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O professor Gilmar de Azevedo é autor dos livros Escritoras da Ditadura; Só as feridas lavadas cicatrizam – Vozes femininas em salas de tortura; e Nós e você – Memórias de um pau-de-arara, todos lançados na conferência A Ditadura no Brasil: história e literatura, no Auditório da Uergs, em Porto Alegre
Fotos: Acervo do autor/Divulgação
Nesta quarta, 1º de abril, a conferência A Ditadura no Brasil: história e literatura vai abordar os 62 anos da implementação da ditadura militar no Brasil e a produção literária feminina no período. O evento ocorre às 15h, no campus central da Universidade do Estado do Rio Grande do Sul (Uergs). Na oportunidade, também serão lançados os livros Escritoras da Ditadura; Só as feridas lavadas cicatrizam – Vozes femininas em salas de tortura; e Nós e Você – Memórias de um pau-de-arara, de Gilmar de Azevedo, docente da Uergs, pesquisador do tema e debatedor no evento.
Também participam da mesa Jair Krischke, do Movimento Justiça e Direitos Humanos (MJDH), e a doutora Gínia Maria Gomes, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), pesquisadores do tema.
O debate integra a agenda de comemorações dos 25 anos da universidade e dos 10 anos do curso de Letras. As inscrições são gratuitas até 31 de março. O campus central da Uergs fica localizado na Rua Washington Luiz, 675, Centro Histórico, em Porto Alegre.
Em entrevista ao Extra Classe, o professor e escritor Gilmar de Azevedo aborda os motivos que o levaram a pesquisar a produção literária feminina e a dar voz às torturadas pelos militares, além de comentar os três livros que lançará no evento.
Gilmar de Azevedo tem 62 anos, é professor de Letras, graduado e especialista em Letras pela Universidade de Passo Fundo (UPF), tem mestrado pela Universidade Metodista de São Paulo (Umesp) e doutorado pela UPF. É também professor adjunto da Uergs, onde atua nos cursos de Letras e Pedagogia.
Extra Classe — Como surge o interesse em pesquisar e refletir sobre a produção literária feminina no período ditatorial?
Gilmar de Azevedo — Uma das justificativas para refletir sobre o tema foi o voto do ex-presidente (Jair Bolsonaro), então deputado federal pelo PSC, em 2016, dia 17 de abril, no processo de impeachment contra a ex-presidenta, em que disse: “[…] pela memória do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, o pavor de Dilma Rousseff […]”. Horrorizado com isso, interessei-me pelos temas da Ditadura “Civil-Empresarial-Militar”, pelas histórias das sequestradas, pelos ambientes de tortura e pela literatura produzida sobre esse evento e pelas próprias vítimas do ex-major, reconhecido juridicamente como torturador.
Extra Classe — Como é a abordagem?
Gilmar — Mostro em meus livros, por meio das vozes das sequestradas no Relatório Final da Verdade e em obras testemunhais com os registros autorais das próprias sequestradas, o quanto a tortura “sexual” foi maléfica individual e coletivamente, além de prejudicial para a história do Brasil. E isso, principalmente, em ambientes de tortura em que mulheres militantes foram torturadas, e essas ações foram, por muito tempo, apagadas, e muitas delas, silenciadas pelo regime de exceção e depois dele, inclusive após a Lei da Anistia, de 1979. Na literatura, por meio do discurso “metaficcional historiográfico”, é possível movimentar-se em busca da política de memória, nos modos de funcionamento voltados para a preservação da justiça e da verdade; interpretação e apropriação da história por meio do passado, com o propósito de construir um futuro sob a égide da memória social, para trazer à luz a violência vivenciada, a fim de, a partir da rememoração, coadunar-se com a compreensão do “Período de Exceção” que subjugou o país; e com o dever de memória, com o compromisso contra o esquecimento, em busca de justiça.
Extra Classe — Por que as mulheres?
Gilmar de Azevedo — Por meio de romances selecionados de autoria feminina, de escritoras que vivenciaram o momento histórico recortado, há a denúncia de crimes de lesa-humanidade cometidos por agentes da repressão, que evidenciam espaços de elaboração da realidade e do esquecimento, pela memória e pelo testemunho, e ativam o jogo da memória, quando permitem que traumas emerjam da/na ficção como marcas que atravessam a produção ficcional contemporânea. Ao escolher o ponto de vista, na literatura e no Relatório (e obras de apoio), das mulheres, fica a certeza de que elas reuniram vozes de protesto e de dor, escancararam feridas, tentaram se redimir de culpas, para que pudessem continuar, suscitando o interesse de que todas possam seguir lutando pela memória de todas: das que já não estão mais em nosso universo e das que continuam na luta pelo direito à reparação e à democracia.
Extra Classe — Por que a sociedade brasileira deve discutir temas relacionados à ditadura militar no país?
Gilmar de Azevedo — Diante de manifestações populares que carregam faixas com reivindicação de retorno à ditadura, é mister refletir sobre a Ditadura Civil-Empresarial-Militar no Brasil, em nome dos mortos — fantasmas com os quais se conversa — e das sequestradas que sofreram torturas e testemunharam sobre isso, no desejo de interagir, sobretudo, com os mais jovens, para que conheçam a história e respeitem as vozes das que não puderam falar, pelas dificuldades de se exporem, e também as das novas gerações de escritoras que se posicionam nessa corrente de mulheres combativas, como gesto de hospitalidade e empatia.
Escritoras da Ditadura — No livro (Editora Scrhreiben, 184 págs.), as escritas literárias femininas são arquivos de memória contra a ditadura com função de compor quadro de memória social e histórica. A obra reflete sobre o estudo das fronteiras entre história e literatura, a metaficção historiográfica nos romances brasileiros de autoria feminina ambientados na ditadura: As meninas [1973], de Lygia Fagundes Telles; Tropical sol da liberdade [1988], de Ana Maria Machado; Azul Corvo [2010], de Adriana Lisboa; Volto semana que vem [2015], de Maria Regina Pilla; Cabo de guerra [2016], de Ivone Benedetti. E mais quadro com 96 obras produzidas de 1973 a 2025 em que as autoras têm envolvimento direto ou indireto com o regime ditatorial no Brasil. Este livro, através do discurso metaficcional historiográfico, se movimenta em busca da política de memória nos modos de funcionamentos voltados para a preservação da justiça e da verdade; interpretação e apropriação da história através do passado, com o propósito de construir um futuro sob a égide da memória social, para trazer à luz a violência vivenciada, a fim de, a partir da rememoração, coadunar-se com a compreensão do período de exceção que subjugou o país. Disponível para download gratuito no site da editora.

Fotos: Reprodução/Divulgação
Só as feridas lavadas cicatrizam: vozes femininas em salas de tortura — A partir da teoria do dever de memória, o livro (Editora Scrhreiben, 184 págs.) resgata vozes testemunhais de 17 ex-sequestradas e torturadas no Regime de Exceção, em especial nos chamados “Anos de Chumbo” (1968-1974). As falas femininas aparecem no Relatório Final da Comissão Nacional da Verdade (2014) e em obras organizadas por elas mesmas em que expurgam seus traumas e segredam especificidades de seus exílios. A obra identifica, descreve e nomeia atores de ambientes de tortura em Porto Alegre (o Dopinho), no Rio de Janeiro (a Sala Roxa no I Batalhão de Polícia do Exército), e Petrópolis, no mesmo estado (a Casa da Morte), e em São Paulo (a Casa da Vovó), e nestes ambientes 18 instrumentos de tortura usados pelos repressores. Disponível para download gratuito no site da editora.
Nós e você: memórias de uma pau-de-arara — O romance (Editora Insular, 136 págs.) narra a história de uma mulher que trabalhou no DOI-Codi em São Paulo, na “Casa da Vovó”, de 1970 a 1974, sob a coordenação do major, amigo íntimo de seus patrões, que a tiraram do orfanato. Quando saiu, levou consigo um pedaço de madeira de cabreúva que era usado como suporte de pau-de-arara em sala de tortura. Como lia o “Aventuras de Pinóquio”, sonhou e desejou uma filha. De manhã, viu que aquela madeira se transformou em uma moça. Contou para a filha tudo o que viu e soube na “Casa” e morreu. O que são as memórias de uma pau-de-arara? Quem eram os torturadores? Quem são e o que aconteceu com as torturadas? Como foram seus encontros com o major-torturador? São algumas das perguntas que ficam para o leitor. Disponível para compra no site da editora.