Ambiente
Entidades científicas alertam para riscos ambientais em projetos da bancada ruralista
Pesquisadores afirmam que propostas em tramitação na Câmara reduzem a proteção de biomas e ampliam…

“O desastre serviu como um alerta para os desafios que o Brasil e o mundo enfrentarão diante do agravamento das mudanças climáticas”
Foto: Bruno Peres/Agência Brasil
Ao longo da história, superar fronteiras tem sido um desafio central para a humanidade. Desde os tempos antigos, as civilizações buscaram expandir seus territórios, como os reis sumérios da Mesopotâmia e os protagonistas da Era Moderna do Ocidente, que impulsionaram a colonização das Américas e a exploração descontrolada dos recursos naturais. No final do século 20, uma nova fronteira surgiu: a da exploração espacial. Com a chegada do homem à Lua, reforçou-se o ideal colonial de expansão e apropriação de novos territórios, agora extrapolando os limites terrestres.
Paradoxalmente, foi a exploração espacial que permitiu uma nova percepção do planeta Terra. As imagens do espaço revelaram a atmosfera como um delgado invólucro azul, fácil de ser atravessado para chegar à Lua. Poucos entenderam que essa delgada atmosfera é o envelope que, junto com a hidrosfera, determina a própria face da Terra como é vista no espaço. Ela é a síntese do metabolismo e dos ciclos geoquímicos e bioquímicos superficiais do planeta.
Foi o cientista inglês James Lovelock que entendeu que a atmosfera conecta todos os seres vivos e ecossistemas em uma paisagem global. Ao desenvolver a Teoria de Gaia, demonstrou que atmosfera e biosfera são sistemas coevolutivos, um influenciando a existência do outro. Essa visão reforçou a ideia de que a Terra não é apenas um conjunto de partes isoladas, mas sim um sistema dinâmico, cujos componentes superficiais formam o sistema do clima.
O sistema climático define as condições de vida no planeta, determinando os limites dos biomas e a distribuição das espécies. Os padrões climáticos influenciam desde a propagação de insetos até a habitabilidade de mamíferos, aves e seres humanos. Cada elemento da paisagem – solos, rochas, florestas, oceanos – participa da regulação climática e, ao mesmo tempo, é moldado por ela. Dessa forma, mudanças climáticas impactam diretamente a estrutura dos ecossistemas e das sociedades.
As interações entre os componentes sólidos, líquidos e gasosos da Terra formam interfaces, como a biosfera, onde organismos vivos formam ecossistemas complexos. A diversidade de paisagens terrestres resulta dessas interações, estabelecendo as condições para o funcionamento do sistema climático global. Quando esse equilíbrio é alterado, como acontece atualmente devido às emissões de gases de efeito estufa, surgem consequências severas que afetam não apenas a biodiversidade, mas também a segurança alimentar, os padrões climáticos regionais e a vida cotidiana das populações de toas as espécies.
A crise climática que enfrentamos hoje teve sua origem na Revolução Industrial, com a intensificação do uso de combustíveis fósseis. O carvão, o petróleo e o gás natural foram a base do crescimento econômico, mas também impulsionaram um aumento alarmante das emissões de gases de efeito estufa. O cientista sueco Svante Arrhenius, já em 1896, calculou que a duplicação da concentração de dióxido de carbono (CO₂) na atmosfera resultaria no aquecimento global de 4 a 5°C. Seu alerta foi confirmado décadas depois pelo químico Charles Keeling, que, a partir de 1958, registrou um crescimento constante das emissões de CO₂, culminando, em 2024, na marca histórica de 424 partes por milhão (ppm). Antes da Revolução Industrial, esse índice era de aproximadamente 280 ppm. Ao mesmo tempo, a temperatura nesse mesmo período aumentou em 1,5°C.
O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) tem monitorado esses impactos desde 1988. Segundo seu relatório mais recente (2023), a região Sudeste da América do Sul, que inclui o Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, parte de São Paulo, Minas Gerais, Espírito Santo, Mato Grosso do Sul e Rio de Janeiro, já experimenta aumentos significativos de temperatura média, eventos climáticos extremos, precipitações severas e elevação do nível do mar. O aumento de ondas de calor, inundações e acidificação dos oceanos são algumas das consequências diretas observadas.
Em 2015, no Acordo de Paris, estabeleceu-se um limite máximo de 1,5°C de aumento na temperatura média global, em comparação aos níveis pré-industriais, como um patamar seguro para a adaptação climática. No entanto, em 2024, a temperatura global já atingiu 1,64°C, ultrapassando essa marca. O Rio Grande do Sul testemunhou os efeitos desse desequilíbrio na forma de sua pior catástrofe ambiental da história.
O desastre de maio de 2024 no Rio Grande do Sul foi a maior catástrofe hidrogeoclimática e socioambiental já registrada em uma região metropolitana do Hemisfério Sul. Um volume extremo de 800 mm de chuva caiu em apenas cinco dias sobre a região nordeste e central do estado, resultado de uma configuração meteorológica excepcional. Entretanto, fatores geológicos, geográficos e socioeconômicos agravaram os impactos desse evento, expondo vulnerabilidades estruturais da sociedade gaúcha.
A inundação atingiu centros urbanos e áreas rurais, destruindo infraestruturas, interrompendo atividades econômicas e deslocando milhares de pessoas. O desastre serviu como um alerta para os desafios que o Brasil e o mundo enfrentarão diante do agravamento das mudanças climáticas. Os padrões de urbanização, a ocupação inadequada de áreas de risco e a falta de planejamento sustentável ampliaram os danos, tornando evidente a necessidade de novas estratégias para lidar com eventos extremos.
A questão central, agora, é como reconstruir diante dessas mudanças? Repetir os paradigmas do século 20, baseados no crescimento econômico descontrolado e na degradação ambiental, não é uma solução viável. Em vez disso, é fundamental adotar uma abordagem que priorize a regeneração dos ecossistemas e das bacias hidrográficas. Desde as nascentes dos rios até suas desembocaduras, é necessário repensar a relação entre os ambientes naturais e as ocupações humanas.
As cidades devem ser menos dependentes de energia e alimentos externos, incorporando corredores ecológicos e minibosques urbanos que funcionem como esponjas para absorver chuvas intensas e mitigar o calor extremo. Essas soluções baseadas na natureza não apenas melhoram a resiliência climática, mas também proporcionam qualidade de vida para as populações. Além disso, é preciso considerar a regeneração das comunidades afetadas, garantindo apoio econômico e social para aqueles que tiveram suas rotinas e meios de subsistência destruídos.
Por fim, o evento de Porto Alegre abordará uma questão fundamental: os limites geoéticos para habitar a Terra no Antropoceno. A sociedade humana precisa reconhecer que existem limites para a exploração dos recursos naturais e para a ocupação desordenada dos territórios. Como já alertaram povos indígenas, “não podemos tomar o lugar que é da água”. Respeitar essa fronteira é essencial para evitar desastres futuros e garantir um planeta habitável para as próximas gerações.
Esses e outros desafios serão debatidos no encontro RS: Resiliência & Sustentabilidade, um espaço essencial para repensar o futuro diante da crise climática que já se manifesta de forma evidente.
Rualdo Menegat é professor titular do Instituto de Geociências da Ufrgs, vice-presidente científico do Foro Latino-Americano de Ciências Ambientais – Cátedra Unesco de Desenvolvimento Sustentável, presidente da Sessão Brasileira da International Association for Geoethics, membro da Comissão de Geoética da Sociedade Brasileira de Geologia.