Ambiente
Entidades científicas alertam para riscos ambientais em projetos da bancada ruralista
Pesquisadores afirmam que propostas em tramitação na Câmara reduzem a proteção de biomas e ampliam…

No Bioma Pampa, as áreas de paisagens representam as reservas de alto valor biológico, cujo equilíbrio está constantemente ameaçado pela extinção das espécies da flora
Foto: UFPel/ Divulgação
As espécies da flora do Rio Grande do Sul ameaçadas de extinção não são revisadas desde 2018, quando havia 804 plantas ameaçadas nessa lista – que contempla de araucárias a cactos, butiazeiros, buritis e bromélias, entre outras variedades essenciais para o equilíbrio dos ecossistemas do Bioma Pampa.
A última lista foi editada pela agora extinta Fundação Zoobotânica (FZB) em 2018, embora exista o Decreto Estadual nº 54.171/2018, o qual obriga a uma revisão periódica e bienal.
Já as coleções mantidas fora do seu habitat pelo Jardim Botânico de Porto Alegre contemplam 145 espécies presentes na lista de extinção e que são vitais para a manutenção da biodiversidade local, conforme apurou a bióloga da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs) Júlia Fialho Soares, ao pesquisar sobre o tema naquele ano.
Atualmente, segundo dados do Ministério do Meio Ambiente e do MapBiomas, apenas 3% das plantas do Pampa estão protegidas, enquanto 50% já sofreram algum tipo de degradação.

Tillandsia duratii, espécie nativa Bolívia, Paraguai, Argentina, Uruguai e Brasil
Foto: UFPel/ Divulgação
Assim como a diversidade de espécies animais que compõem uma região, o conjunto de plantas é essencial para o equilíbrio dos ecossistemas no planeta, inclusive para a própria sobrevivência da espécie humana.
As mudanças climáticas são influenciadas pelo cuidado e pela preservação das espécies da flora, afirma a pesquisadora da Ufrgs Isadora Quintana, autora de um estudo sobre a relação entre flora e aquecimento do planeta.
“Quando pensamos no aumento da temperatura global, o clima mais quente pode dificultar a sobrevivência de diversas espécies que não apresentam recursos adaptativos para lidar com o calor. Esses fatores colocam a resiliência das espécies à prova. Infelizmente, muitas delas não vão conseguir se adaptar”, ressalta Isadora.
Cada espécie tem uma importância já conhecida ou ainda por ser descoberta. Daí a relevância de um monitoramento que nem sempre é levado a sério por gestores e pouco chega ao conhecimento da população. “A biodiversidade é reconhecida internacionalmente como um bem precioso de cada país, e nós somos privilegiados por deter uma das maiores biodiversidades do mundo. No entanto, ela não é vista desta forma, mesmo em meio à grande crise mundial que está levando à perda de espécies e à crise climática que estamos vivendo”, alerta João Iganci, professor do Instituto de Biologia na Universidade Federal de Pelotas (UFPel).

Grindelia-atlantica ou margarida-da-praia, espécie nativa do RS que está ameaçada de extinção“Se não conhecemos a nossa flora, como vamos protegê-la?”, questiona Isadora, ao se deparar com a falta de informações atualizadas sobre as espécies vegetais do RS.
Foto: UFPel/ Divulgação
A pesquisadora ressalta que, sem esses dados, não há como propor políticas públicas eficazes de conservação. “Preservar a flora exige, antes de tudo, conhecê-la. Sem um diagnóstico preciso da situação atual, qualquer medida de proteção se torna incompleta ou ineficaz”, alerta Isadora.
Muita gente não sabe, mas o Pampa é um bioma muito diverso em termos de fauna, flora e geografia. Então, cada porção tem as suas características, o seu clima, a sua vegetação, explica. “Aqui, entra a importância de dados atualizados da flora do RS. Porque, antes de tomar qualquer medida de preservação, precisamos saber o que estamos preservando”, conclui a pesquisadora.
No Rio Grande do Sul, há uma lista de espécies da flora ameaçada de extinção, que foi catalogada de forma colaborativa com a participação de pesquisadores botânicos do estado e organizada pela Fundação Zoobotânica (FZB), extinta em 2018 pelo governo Eduardo Leite (PSDB). Em 2014, havia 804 espécies ameaçadas de extinção, de acordo com o Decreto nº 52.109, de 19 de dezembro daquele ano.
“Se ter uma lista de espécies ameaçadas de extinção é importante por todos esses motivos que discutimos, imagine se esta lista está desatualizada e incompleta?”, indaga Iganci, da UFPel.
“Naquela época, o esforço para elaborar a lista foi feito com um trabalho dedicado dos pesquisadores, mas, hoje em dia, as metodologias científicas para avaliar o risco de extinção das espécies avançaram bastante”, salienta Iganci. A defasagem das informações sobre as espécies ameaçadas, alerta ele, torna a biodiversidade completamente vulnerável diante das perdas de áreas naturais causadas pela expansão de atividades econômicas. A catalogação dessas espécies ameaçadas auxilia na tomada de decisões, pois indica as áreas que devem ser preservadas, como reservas de biodiversidade. “Uma espécie ameaçada de extinção deve ser protegida não apenas para assegurar o seu papel dentro do ecossistema, mas também para garantir a diversidade de recursos genéticos que podem ser utilizados de forma sustentável”, aponta o pesquisador.

Isadora Quintana, pesquisadora da Ufrgs: “Se não conhecemos a nossa flora, como vamos protegê-la?”
Foto: Igor Sperotto
O Rio Grande do Sul tem diferentes ecossistemas dentro de dois biomas, a Mata Atlântica, ao Norte; e o Pampa, ao Sul. Essa região abriga muitas espécies de plantas que são exclusivas do estado, chamadas endêmicas, esclarece o professor da UFPel. “Para se ter uma ideia da importância de atualizar a lista de espécies ameaçadas, a maior parte das endêmicas do RS nunca foi avaliada quanto ao risco de extinção”, exemplifica João Iganci.
Além disso, nas últimas décadas houve uma expansão da agricultura de larga escala e da silvicultura (plantio de árvores invasoras para extração de madeira), que são duas das principais ameaças aos remanescentes de áreas naturais no estado. A monocultura de soja representa 21% do território do Pampa. Já a agropecuária e a silvicultura correspondem a 50% da produção do bioma. “Isso é muito impactante, porque o avanço dessas atividades degrada e fragmenta os ambientes nativos, seca e contamina o solo e, consequentemente, reduz a biodiversidade e, muitas vezes, elimina espécies dos seus ambientes”, lamenta Isadora Quintana.
A pesquisadora enfatiza, ainda, que a produção agrícola em si não é um problema, ela pode e deve ocorrer em equilíbrio com a preservação ambiental. “Porém, esse não é o cenário que temos visto no RS e no Brasil de forma geral”, adverte. Segundo ela, em qualquer bioma, as monoculturas são ameaças ambientais pois desgastam o solo, diminuem a biodiversidade local e se utilizam de grandes quantidades de agrotóxicos que contaminam o ambiente e as pessoas que trabalham com isso.

O estado detém uma das maiores biodiversidades do mundo, mas não valoriza esse patrimônio, lamenta João Iganci, professor de Biologia da UFPel
Foto: Acervo Pessoal
O professor e pesquisador da UFPel lembra que os parâmetros internacionais determinam que a avaliação de cada espécie deve ser atualizada a cada dez anos, para permitir o acompanhamento das perdas de populações naturais e uma possível mudança no grau de ameaça, ou mesmo para acompanhar o restabelecimento de uma espécie na natureza, “o que seria o ideal”, argumenta.
O Decreto nº 54.171/2018 é mais restritivo nesse ponto e diz que a revisão deveria ser periódica e bienal. “Isso é importante em relação à realidade regional, para que as espécies sejam monitoradas de forma mais precisa e continuada”, observa o cientista João Iganci. Entretanto, a lista do RS não é atualizada há cerca de uma década.
No início de abril deste ano, a Secretaria Estadual do Meio Ambiente e Infraestrutura lançou materiais com foco na educação ambiental: um livro de colorir e um guia das espécies-alvo de conservação do Plano de Ação Territorial Campanha Sul e Serra do Sudeste. “As publicações têm foco na fauna e na flora do bioma Pampa”, informa o órgão. A questão que fica: essa é uma ação suficiente?