Cultura
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Foto: Gabriela Miranda
A invisibilidade da música indígena no Brasil é fruto de um apagamento histórico que confina povos originários ao rótulo de “folclore”. Contra o estigma do “folclore estático” – visão colonial que exige um indígena congelado no passado –, a chamada Música Indígena Contemporânea (MIC) emerge como ferramenta de guerrilha cultural. Enquanto a MPB, historicamente, confinou o indígena ao papel de tema – como o ‘Índio’ cantado por Caetano Veloso –, a MIC rompe esse silenciamento para afirmar que o povo originário não é apenas a inspiração da canção brasileira, mas também o seu autor de pleno direito. Expoentes como a artista Katú Mirim, com sua música de resistência, e o pop indie de Kaê Guajajara, por exemplo, provam que a identidade ancestral é uma força viva, capaz de ocupar as metrópoles sem perder suas raízes.
É exatamente sob esse prisma de renovação e protagonismo que, no dia 3 de abril, ocorrerá o lançamento do álbum Nhanderu Tenondé (“Grande Espírito Sempre à Frente”). Gravado por integrantes da Aldeia Tabaçu Reko Ypy, situada em Peruíbe (SP), o disco é a base de um projeto ambicioso que prevê a circulação de espetáculos musicais gratuitos e de livre acesso por municípios do Vale do Ribeira e da Baixada Santista, no litoral paulista. O objetivo central é a difusão pública, qualificada e integral da cultura indígena, eliminando barreiras econômicas para garantir que a musicalidade ancestral seja vivenciada pela sociedade não indígena como uma prática cultural viva, potente e em permanente transmissão.

Foto: Gabriela Miranda
A obra fonográfica chega ao público abrindo o mês em que se comemora o Dia dos Povos Indígenas, trazendo uma carga simbólica de afirmação para os povos originários. Nhanderu Tenondé estará disponível em todas as plataformas digitais de áudio e contará também com uma tiragem limitada de cópias em formato de vinil, garantindo a preservação desse registro sagrado em suporte físico.
O repertório reúne dez cantos tradicionais e rezos de cura que entendem a música como uma “tecnologia de medicina espiritual”, longe de ser apenas entretenimento. O álbum apresenta canções com títulos que evocam a força da natureza e a conexão com o sagrado, como “Nos traga o sol”, “Flauta sagrada” e “Beija-flor”. Para os Tupi-Guarani da Tabaçu, o rezo é a espinha dorsal da existência. Como lembra a jovem liderança indígena Awa Kywy, a música é o canal direto com o divino: “É cantando que se cura, se fortalece e se conecta o espírito ao corpo”.
A definição de Nhanderu para este povo é vasta e onipresente. Segundo Awa, trata-se da força criadora que precede todas as coisas e sustenta a vida na terra: “Ele está em tudo: em mim, em você, na floresta, na água e no ar que a gente respira. Nosso rezo também é medicina, porque ele cura feridas que o remédio do branco não alcança. Através do canto, a pessoa se conecta com sua essência e, se precisa se libertar de alguma angústia, ali ela consegue a cura verdadeira”.
O álbum conta com a produção sensível do compositor e produtor Henrique Maranhão, cuja trajetória pessoal com o projeto nasceu de um chamado espiritual profundo. Maranhão revela que o álbum foi concebido a partir de seu próprio processo de cura xamânica. “A sabedoria dos povos originários não apenas me libertou de vícios profundos em álcool e drogas pesadas, como me transformou em homem, direcionando agora toda a minha sensibilidade artística”, relata o produtor.
Nhanderu Tenondé nasce de uma experiência mediada pela ayahuasca, não como um tema lírico, mas como orientação prática. Maranhão descreve que, durante uma cerimônia indígena no Festival Indígena União dos Povos (FIUP), sob a condução do curandeiro Ninawa Pai da Mata, e através dos efeitos da ayahuasca, ele foi acometido por uma “miração”: “As vozes eram claras: ‘Esqueça o protagonismo. Você vai produzir um álbum deles, com eles, para eles’”. Foi nesse estado de respeito que ele compôs “Takua Guarani”, uma homenagem à força das vozes femininas guaranis, pilar central do disco.
A aldeia Tabaçu Reko Ypy possui suas terras localizadas em território Piaçaguera, o qual, por sua vez, sofre constante pressão e cobiça do mundo não indígena. Até o ano 2000, o território vinha sendo devastado por uma mineradora. Mesmo após ser recuperado pelo povo tupi-guarani, uma empresa, de propriedade de Eike Batista, ameaçou construir um porto ali. Em 2017, outra ameaça: a construção de uma termoelétrica. Entre dezenas de famílias que ocupam o lugar que é deles, por direito e origem, a música está sempre presente.
Um dos pontos mais sensíveis do projeto é a visibilidade das mãos e vozes femininas. Historicamente, o manejo de certos instrumentos e ritos enfrentou barreiras de gênero, muitas vezes restringindo o violão aos homens mais velhos. Esse cenário revela que o machismo é uma questão que também atravessa as comunidades indígenas, impondo limitações ao papel da mulher na espiritualidade.
A musicista Ara Fernandes destaca que a ocupação desses espaços pelas mulheres é uma vitória política e espiritual. “Sempre teve esse preconceito masculino sobre as mulheres dominarem o violão ou a defumação. No entanto, a juventude entendeu que a cura não tem gênero. Nossa chegada para aprender e aplicar esses saberes não é uma afronta aos mais velhos, mas uma garantia de que o conhecimento não vai morrer”, explica Ara.
Ao assumirem as cordas do violão e o sopro dos cantos, as mulheres da Tabaçu Reko Ypy trazem uma nova vibração à medicina do rezo, fundindo o vigor da juventude com a delicadeza ancestral. Essa quebra de tabu fortalece a base da comunidade, pois permite que a espiritualidade flua por todos os membros, transformando a arte em um campo de igualdade.
Gravado de forma analógica e contínua no Estúdio Parede Meia, em São Paulo, o disco buscou preservar a fluidez das cerimônias originais. Para a jovem Djatsy, o processo foi um desafio: “É estranho cantar na cidade, mas levar nossa força Tupi-Guarani para o mundo nos deu coragem”. Ela completa: “Cantar na cidade traz um certo receio, uma vergonha que vem da diferença de energia do espaço. É bem diferente da aldeia, mas é muito bom estar aqui. É o momento de nós, Tupi-Guarani, mostrarmos nossa força para o mundo”.
O projeto agora ganha as estradas. A circulação pelo Vale do Ribeira e Baixada Santista reafirma o compromisso com a descentralização cultural. Ao oferecer espetáculos gratuitos, o grupo da Aldeia Tabaçu Reko Ypy não somente lança um disco, mas também abre um diálogo necessário sobre a preservação ambiental e o respeito aos territórios. Nhanderu Tenondé é uma ponte entre mundos e um documento de resistência, lembrando que, enquanto existir canto e rezo, haverá esperança de equilíbrio para a terra.