Jéferson Assumção lança seu novo livro O triunfo da informalidade

Ex-camelô que virou doutor, o ensaísta analisa de forma original como as plataformas digitais transformam o trabalho e a vida das pessoas para o bem e para o mal
Jéferson Assumpção lança seu novo livro O triunfo da informalidade

“A informalidade liberada pelas tecnologias está em disputa”, afirma Jéferson Assumção

Foto: Acervo pessoal

“A informalidade não é algo que tenha a ver apenas com o mundo do trabalho; ela é um dado do nosso tempo. As tecnologias digitais liberam a informalização da sociedade e pressionam as legitimações, as normas, as formas, as instituições. Tudo o que é formal está se desmanchando no ar.” Esta afirmação sintetiza a principal tese defendida pelo escritor, professor e gestor cultural Jéferson Assumção em O triunfo da informalidade, publicado pela Editora Sulina em versão física e e-book. O livro tem seu primeiro evento de lançamento nesta sexta-feira, 10 de julho, às 19h, no Café Cantante, em Porto Alegre.

Embora não apareça de forma explícita, a reflexão contida na obra dialoga com a própria trajetória do autor. Entre o fim dos anos 1980 e o início dos anos 1990, Assumção trabalhou como camelô na estação Canoas da Trensurb. A experiência no comércio informal antecedeu uma carreira dedicada à literatura, à filosofia e à gestão pública e ajuda a explicar o olhar que desenvolve sobre as transformações provocadas pelas tecnologias digitais e pelas novas formas de organização social.

Sem transformar sua história pessoal no centro da narrativa, Assumção, avesso ao autocentrismo, utiliza a informalidade como mote para interpretar a contemporaneidade. O ensaio analisa como a lógica das gambiarras, do improviso e das plataformas digitais passou a influenciar relações de trabalho, práticas culturais, formas de participação política e modos de convivência.

Entre os conceitos apresentados está o “sivirismo” associado à capacidade coletiva de criar soluções em contextos marcados pela instabilidade e pela criatividade cotidiana. Ou seja,  o “se virar” e o “jeitinho” como traços culturais que permite que a digitalização das relações penetrem pelos poros da sociedade e se entranhem em todos os tecidos e níveis sociais.

A obra reflete também sobre a atual política cultural brasileira, que busca um “Estado-rede” que integra a diversidade cultural e combate desigualdades, equilibrando a formalidade institucional com a absorção de produções de grupos informais e novos sujeitos políticos. Essa abordagem visa estruturar o Sistema Nacional de Cultura (SNC) de forma flexível, evitando tanto o engessamento burocrático quanto a desorganização total.

Jéferson Assumpção lança seu novo livro O triunfo da informalidadeFoto: Sulina /DivulgaçãoAo longo do livro, o autor discute cultura digital colaborativa, identidades, consumo, novos sujeitos políticos e a informalização do trabalho, mostrando que essas transformações ampliam possibilidades de organização social, mas também aprofundam disputas em torno da democracia, dos direitos e das instituições.

Na orelha da publicação, o jornalista e professor Juremir Machado da Silva destaca a originalidade do ensaio ao interpretar a sociedade contemporânea pela perspectiva da informalidade. Segundo ele, Assumção mostra que “há algo de novo neste emaranhado de gambiarras” e que a informalidade “gera novos modos de ser, recombina, sampleia”, sem ignorar as contradições desse processo.

Natural de Santa Maria, Assumção nasceu em 1970, publicou mais de 20 livros. Atualmente dirige o Departamento de Livro, Leitura, Literatura e Bibliotecas do Ministério da Cultura (MinC). Também foi secretário de Cultura de Canoas e secretário adjunto de Cultura do Rio Grande do Sul. Doutor em Filosofia pela Universidade de León, na Espanha, e pós-doutor em Teoria Literária pela Universidade de Brasília (UnB), também atua como professor de Escrita Criativa e como músico e compositor no projeto Tropeçália, banda com atuação na cena alternativa, em Brasília.

A seguir, o escritor fala ao Extra Classe sobre o livro e os impactos da informalização na sociedade contemporânea.

Extra Classe – Em O triunfo da informalidade, você propõe olhar para a informalidade para além da precarização. Como distinguir, na prática, a criatividade e a capacidade de reinvenção que ela produz das formas de exploração e perda de direitos que também se expandem? Não se corre o risco de legitimar processos de exploração?
Jéferson Assumção –
A proposta do livro é mostrar que estamos vivendo um triunfo da informalidade, no sentido de que tudo o que é formal está sendo impactado pelas novas tecnologias digitais. Isso ocorre porque elas absorvem um nível muito alto de abstração dos procedimentos. E não apenas procedimentos simples, como ir ao banco sacar dinheiro. Toda a produção, em diversas áreas, está sendo impactada por essa absorção. Nós estamos passando da era mecânico-formal para uma era digital-informal. Na era mecânico-formal, para se obter um resultado, era preciso realizar muitas outras operações complexas. Hoje não. Para um resultado extremamente complexo, faz-se uma operação cada vez mais simples e intuitiva. Isso vai liberando a informalidade da sociedade.

EC – Para além do trabalho?
Assumção – A informalidade não é algo que tenha a ver apenas com o mundo do trabalho; ela é um dado do nosso tempo. Tudo está sendo desmanchado pela informalidade: as relações entre as pessoas, os comportamentos, a moda, a comunicação, a educação, o Estado, o mercado, a propaganda política e até a própria ideia de política, com políticos cada vez mais informais.

EC – Falando assim parece algo positivo.
Assumção – De forma alguma. Por um lado, há uma crise ou uma deslegitimação das instâncias tradicionais do Estado, do mercado e da sociedade civil diante da emergência de novos sujeitos políticos e culturais por meio das novas tecnologias. Isso tem aspectos muito positivos. Há novos sujeitos vindos das periferias participando da vida pública, trazendo outras perspectivas sobre a arte e sobre o mundo e descentralizando formas tradicionais de legitimação.

Jéferson Assumpção lança seu novo livro O triunfo da informalidade

“Estamos em uma encruzilhada que nos exige atenção”

Foto: Acervo pessoal/Divulgação

EC – E onde está o risco?
Assumção – Por outro lado, esse processo também é extremamente perigoso. Há uma deslegitimação de normas, formas e instituições que, até pouco tempo, davam sustentação às relações entre as pessoas. Essa institucionalidade está sendo diminuída e atacada no mundo todo. Um exemplo é o comportamento de Trump em relação aos organismos internacionais, ao Acordo de Paris e à Organização Mundial da Saúde (OMS), desamarrando os Estados Unidos das formalidades e produzindo uma espécie de “hiperinformalidade”. Sem mediação, libera-se um risco muito grande.

EC – É uma disputa? Explique melhor
Assumção – No meu entendimento, a informalidade liberada pelas tecnologias está em disputa. Basta ver o que acontece na internet. Embora esses ambientes sejam pós-massivos, o uso das redes sociais, das câmaras de eco e das formas de desconstrução das leis e das instituições é profundamente massificado. Precisamos estar extremamente atentos para que essa informalização não acabe legitimando novos processos de exploração e perda de direitos.

EC – O conceito de “sivirismo” aparece no livro como um dos elementos dessa reflexão. Em que medida essa busca coletiva por soluções pode fortalecer a organização social e política sem substituir a responsabilidade do Estado na garantia de direitos?
Assumção –
Na verdade, o “sivirismo” é muito próprio do ativismo cultural, especialmente da produção musical. É aquela disposição de organizar festivais, carregar caixas, montar seus próprios eventos, fazer acontecer. Ele não chega a ser um eixo central do livro, mas faz parte desse processo que chamo de “bazarização” e da emergência de novos sujeitos que vêm das periferias e ocupam novos espaços. Essa experiência traz consigo muita cultura colaborativa e formas de organização descentralizadas e horizontais, que acabam forçando uma adaptação do próprio Estado.

EC – Que adaptação é essa?
Assumção – Precisamos de um Estado em rede, que se relacione com os direitos dos cidadãos de maneira menos vertical, menos distante e mais porosa, permitindo controle público e participação social. Portanto, isso não substitui o Estado. Pelo contrário. É um elemento que pode fortalecer a participação na vida pública e ampliar a capacidade da sociedade de incidir sobre as políticas públicas.

EC – O livro dialoga com temas como plataformas digitais, cultura colaborativa e novas formas de organização social. Diante do avanço da uberização e da informalização das relações de trabalho, você acredita que estamos vivendo uma mudança transitória ou uma transformação estrutural do capitalismo?
Assumção – Para mim, trata-se de uma mudança estrutural de paradigma, não de uma transição passageira. Durante muito tempo ainda conviverão o mecânico-formal e o digital informal, mas a emergência desse digital informal já está pressionando profundamente o mundo do trabalho, do consumo e da produção. Hoje já não existe a mesma relação entre produção e consumo. Temos o “prosumidor”, que produz e consome ao mesmo tempo, e uma verdadeira “bazarização”, com milhares de camelôs virtuais vendendo, recriando e sampleando produtos e conteúdos. É uma mudança de paradigma, da catedral para o bazar.

EC – O que mais preocupa nesse cenário?
Assumção – Neste momento, vivemos uma crise de legitimação de inúmeras instituições tradicionais. A grande questão é saber o que colocaremos no lugar para garantir direitos e construir novas formas de mediação capazes de conter uma hiperinformalidade que pode ser extremamente danosa, talvez até fatal para a humanidade. No momento em que deixamos de ter controle sobre determinados níveis de formalidade, caminhamos para uma guerra de todos contra todos, em que quem pode mais se coloca acima do restante da população porque já não existem instâncias capazes de mediar esses conflitos.

EC – E qual é o desafio para quem defende a democracia e os direitos sociais?
Assumção – Estamos em uma encruzilhada que nos exige atenção, principalmente a partir de um olhar da esquerda. É muito importante compreendermos que existe um processo de informalidade da sociedade e que consigamos encontrar formas de restituir níveis de mediação, embora não mais nos moldes de formalidade que tínhamos até bem pouco tempo.

 

 

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