Quem decide a eleição ainda não se decidiu

Pesquisas apontam que entre 55% e 65% dos eleitores decidem antes do início da campanha, 35% a 45% durante a campanha, e 6% dos eleitores podem ainda se decidir na véspera da votação

Quem decide a eleição ainda não se decidiu

Arte: EC / IA

Copa do Mundo termina agora em julho e a campanha eleitoral só começa em agosto, mas, pela grande imprensa, já foram decretadas a vitória de Flávio Bolsonaro no primeiro turno, depois sua desistência do pleito, o próprio fim do governo Lula, entre outras narrativas. É preciso dizer que a opinião pública não é uma “biruta de aeroporto”, que muda conforme o vento, mas ela está mais para um pesado “transatlântico” no oceano.

Em ano eleitoral, vale lembrar o básico: para a imprensa, os resultados funcionam como “corrida de cavalos” (quem está à frente versus quem está atrás), o que conta é a notícia. Para políticos, a regra é outra: sublinham-se os números quando os favorecem e relativizam-se quando os desfavorecem, o que conta é a vitória. Já o cidadão comum costuma confundir seu próprio desejo com a realidade.

Freud nos ensinou, dolorosamente, que crença baseada em desejo é ilusão (religião), o que é bem diferente da crença baseada em evidências (ciência). Por isso, mantendo o compromisso desta coluna com a “verdade efetiva das coisas”, faço aqui uma leitura desapaixonada, dando ao leitor um ângulo do pleito eleitoral neste momento. A disputa já começou a se desenhar, mas é no período eleitoral que ela ganha forma e atrai a atenção do eleitor para o jogo.

A decisão do voto

Pesquisas pretéritas feitas pelo Datafolha e Quaest já mediram a decisão do voto em eleições presidenciais. Os resultados convergem para algo entre 55% e 65% dos eleitores decidindo-se antes do início da campanha, 35% e 45% durante a campanha e 6% dos eleitores podem ainda se decidir na véspera das eleições. Em outras palavras, ainda há um contingente relevante de eleitores que pode mover-se na disputa até o dia da eleição.

O alvo das campanhas

Segundo as últimas pesquisas do Data Folha, 46% disseram que não votariam em Lula de jeito nenhum, outros 48% afirmaram o mesmo sobre Flávio. Também há quem declare voto certo em um dos dois. Ou seja, a campanha não é dirigida a quem rejeita o candidato, nem a quem já está “fechado” com eles. Ela mira uma fatia menor e decisiva do eleitorado, algo como 20% a 30%, os swing voters (indecisos). Dito de outra forma, a disputa não será resolvida pelos núcleos duros de apoio, mas pela capacidade de cada candidatura de conquistar a parcela do eleitorado que ainda pode mudar de posição.

Pontos estruturantes

Bolsonaro tende a manter Flávio no páreo, pois é a única chance de manter-se relevante no jogo político; todas as outras candidaturas à direita só podem lhe oferecer o ostracismo político. Por outro lado, Flávio é o melhor adversário para Lula, com um passivo enorme; os outros candidatos apresentam baixa rejeição. Jair Bolsonaro e Lula convergem: querem Flávio no segundo turno!

Cenário político

Lula aparece como vencedor em todas as simulações eleitorais ou em empate técnico. Todavia, sempre é bom lembrar: eleição se ganha nas urnas, não em pesquisas. Flávio, o Bolsonaro que supostamente “come de garfo e faca”, comete “atos falhos”, dialogando somente com sua bolha ideológica. Dentro dela, protagoniza com Michelle Bolsonaro uma “lavação de roupa suja” pela disputa do espólio do Bolsonarismo.

O problema é que estas eleições não serão decididas pelos eleitores fiéis, mas pelo eleitor que hesita e muda de posição ao longo da campanha. A última pesquisa Quaest apontou que Flávio perdeu 7 pontos entre os eleitores independentes, e Lula ganhou 8 pontos após episódio Master/Dark Horse e as tarifas de Trump.

Embora Flávio conte com uma conjuntura internacional favorável, com as vitórias sucessivas da direita na América Latina e o apoio de Trump, talvez ele já tenha se dado conta que pode ser um “cavalo paraguaio” e aposte no tudo ou nada contra a democracia brasileira. Tudo indica, portanto, que esta eleição será decidida “cabeça a cabeça”,  menos pela força dos núcleos duros das campanhas e mais pela capacidade de dialogar com o eleitor indeciso. Será preciso, mais do que força, astúcia: ser menos leão e mais raposa, como diria aquele florentino.

Everton Rodrigo Santos é cientista político e professor titular da Universidade Feevale. Pesquisador e consultor Capes/Cnpq/Fapergs/WVS. Autor de “Ciência Política: Lições sobre o jogo do poder”, escreve mensalmente no Extra Classe.

 

 

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