto é baseado em duas grandes ações: capacitação de profissionais de saúde para condução da entrevista com familiares de potenciais doadores de órgãos para verificação da intenção de doação e implementação de um check-list voltado para manutenção clínica do potencial doador. “O objetivo é atuar sobre as principais causas que im­pedem a doação de órgãos entre potenciais doado­res, que são a não aceitação da família e a parada cardíaca de pacientes com morte encefálica”, explica Regis Rosa, médico intensivista do Hospital Moinhos de Vento (HMV) de Porto Alegre e líder do Donors.

Com início em agosto de 2016 e previsão de término em dezembro de 2017, o Donors resulta de uma parceria público-privada do HMV com o Minis­tério da Saúde – Coordenação do Sistema Nacional de Transplantes, através do Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do Sistema Único de Saúde (PROADI SUS), o qual possibilita ao hospital reverter ações de qualificação do SUS em isenção fiscal. O projeto irá capacitar profissionais de 70 hospitais de todo o Brasil com alto desempenho na notificação de potenciais doadores de órgãos. Além disso, passarão pelo treinamento outras 60 institui­ções indicadas pelo Sistema Nacional de Transplan­tes. A meta é atingir pelo menos 750 profissionais de saúde, multiplicando o alcance com um curso de Educação a Distância.

Atualmente, a recusa familiar atinge índices de 40% a 50% no Brasil. A expectativa é que, ao final do projeto, com o aumento das capacitações e a ferra­menta de check-list, fique em torno de 15%, índice da Espanha, que é uma referência mundial em doação de ór­gãos. Rosa explica que, muitas vezes, a negativa da família está associada à desinformação, e não tem a ver necessariamente com a não convicção do pa­ciente de se declarar um doador em vida. Pode estar ligada ao momento e à forma como os profissionais oferecem a doação.

A lista de checagem, ou check-list, é uma tecnolo­gia organizacional, de baixo custo, de procedimen­tos e ações que as equipes médicas devem tomar para evitar a parada cardíaca de um paciente com diagnóstico confirmado de morte cerebral. De cada quatro potenciais doadores, um tem parada cardía­ca. Essa ferramenta reduziu em até três vezes as per­das de doadores pela parada do coração nos hospi­tais de Santa Catarina.

A eficácia da ferramenta será avaliada em um en­saio clínico randomizado. Das 70 UTIs cujos profis­sionais são capacitados pelo projeto, 35 serão sorteadas para utilizar a check-list. As demais seguirão com o manejo usual. Se os resultados se confirmarem posi­tivos como os de Santa Catarina, o check-list poderá ser estendido para todo o Brasil. Associada às técni­cas de abordagem e comunicação humanizada com as famílias, a expectativa é diminuir a discrepância entre oferta e demanda de órgãos para transplantes.

Transformar a perda em algo positivo

Dagoberto atua na Organização de Procura de Órgãos (OPO), do Hospital São Lucas da PUCRS

Foto: Jeniffer Caetano/ Comunicação HSL

Dagoberto atua na Organização de Procura de Órgãos (OPO), do Hospital São Lucas da PUCRS

Foto: Jeniffer Caetano/ Comunicação HSL

Dagoberto Rocha, 39 anos, é enfermeiro da Orga­nização de Procura de Órgãos do Hospital São Lucas da PUCRS (OPO 2) desde 2011. Como enfermeiro, uma de suas principais atribuições é visitar regular­mente as UTIs e emergências para identificar preco­cemente pacientes que possam estar evoluindo para a morte encefálica. Como está dentro do Hospital São Lucas da PUCRS, a OPO 2 faz também as atribui­ções da Comissão Intra-Hospitalar de Doação de Ór­gãos e Tecidos para Transplante (CIHDOTT). Rocha já participou de cursos, e continua participando, para aguçar sua sensibilidade e habilidade na hora de fa­lar com as famílias sobre doação de órgãos.

“Às vezes, a informação da doação é dada de for­ma antecipada para a família”, diz. O diagnóstico de morte encefálica é feito para qualquer paciente, inde­pendentemente se é potencial doador ou não. Realizados todos os exames, se o paciente for declarado morto, as equipes da OPO e da CIHDOTT, em parceria com a Central de Transplantes, devem avaliar as condições clínicas do doador. Nem todo paciente com morte encefálica pode doar seus órgãos. Alguns critérios ex­cluem, como doenças prévias. Caso não seja doador, é ético-legal o médico entregar o corpo para a família e nem se falar em doação. Por isso, a informação da doação antes do diagnóstico pode acabar frustrando algumas famílias.

A notícia da morte de um ente querido gera uma crise emocional, lembra Rocha. Naquele momento, os familiares pensam em muita coisa ao mesmo tempo: no velório, como a mãe vai sustentar o filho sem o pai. É preciso escutar os desabafos, o choro, ou o silêncio, oferecer ajuda e dar apoio emocional. “Através do meu apoio e acolhimento, ofereço a possibilidade da doação de órgãos. Se aceitarem, a doação pode se tornar algo positivo e muitos se tornam multiplicadores depois, ajudando a divulgar a doação de órgãos”, constata.

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