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23/01/2018
POLÍTICA

Ação Global AntiDavos em Porto Alegre antecipa os debates do Fórum Social Mundial que será realizado em Salvador, Bahia, no mês de março
Por Stela Pastore
Programação da Ação Global AntiDavos lotou auditório Danta Barone, da Assembleia Legislativa

Foto: Igor Sperotto

Programação da Ação Global AntiDavos lotou auditório Danta Barone, da Assembleia Legislativa

Foto: Igor Sperotto

O Fórum Social Mundial se instalou em Porto Alegre nesta terça-feira, 23, para denunciar as ameaças à democracia brasileira na véspera do Fórum Econômico de Davos, na Suíça, e do julgamento do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva no TRF-4. “Estamos em Porto Alegre para defender o direito democrático de seu povo de escolher seu próximo presidente da República. Mais do que Lula, inocente, o julgamento será do judiciário brasileiro”, afirmou o senador paranaense Roberto Requião (MDB) na Ação Global anti-Davos, que lotou o teatro Dante Barone, na Assembleia Legislativa.

“Agendado para ocorrer oficialmente em Salvador (BA), de 13 a 17 de março, o FSM voltou a ocorrer no Brasil em decorrência do golpe que retirou a presidente Dilma Rousseff do cargo, sem crime, e da retirada de direitos sociais, do agravamento das desigualdades e do retorno do país ao mapa da fome”, contextualizou Mauri Cruz, integrante do Conselho Internacional do FSM, que coordenou a atividade. “Relatório divulgado nessa semana pela Oxfam mostra que no Brasil cinco famílias têm patrimônio equivalente a 100 milhões de pessoas, a maior taxa de desigualdade do mundo”.

Requião: o argumento do combate à corrupção foi utilizado em vários países para implementar a hegemonia do capital norte-americano

Foto: Igor Sperotto

Requião: o argumento do combate à corrupção foi utilizado em vários países para implementar a hegemonia do capital norte-americano

Foto: Igor Sperotto

Intervenção da economia liberal

“Defender Lula é defender a democracia, o Estado social, a soberania. Por isso estamos aqui. O que vale nesse encontro é a presença e a força de vocês, dizendo não! Que o Brasil quer de volta sua dignidade. A possibilidade de disputar a eleição numa frente ampla nacionalista e progressista não pode ser tomada do povo brasileiro”, afirmou Requião, listando a recidiva do capital sobre os Estados nacionais.

O senador listou os estragos que o processo de economia liberal tem provocado num conjunto de países europeus, intervindo nos processos de soberania. “A candidatura de Lula é a única capaz de interromper esse maldito processo liberal e por fim a isso tudo no Brasil”, conclui.

Requião é uma voz dissonante no seu partido, o mesmo do presidente Michel Temer, que estará em Davos na próxima quarta-feira. “A proposta liberal do capital financeiro, via Ponte para o Futuro, que está sendo implementada no Brasil por Temer, foi elaborada pelo capital”, afirmou o parlamentar. Ele registrou que fontes americanas confessaram publicamente que o argumento do combate à corrupção foi utilizado em vários países para implementar a hegemonia do capital norte-americano.

“Todos nós saudamos a Lava-Jato no seu início porque acreditamos que sua finalidade era o combate à a corrupção. Se fosse, Serra e Aécio Neves não estariam soltos e o governo Temer teria caído”, constata.

Plano L

Wagner: “O judiciário virou líder de torcida organizada, não quer que nosso time entre em campo”

Foto: Igor Sperotto

Wagner: “O judiciário virou líder de torcida organizada, não quer que nosso time entre em campo”

Foto: Igor Sperotto

“Não temos plano A, B, C ou D. Só temos L: Lula presidente” afirmou o ex-chefe da Casa Civil e ex-governador da Bahia, Jacques Wagner. “A tentativa de interdição do Lula é de interdição da democracia. Setores conservadores democráticos já condenam a interdição. Precisamos ganhar cada vez mais as ruas. Democracia se faz na rua, na fábrica, na praça, na escola e a na igreja”, afirmou.

Ex-ministro do governo Lula, Wagner falou da parcialidade da Justiça. “O judiciário deixou de exercer o papel de juiz e é líder da torcida organizada que tenta fazer o time deles ganhar, querendo que o nosso não entre em campo”. Destacou que os conservadores liberais não suportaram quatro eleições sucessivas sem ganhar nas urnas e, por isso, deram o golpe.

Defender a democracia

“Se fecharem a porta, a solução é arrombar a porta para garantir a democracia nesse país”, afirmou Guilherme Boulos, do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST).

Informou que haverá uma manifestação do Movimento Povo Sem Medo nesta quarta-feira, em São Paulo. Estar nas ruas é o recado de Boulos. “A luta é pela democracia e contra os retrocessos dos direitos sociais. A lição desse processo é que não basta a disputa nas instituições, mas derrotar o projeto com nossa presença e força na rua”.

Se fecharem a porta da democracia, a solução é arrombar, comparou Boulos, do MTST

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Se fecharem a porta da democracia, a solução é arrombar, comparou Boulos, do MTST

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Para Boulos, está nas mãos do TRF-4 decidir se segue ou interrompe a farsa, se interrompe o golpe ou se segue com ele. “Estamos enfrentado a continuidade do golpe, que retirou uma presidente eleita legítima para colocar uma quadrilha no lugar. Segue uma agenda de retirada de direitos, de reforma trabalhista, de congelamento de investimento, de ataque à Previdência, uma agenda antinacional não eleita pelo povo. E o golpe segue agora para retirar o presidente Lula do processo, o mais popular de qualquer pesquisa, no tapetão do judiciário, condenação sem prova e sem crime, em que um juiz de Curitiba, sem competência, vestiu a camisa de chefe de partido político e condenou sem provas”, resumiu.

Unidade na luta

Eliane Moura, do MST: “Lula não é um salvador da pátria, é uma liderança. A pátria só será salva por uma classe trabalhadora, viva e ativa"

Foto: Igor Sperotto

Eliane Moura, do MST: “Lula não é um salvador da pátria, é uma liderança. A pátria só será salva por uma classe trabalhadora, viva e ativa”

Foto: Igor Sperotto

Unidade dos movimentos contra a ofensiva liberal foi o apelo da líder do Movimento Sem-Terra. Eliane Moura foi contundente ao colocar que há muitas tarefas a serem levadas com seriedade para conter a ofensiva do capital em todo o mundo. Ela destaca que a reunião em Davos é a articulação para “avançar o saque sobre a natureza, água, petróleo, a nossa gente, nossos direitos e, se deixarmos, saquearão nossa dignidade”.

Vamos eleger Luiz Inácio Lula da Silva, mas isso significa que nosso trabalho não basta”. Elaine Moura enumerou três ações fundamentais para organizar a resistência: retomar a formação político-ideológica para entender a luta de classes; retomar a organização de base de forma presencial e articular coletivamente as ações. “A jornada pela frente é intensa e profunda. Vivemos a ofensiva neoliberal, um golpe de Estado contra direitos. Nossa contraofensiva precisa estar à altura”, defende a dirigente. “Lula não é um salvador da pátria, é uma liderança. A pátria só será salva por uma classe trabalhadora, viva e ativa. Essa tarefa é para ontem”, alertou.

A senadora do PCdoB, Alice Portugal, relatou "a tarefa de combater num parlamento contaminado"

Foto: Igor Sperotto

A senadora do PCdoB, Alice Portugal, relatou “a tarefa de combater num parlamento contaminado”

Foto: Igor Sperotto

Parlamento contaminado

A senadora baiana Alice Portugal (PCdoB), ressaltou a dura tarefa de combater num parlamento contaminado, num fórum legislativo com bancadas dirigidas por Eduardo Cunha da cela em Curitiba. Mas ressaltou que os sinais de unidade e resistência, como os que estão visíveis em Porto Alegre nessa semana, são centrais “para virar o jogo por um novo Brasil com mais igualdade e menos raiva”.

Para a senadora, é importante fazer com que a população veja a política como ferramenta de transformação social. “Precisamos construir uma nova morada de ideias avançadas, com redução da desigualdade social e retorno dos direitos dos trabalhadores e garantir que Lula esteja na chapa e na urna”, sinalizou.

Nas ruas pelo futuro

“As eleições são o mais alto grau de democracia no Brasil. Nós queremos democracia, um país justo e eleições limpas”, declarou a presidente da União Nacional dos Estudantes, Marianna Dias. A entidade transferiu a sede para Porto Alegre nessa semana para acompanhar de perto a tentativa de retirar Lula do pleito, informou.

“É importante trazer as lentes do mundo para cá e despertar a solidariedade entre povos. O Brasil precisa de solidariedade internacional diante de judiciário que manda e desmanda, o que representa Estado de Exceção. É perverso, calar, criminalizar e dizer que políticos não podem ser candidatos por estarem à frente nas pesquisas”, enfatizou a dirigente.

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