Verissimo contra o autoritarismo: a pesquisa que virou livro

O estudo de Carlos Augusto Carneiro Costa revela como Verissimo converteu riso em instrumento de resistência e reflexão crítica, a partir do que o escritor define como “ética da representação humorística”
Verissimo contra o autoritarismo: a pesquisa que virou livro

Luis Fernando Verissimo e Carlos Augusto Carneiro Costa: o trabalho analisa cerca de 40 textos de Verissimo produzidos entre 1975 e 2010

Foto: Geovanni Cabral

O difícil disfarce da dor – humor e memória do terror em Luis Fernando Verissimo (Editora Unimontes, 240 páginas) compila quase uma década de pesquisas do professor de Estudos Literários da Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (Unifesspa) Carlos Augusto Carneiro Costa. O estudo apresenta a inteligência refinada de LFV – como também é conhecido aquele que é considerado o último dos grandes cronistas brasileiros –, utilizada no período da ditadura militar, sem banalizar o sofrimento das vítimas e dar sinais de alertas de um autoritarismo que ainda persiste no país.

O livro é fruto da tese de doutorado de Carneiro Costa, defendida na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) em 2019. O trabalho analisa cerca de 40 textos de Verissimo produzidos entre 1975 e 2010 e é organizado em quatro eixos temáticos: autoritarismo e suas continuidades; repressão, censura e práticas de tortura, memória e esquecimento.

Verissimo contra o autoritarismo: a pesquisa que virou livroFoto: Reprodução/Ed Unimontes A pesquisa revela como Verissimo conseguiu transformar o riso em instrumento de resistência e reflexão crítica, desenvolvendo o que o autor chama de “ética da representação humorística”.

A ideia surgiu durante o mestrado de Carneiro Costa na Universidade de São Paulo (USP), entre 2008 e 2011. Na ocasião, seu orientador, o professor Jaime Ginzburg, apresentou uma análise sobre o conto “Condomínio”, de Verissimo.

A narrativa retrata o inusitado e delicado encontro entre um torturador e sua vítima no elevador de um prédio residencial. O ápice culmina com as famílias de vítima e algoz confraternizando na piscina do condomínio, enquanto as crianças assistem aos Trapalhões, alheias ao passado violento.

“Nessa ocasião, o Jaime chama a atenção para um problema de ordem ética: como é possível relacionar o humor com a memória da ditadura, a partir dessa ideia de banalização da violência?”, indaga Carneiro Costa.

A partir desse questionamento, o pesquisador mergulhou em uma vasta bibliografia sobre humor e violência, estudando episódios da Segunda Guerra Mundial e de outros momentos traumáticos do século 20.

Foi o que chama de construção de um arcabouço teórico sólido, para compreender como o riso pode funcionar como mecanismo de resistência.

Metodologia rigorosa e literatura abrangente

Carneiro Costa realizou uma leitura abrangente de praticamente toda a produção de Verissimo em contos e crônicas, além dos romances. Inicialmente, identificou cerca de 100 textos que, “de algum modo, tocavam na ideia de violência e o poder do humor”, lembra.

Entre eles, selecionou 40 para análise detalhada. A análise contempla desde textos escritos no calor da ditadura até produções mais recentes que alertam para a permanência de práticas autoritárias na sociedade brasileira.

Apesar do recorte temporal da tese ser de 1975 a 2010, Carneiro Costa se obrigou a incorporar no livro novos textos que demonstravam a continuidade das preocupações do cronista com o autoritarismo brasileiro.

Conforme o autor, especialmente no contexto político de 2013 a 2019, Verissimo intensificou sua produção crítica e foi importante acrescentar isso na pesquisa baseada na teoria crítica da Escola de Frankfurt, especialmente nos trabalhos de Theodor Adorno sobre ética da responsabilidade.

A ética do humor, segundo Verissimo

A tese central da sua obra defende que Verissimo desenvolveu uma “ética da representação humorística”. Nela, o humor não tem como alvo a vítima, mas sim o poder opressor.

“O humor crítico, o humor sério, o humor transgressor se constitui pela construção de um alvo ou pela tentativa de se atingir um alvo que não é a vítima, mas o produtor da violência”, acredita Carlos Augusto.

Essa abordagem diferencia o trabalho de Verissimo de outras produções que banalizam a violência através da comicidade. O pesquisador cita como contraponto o filme A Taça do Mundo é Nossa, do Casseta & Planeta. Ali, ele identifica “a real banalização da violência. Não chamo o trabalho deles de humor, mas de comicidade”.

Para Carneiro Costa, a distinção fundamental entre o humor de Verissimo e a comicidade é que, enquanto a comicidade pode ridicularizar a vítima, o humor crítico do cronista sempre direciona seu olhar para as estruturas de poder e opressão.

Um porém, no entanto, é ressalvado pelo pesquisador: a ética da representação exige do leitor um conhecimento prévio sobre os temas abordados. Isso cria um pacto de cumplicidade intelectual que impede a banalização do sofrimento.

Para além da ditadura

Embora focado no período ditatorial, o livro revela como Verissimo continuou alertando para práticas autoritárias mesmo após a redemocratização.

O pesquisador registra que, durante a escrita de sua tese, especialmente no contexto eleitoral de 2018, o cronista intensificou a abordagem dos riscos do retorno de ideologias extremistas.

“De 2010 em diante, sobretudo a partir de 2013, com o movimento que veio culminar com o golpe contra a Dilma, o Verissimo escreveu demais, muita coisa”, observa Carneiro Costa.

Ele destaca uma crônica de 2018 onde uma menina pergunta ao pai sobre Hitler.

Só que – após explicações sobre o líder nazista – o pai descobre que não há interesse histórico na pergunta da filha. A menina queria saber mesmo era sobre o corte de pelos púbicos comentado por suas colegas de escola.

“Há um esvaziamento total, e aí o risco: o que foi Hitler para a Segunda Guerra deixou de existir nesse imaginário da juventude recente”, analisa Carneiro Costa.

Essa percepção do cronista sobre a continuidade do autoritarismo brasileiro, para o pesquisador, encontra respaldo teórico no conceito de “autoritarismo socialmente implantado”, desenvolvido pelo cientista político Paulo Sérgio Pinheiro.

Conforme Pinheiro, é a demonstração de como Verissimo conseguiu captar com precisão literária fenômenos que os cientistas sociais também identificavam.

Generosidade de Luis Fernando Verissimo

Verissimo contra o autoritarismo: a pesquisa que virou livro

Lúcia Verissimo (esposa do escritor), Luis Fernando Verissimo e Carlos Augusto Carneiro Costa

Foto: Geovanni Cabral

Durante a pesquisa, Carneiro Costa teve a oportunidade de entrevistar Verissimo por e-mail e visitá-lo em Porto Alegre. Apesar do laconismo característico do escritor, o professor identificou sua generosidade.

“A entrevista que eu fiz com ele foi incrível. O que eu levei cinco linhas para perguntar, ele em três respondeu de forma magistral”, relata. Esse desprendimento, segundo o pesquisador, reflete-se também na evolução da obra de Verissimo, que abandonou o humor conservador, muitas vezes com pitadas de preconceitos comuns décadas atrás, para adotar uma perspectiva mais crítica e socialmente responsável.

“Ele, com sua idade, poderia ter resolvido continuar com aquele humor conservador, mas muda isso aí. Essa mudança é sintoma dessa característica”, avalia.

O encontro pessoal com o cronista, mesmo em um momento em que Verissimo estava debilitado, confirmou a impressão que transparece em seus textos.

Essa experiência pessoal reforçou para o pesquisador a tese de que existe uma coerência entre a pessoa e a obra, entre a ética da responsabilidade presente nos textos e a postura humana do escritor. O difícil disfarce da dor – humor e memória do terror em Luis Fernando Verissimo está disponível em formato digital e físico pela Editora Unimontes e pode ser baixado em e-book / PDF gratuitamente: CLIQUE NESTE LINK.

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