Colunistas
Espantástico
O assombro sobre os ombros não pesa, não cheira, mas muitas e muitas vezes é…

Foto: Arquivo Pessoal
Há tempos venho pensando em escrever este texto. Abandonei o intento várias vezes não por incapacidade de performance verbal, mas sobretudo pela sensação de que estaria pisando em um terreno pantanoso.
Pensando bem, no entanto, confesso que abandonei tantas vezes este texto mais pelo conforto da omissão do que pelo medo da discussão. Há caminhos para todas as direções, mas nenhum é tão confortável quanto não caminhar.
Sou uma pessoa extremamente privilegiada – várias vezes preciso repetir isso para mim mesmo, quando os infortúnios naturais da vida neste mundo capitalista me causam frustrações.
Nunca tive medo de apanhar da polícia. Não faço parte de nenhum estereótipo social que me faça ser preterido em entrevistas de emprego. Caminho de noite pela rua quase com a mesma segurança de quem vai da sala à cozinha do próprio lar. Além disso, nunca tive nenhum medo de sofrer assédio sexual.
Pensando bem, na verdade, creio que eu nunca tenha sofrido qualquer tipo de violência sexual na minha vida. Não é exagero. Não conheço a mão boba. Nunca fui seguido na rua por uma mulher. Jamais tive medo de que alguém se esfregasse em mim no ônibus, nem entrei em lugares e fui confrontado por olhares canibais.
Ando pelo meio de mulheres com a mesma tranquilidade de quem caminha por entre velhos conhecidos. Nunca fui acusado de ter tido relações sexuais com minhas chefes quando galguei protagonismo no meu trabalho e muito menos alguma delas vinha com abraços excessivamente demorados na minha direção. Não ouço piadinhas no trânsito, não me pegam forte pelo braço, nunca tentaram me beijar à força e, sobretudo, nunca tive medo de ser morto por qualquer ex-companheira.
No entanto, como todos deveriam saber, o contrário não é verdadeiro. Admito que poderia ficar páginas e mais páginas escrevendo sobre os absurdos dos mais variados tipos de violência de gênero que já presenciei na minha vida.
Não é apenas por medo jurídico que eu não exporei as dezenas de casos que já presenciei, mas sobretudo pela convicção de que o conhecimento de tais práticas já está tão disseminado em nossos diferentes tecidos sociais que dissertar demais sobre eles pode ser um exercício não só de anticoncisão textual, mas também de certo pleonasmo. Dito de forma mais clara, todo mundo vivencia a violência de gênero, seja na percepção de que ela acontece no seu dia a dia, seja nos discursos das redes sociais.
Enquanto escrevo essas linhas, o Rio Grande do Sul atinge a insuportável marca de 16 feminicídios apenas em 2026. Tenho a triste certeza de que esse número será superado em um curto espaço de tempo (já deve ter sido, não é mesmo?).
A natural fragmentação com que as redes sociais nos entregam as notícias de tais barbáries colaboram para um sentimento de naturalização desses crimes.
Em meio a memes, propagandas, postagens de amigos viajando ou se alimentando, surge mais uma notícia de uma mulher assassinada, apesar das medidas protetivas, mulher é esfaqueada por ex-companheiro, homem mata namorada não sei onde, jovem é morta a facadas por ex-namorado, enquanto isso a foto da praia, o cachorro do colega de trabalho, o sushi caro, adolescentes tapando o rosto com a mão, frases cheias de amenidades, críticas a políticos, futebol, decoração ou qualquer outro aspecto que o deus algoritmo resolver nos entregar.
A maioria de nós perdeu, é certo, a capacidade da estupefação que apenas a visão contemplativa de um fato pode nos proporcionar. Morre-se na contramão atrapalhando o tráfego de dados.
Quando tudo é espetáculo, não sobra lugar para se observar o absurdo que é extinguir uma vida humana simplesmente por não compreender que o sentimento pelo outro não ergue cercas de propriedade.
É muito possível que homens da minha geração vivenciem um embate quase diário entre as estruturas cognitivas indiscutivelmente machistas que em nós foram imputadas durante nossa formação e atitudes cada vez mais emancipatórias por parte das mulheres, o que nos rende uma boa dose de insegurança quando a necessidade é se posicionar contra qualquer tipo de prática sexista.
É claro, também, que essa insegurança vai correndo de braços abertos em direção à omissão, e no fim das contas podemos dizer, com a consciência relativamente tranquila, que não nos posicionamos porque talvez esse não seja nosso “lugar de fala” ou que precisamos “aprender a ouvir”.
Não há dúvidas, sabemos, que todo discurso emana de um sujeito que carrega consigo inúmeras marcas de subjetividade, mas quem há de discordar que se posicionar contra o massacre quase diário de mulheres não é uma responsabilidade da sociedade como um todo?
A masculinidade é, sobretudo, uma performance pública de demonstração de força e dominação que atinge seu nível mais nefasto no ambiente privado, na dominação e aniquilamento do corpo da mulher.
O silêncio implícito que há entre os homens, dessa forma, não é simplesmente a dificuldade de enfrentar um amigo que adota práticas machistas, mas acima de tudo um pacto estrutural em que o próprio silêncio é um insuperável mecanismo de conveniência.
Pude observar isso recentemente, quando o sequestro de Nicolás Maduro por Donald Trump gerou muito mais engajamento masculino nas redes do que a quase repetição de hediondos crimes de feminicídio. Obviamente, há inúmeras assimetrias entre essa comparação, mas ela demonstra, no final das contas, que a testosterona parece sempre merecer mais atenção do que o sangue que emana de dentro do corpo de uma mulher.
O feminicídio não começa no ódio. Ele tem início na pedagogia da superioridade, que compreende que o destino biológico também é uma pobreza simbólica. A linguagem de posse, a ilusão do controle, o romantismo tóxico e o medo do ridículo são mecanismos culturalmente herdados cujo resultado final é uma carnificina.
Textos, postagens e indignação são, no entanto, pouquíssimo eficazes. A longo prazo, poderíamos pensar na inserção curricular de educação emocional para meninos durante o ensino básico, além de inúmeras outras medidas.
No entanto, onde está a estrutura e a segurança para garantir que isso, de fato, vá fazer com que o número de feminicídios diminua?
Também poderíamos propor campanhas, cotas, adoção de protocolos nos mais diversos lugares, treinamento de intervenção entre homens, mas novamente a pergunta: isso faz com que os feminicídios diminuam a curto prazo?
Precisamos, para ontem, de ações coordenadas entre a sociedade civil e todas as esferas de poder, como a criação de mais delegacias da mulher, endurecimento de penas, mecanismos de obediência a medidas protetivas e a disseminação da cultura da denúncia.
A curto prazo, o agressor precisa ter medo. Talvez apenas assim vejamos, pouco a pouco, o número de feminicídios diminuir e enfim conseguir avançar em pautas mais estruturais.
Vereadores, prefeitos, governadores, deputados, senadores, ministros e presidente precisam ser pressionados a adotar urgentes medidas práticas.
Mas o banho de água fria, que reforça o tamanho da luta: apenas 15% das cadeiras na Câmara dos Deputados é ocupada por mulheres. Mais uma vez ele, o confortável silêncio como mecanismo do pacto estrutural.
É urgente, assim, a eleição de cada vez mais mulheres como mecanismo de mudança estrutural da forma como a política brasileira lida com o feminicídio.
Não se trata, como muitos reacionários que não tiram os pratos da mesa costumam dizer, do colapso da civilização ocidental. Trata-se, antes de tudo, de não permitir que seres humanos sejam mortos.
Nenhum sentimento tem o direito de sobrepujar a autonomia humana da própria existência. Não há nada fora disso que não seja violência. Talvez seja necessário, pelo menos a curto prazo, que a esquerda progressista não se perca em excessivas discussões acadêmicas, mas que compreenda que, acima de tudo, é preciso um pacto com toda a sociedade, sem exceções.
Cristiano Fretta é escritor e professor de Português e Literatura.