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Uma vez perguntaram ao James Joyce por que estava escrevendo Finnegans Wake e ele respondeu: “Para manter os críticos ocupados por trezentos anos”. Poderia ter dito o mesmo de Ulisses, que nos 83 anos desde sua publicação tem mantido ocupados críticos, acadêmicos, explicadores – e tradutores. Traduzir Ulisses é tão difícil que em muitos lugares sua edição na língua local é considerada uma prova de maioridade intelectual. Ou, como no caso da tradução catalã, publicada em 1981, um atestado de sofisticação para a língua. O Brasil e o português estão bem nesse torneio de egos culturais. Já temos não só uma tradução de Finnegans Wake pelo Donaldo Schüler, como não uma, mas duas traduções de Ulisses, a do Antônio Houaiss e agora essa da Bernardina da Silveira Pinheiro, numa bela edição da Objetiva. Já li que a versão da professora Bernardina é mais coloquial e “acessível” do que a do Houaiss. Imagino que o grande desafio para um tradutor de Joyce seja a tentação de tornar o seu texto mais claro, o que daria a leitores de Ulisses em outras línguas um privilégio que leitores do original não têm. O tradutor, no caso, seria um “traditore” de tipo especial, roubando do texto os enigmas intencionais do autor e o charme da obscuridade. De qualquer maneira, toda tradução de Ulisses é, antes de mais nada, uma interpretação de Ulisses.
Richard Ellmann, o melhor biógrafo e estudioso de Joyce (e de quem tirei a citação aí de cima), conta que o autor não sabia que sobrenome dar a Stephen, o herói do seu semi-autobiográfico Retrato do artista quando jovem. Estava entre Daly e Dedalus. Se Stephen se chamasse Daly, a história de Joyce não fugiria ao padrão realista do livro de contos Dubliners e dos seus outros textos. “Dedalus”, que evocava o inventor de labirintos da mitologia grega, impeliria o herói e o autor para outro plano. Só para justificar um nome nada irlandês como Dedalus, Joyce já estava obrigado a dar a sua história uma dimensão maior do que a que teria com o cotidiano Daly. Escolhendo Dedalus, Joyce dava o seu primeiro passo para o que depois descreveria como suas “extravagantes excursões em território proibido”, que seriam Ulisses e Finnegans Wake. O território onde o cotidiano vira mito, onde um dia na vida de dois dublinenses – um deles o próprio Stephen Dedalus, que termina o Retrato do artista auto-intimado a ser a consciência da sua raça – reproduz a Odisséia, a proto-aventura humana, e engloba toda a experiência terrestre, e um longo jogo de palavras que pretende ser a história onírica de todo o mundo. Se Stephen se chamasse Daly, é provável que nada disto tivesse acontecido. Ellmann, comentando a durabilidade dos mitos modernos criados por Joyce, que certamente ainda estarão sendo discutidos, e traduzidos, daqui a trezentos anos, cita Shakespeare: “Nem o mármore, nem os monumentos dourados de príncipes, viverão mais do que estas poderosas rimas”.