Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 217 | Ano 22 | SET 2017
ESPECIAL | CULTURA DOADORA
CADERNO DOAÇÃO DE ÓRGÃOS

Ah, como é bom respirar!

Na mesma semana em que foi feito o transplante registrado pelo Extra Classe na Santa Casa, Naara Vidal Nunes deixava o hospital respirando sem a ajuda mecânica, e a bicampeã de atletismo Liège Gautério, transplantada há seis anos, treinava para sua próxima competição. Naara e Liège participam de campanhas para incentivar a doação de órgãos. Graças ao transplante de pulmões, elas hoje recuperaram o ar, os sonhos, a vida.

Naara e a alegria de estar junto da família

Naara, após o transplante de pulmões: "Gratidão enorme"

Foto: Igor Sperotto

Naara, após o transplante de pulmões: “Gratidão enorme”

Foto: Igor Sperotto

“Respirar é maravilhoso”, diz Naara Vidal Nunes, 52 anos, que em 31 de julho deste ano recebeu dois pulmões. Natural de Porto Alegre, mas moradora de Rio Grande, Naara trabalhava como cabelereira quando começou a sentir os primeiros sintomas de falta de ar, que foram se agravando com o tempo. O médico atestou: “Teu pulmão esquerdo foi para trás do outro. Milagre estar viva!”. Naara precisava de um transplante. Deixou marido e filho em Rio Grande e se mudou para Canoas porque, apesar de uma lei garantir, não conseguiu com que seu município arcasse com as despesas em Porto Alegre, onde ficaria mais perto do Centro de Transplantes.

Nesta entrevista, feita 18 dias após receber os órgãos, falou do alívio de andar sem o oxigênio auxiliar e da alegria de planejar uma viagem para conhecer a neta nascida quatro meses antes. Naara estava envolvida com a 1ª Feira de Pré e Pós-Transplante em Porto Alegre, um espaço para expor trabalhos feitos por quem aguarda ou aguardou na lista de espera. Parceira do Projeto Cultura Doadora, da Fundação Ecarta, em palestras antes da doação, quer voltar a falar com estudantes e professores. “Tenho uma gratidão enorme ao doador e à família que permitiu doar e salvar não só a minha, mas várias vidas”, resume.

Liège e a perseverança para vencer desafios

Liège Gautério voltou a competir após o transplante: "Nunca desistir"

Foto: Igor Sperotto

Liège Gautério voltou a competir após o transplante: “Nunca desistir”

Foto: Igor Sperotto

Liège Gautério, 44 anos, é atleta bicampeã brasileira nos 100 metros rasos em atletismo nos Jogos Mundiais para Transplantados e medalhista em 200 metros rasos e salto em altura. Tudo isso após receber o pulmão esquerdo de uma doadora e, ainda por cima, vencer um câncer de mama. Formada em Biologia e Fonoaudiologia, praticante de balé, aos 30 anos recebeu o diagnóstico: fibrose pulmonar por hipersensibilidade. Aos 36, apareceram os sintomas e, dois anos depois, quando cursava Educação Física, não conseguia respirar sem ajuda de um cilindro de oxigênio. Ao entrar na lista de espera, em abril de 2011, botou na cabeça que iria fazer o transplante e escreveu em um caderno várias vezes: setembro de 2011. “Deitei na cama no dia 28 e falei com o universo: sei que o mês que programei está chegando ao fim. Vou esperar o que for preciso, mas gostaria que fosse em setembro. Dia 28, à noite, me chamaram e em 29 de setembro eu transplantei”, conta, sorrindo.

Antes de cada prova, Liège respira fundo e pensa na doadora de seu pulmão esquerdo. A doação de órgãos também é uma corrida contra o tempo: pela vida de quem espera a doação, pela conservação do órgão doado. Liège agora vai competir no revezamento 4 por 100. Quer passar o bastão do otimismo, da solidariedade e da esperança para outros transplantados. Também planeja abrir um grupo de atividade física para transplantados em sua academia. “É esta mensagem que quero passar: não desistam, continuem ativos.”

DICA: Transplantados usam a Internet para conseguir remédios

Transplantados e pré-transplantados têm utilizado as redes sociais para obter informações sobre locais para ficar (quem está longe do Centro de Transplantes), conseguir medicamentos em falta na rede pública, comprar ou conseguir doação de aparelhos de oxigênio e outros equipamentos, participar de campanhas. Liège Gautério conta que enviou para Pernambuco remédios que tinha sobrando depois de um contato feito através da página dos transplantados de pulmão no Facebook. Há grupos fechados, como o POA Transplante Pulmonar. Outros transplantados também têm suas redes.

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