Missões: 417 anos e o esquecimento seletivo

O marco inaugural da saga missioneira no sul da América Latina remete a 17 anos antes, no Paraguai: San Ignácio Guazú é fundada no dia 29 de dezembro de 1609

Foto: Eduardo Tavares Entre no Paraguai e, na primeira pessoa que encontrar, pergunte:

– Que idioma falam aqui?

A resposta:

– O idioma oficial é o espanhol, o nacional é o guarani.

Dois idiomas, duas línguas maternas, mas o Paraguai é guarani na cepa de sua gente. Certa vez, em Santiago, onde restam nas paredes das casas os únicos afrescos remanescentes das Missões, em uma manifestação de plantadores de algodão, cada fala se iniciava em uma saudação em guarani e depois seguia em espanhol.

Se a pátria é a língua, nessa gramática dúbia da palavra ancestral e da colonizada, emerge um sentido desse país que é visto como primo pobre deste garrão sulino de mundo onde se ergueram as Missões Jesuíticas Guaranis. Entre o espanhol e o guarani reconhecidos pelo Estado paraguaio, talvez insistam, sem palavras, dois legados ambíguos: o da memória e o do esquecimento.

Neste momento, o Rio Grande do Sul ativa a memória e comemora, com chancela governamental, o que chama de 400 anos das Missões.

É uma data que remonta à fundação do primeiro dos Sete Povos das Missões no território gaúcho, São Nicolau, a partir da chegada do padre jesuíta Roque Gonzales, em 1626. Mas o marco inaugural da saga missioneira remete a 17 anos antes, no Paraguai: San Ignácio Guazú é fundada no dia 29 de dezembro de 1609. É o primeiro dos 30 povos que se espalharam pelo território onde estão Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai.

Essa efeméride dos quatro séculos da fundação de São Nicolau é apenas um marco da evangelização dos guaranis a partir da chegada de Roque Gonzales ao lado de cá da Banda Oriental, como lembra José Otávio Catafesto de Souza, professor e pesquisador do Laboratório de Arqueologia e Etnologia (LAE) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), que mergulhou na questão missioneira há mais de três décadas. Ele é antropólogo, arqueólogo e etnólogo e esgrimiu muito para trazer à tona a visibilidade guarani.

O reconhecimento ao povo guarani missioneiro é tardio e tortuoso. Catafesto fez um trabalho junto ao Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) – finalizado em 1998 – para obter uma chancela oficial de São Miguel das Missões como referência cultural mbiá guarani. Muitas vezes, o senso comum atribui o protagonismo e a expansão missioneira exclusivamente aos jesuítas, esquecendo pactos e práticas estabelecidos dentro das reduções a partir do domínio da natureza dos guaranis e a liderança dos caciques.

O projeto missioneiro ganha contorno a partir da fundação da Província Jesuítica do Paraguai, em 1607, e se estende por 30 povos ao longo de um território onde hoje estão Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai. Não havia essa divisão de países, na época eram colônias sob domínio da Espanha.

Os Sete Povos Missioneiros são uma interpretação territorial, demarcada a partir da resistência que ergueram a partir do Tratado de Madri (1750), quando foram usados como moeda de troca pela coroa espanhola. O território que habitavam passaria para a coroa portuguesa em troca da Colônia do Sacramento, nas margens do Rio da Prata. A resistência significou combater contra tropas portuguesa e espanhola entre 1753 e 1756. A derrota imposta pelos exércitos do império deixou um saldo de mais de 1500 mortes entre os guaranis. A guerra guaranítica chegava ao fim como mais um episódio dessa história de chacinas, iniciada alguns séculos antes com os ataques dos encomenderos e bandeirantes na busca por capturar indígenas para serem escravizados pelos donos das terras.

No dia 3 de maio de 2026, data que marca os 400 anos da fundação de São Nicolau, José Roberto de Oliveira, estudioso das Missões com atuação em várias instâncias ligadas ao tema, lança o livro Os Espíritos das Missões – A energia histórica viva, no Museu Histórico das Missões, em Santo Ângelo. Ele trata de algo sensorial e espiritual, ou o grande espírito e seus desdobramentos no que restou das reduções. José Roberto explica que, na cosmologia guarani, não há o mundo dos vivos e dos mortos. Há os vivos do lado de lá dando sentido aos vivos que estão aqui. Lembra do carma dos massacres.

“Eles matavam muita gente, se calcula que 300 mil foram capturados como escravos e mais 300 mil mortos nos ataques. São números absurdos. E a pergunta que fica é de como isso casa com a ideia de vida após a vida?.”

Foto: Eduardo Tavares

Há uma busca do presente para vasculhar melhor esse passado estabelecido em algumas frentes

Uma delas é a Assembleia dos 30 Povos, do qual José Roberto de Oliveira faz parte. Foi criada em 2009, no marco dos 400 anos da fundação de San Ignácio Guazú, o primeiro dos 30 povos missioneiros do Cone Sul. Ele refere “um grande nó na América, um nó espiritual pela mortandade de milhões de habitantes dos povos originários”. As ruínas missioneiras são um símbolo disso. Em vários sítios dessas reduções, existe algo sensorial que a razão não explica. Há algo muito vivo ali.

Essa aura indescritível ergue a mística. E o rigor histórico mapeia outro sentido objetivo da realidade. O historiador Tau Golin fala na romantização do processo de catequese. “Há uma conjuntura de opressão muito forte sobre os povos indígenas. Eles viram na possibilidade de aliança com os jesuítas a garantia de direitos, mas essa foi uma escolha feita a partir dos caciques em função dos ataques das forças destrutivas (encomenderos e bandeirantes)”.

E, assim, uma hierarquia e ordenamento de vida com a catequese e a organização social formam esses povos e imprimem um modelo econômico, cujas atividades remetem à criação de gado nas grandes estâncias jesuíticas, o cultivo da erva-mate, a arte, a arquitetura. E há, ainda, uma ordem de classe, a partir dos conceitos de Amambaé e Tupambaé. Amambaé é a propriedade privada de alguns, e Tupambaé é a terra comunitária, coletiva, chamada religiosamente de “coisa de Deus”. Tau explica que, nessa divisão, alguns caciques emergem como novos fazendeiros. Eles se formam na prática: existe todo um comércio de gado, especialmente nas grandes estâncias de Yapeju e São Borja, situadas nas margens do Rio Ibirapuitã, na direção da fronteira oeste do Rio Grande do Sul.

A espiritualidade, as mortes, as hierarquias objetivas ou subjetivas nos povoados ajudam a tecer também a invisibilidade guarani e a profusão de algumas lendas. Uma delas remete ao que os povoados em volta das reduções sempre contam: o ouro dos jesuítas. Uma outra é sobre o corpo de Sepé Tiaraju, o guerreiro-símbolo da guerra guaranítica. Dizem que está enterrada no Pedra do Segredo, nos campos de Caçapava do Sul, mas que é impossível encontrá-lo porque os espíritos impedem a iluminação no interior da rocha.

Catafesto vasculhou esse imaginário e, sobretudo, as formas de vida que sobreviveram. Muitos estudiosos dizem que os guaranis originários das Missões deram origem ao que chamam de neoguaranis, ou seja, se distanciaram da catequese e não trouxeram daí qualquer herança. E, desde então, ele relata movimentos de fuga (depois da guerra), o recolhimento ao mato diante do avanço da lavoura e do latifúndio, e a negação da intimidade com os novos colonizadores. Ele conceituou esse movimento como marginalidade itinerante.

Não é uma exclusão deliberada, mas uma recusa voluntária. Já reconquistaram espaços como áreas governamentais inaproveitadas e reservas legalizadas. Mantêm os mesmos hábitos do fogo comunitário, de uma cultura de produzir sem acumular e uma religião cujos espíritos são regidos pelas forças da natureza. Lembram e praticam os hábitos de origem. As Missões e a catequese podem estar vivos como lembrança ou insígnia. A guerra é outra e o império é silencioso. Atende pelo nome de esquecimento.


Renato Dalto (texto) e Eduardo Tavares (fotos) são autores do livro Missões Jesuítico-Guaranis, publicado pela Editora Unisinos e vencedor do Prêmio Açorianos de Literatura (2000). Essa obra tem a participação de Décio Freitas, Barbosa Lessa, Armindo Trevisan, Nestor Torelly e Pedro Ignácio Schmitz.

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