Produtores rurais que faturam com o desmatamento perdem R$ 806 milhões em créditos

Parceria entre BNDES e MapBiomas usa satélites para identificar desmatamento ilegal e impede crédito rural a infratores
Monitoramento por satélite leva desmatadores a perderem R$ 806 milhões em crédito

Os dados revelam que, em média, R$ 1 milhão em créditos por dia deixou de ser liberado para agricultores envolvidos em degradação ambiental desde fevereiro de 2023

Foto: Felipe Werneck/Ibama

O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) anunciou nesta Semana do Meio Ambiente que R$ 806,3 milhões em créditos de financiamentos a produtores rurais flagrados em desmatamento ilegal foram bloqueados. A ação foi possível graças a uma parceria da instituição de fomento com o MapBiomas, rede colaborativa que mapeia via utilização de satélites a cobertura e uso da terra no Brasil desde 1985.

Os dados revelam que, em média, R$ 1 milhão em créditos por dia deixou de ser liberado para agricultores envolvidos em degradação ambiental desde fevereiro de 2023.

NESTA REPORTAGEM
No total, 3.723 alertas de desmate foram identificados. Isso é o equivalente a 1% das 337,2 mil solicitações de crédito rural analisadas pelo BNDES no período. A medida atinge principalmente linhas de financiamento com juros subsidiados, como o BNDES Crédito Rural e programas do Plano Safra.

Em 2023, o banco passou a cruzar informações do Cadastro Ambiental Rural (CAR) com imagens de satélite do MapBiomas para barrar operações em áreas irregulares.

Tecnologia a serviço do meio ambiente

A plataforma MapBiomas é uma das referências em monitoramento de florestas no mundo. Ela cruza imagens de satélite com o banco de dados do CAR e identifica se há indícios de desmatamento ilegal na propriedade. O sistema integrado possibilita que o BNDES monitore também operações já contratadas.

São imagens de alta resolução capazes de produzir laudos de constatação de desmatamentos recentes em propriedades rurais estão registradas no Sistema Nacional de Cadastro Ambiental Rural (Sicar) do Ministério da Agricultura e Pecuária.

O monitoramento realizado utiliza dois satélites, o Landsat e Sentinel-2. Eles têm características complementares para permitir uma análise precisa do território brasileiro.

O Landsat, em operação desde 1985, oferece uma série temporal extensa com resolução espacial de 30 metros. Isso é o adequado para detectar transformações em grandes áreas ao longo das décadas.

Já o Sentinel-2, lançado em 2016, tem resolução de até 10 metros e revisita o mesmo ponto da Terra a cada 5 a 8 dias, possibilitando a identificação rápida e detalhada de mudanças ambientais, como cicatrizes de queimadas e alterações em áreas menores.

Como funciona

“A gente cruza informações também com a base de dados de autorizações de desmatamento que tem no Ibama. Assim, a gente sabe se teve ou não autorização e também a gente avalia se ele está sob alguma área protegida. A gente produz um laudo que identifica uma imagem antes e depois do desmatamento e faz todos os cruzamentos para a gente saber em que propriedade que houve o desmatamento, se está em área protegida”, acrescenta Tasso Azevedo, coordenador do MapBiomas.

“Com tecnologia e governança rígida, agimos com precisão para frear créditos que incentivam a destruição ambiental”, afirma Aloizio Mercadante, presidente do BNDES. Segundo ele, só em abril de 2025, o banco rejeitou R$ 25 milhões em pedidos ligados a desmatamento.

Mercadante reforçou a nova postura do BNDES: Apoiamos o agro que inova e preserva. O tempo do crédito fácil para quem desmata acabou”. Para ele, as diretrizes ainda ecoam a demanda de investidores globais por critérios ESG (ambientais, sociais e de governança) no financiamento rural.

Rio Grande do Sul

No Rio Grande do Sul, o volume de crédito evitado chegou a R$ 100,9 milhões, no mesmo período – terceiro lugar no ranking nacional em valor absoluto. O estado foi o décimo nono do Brasil em percentual de financiamento evitado, com 0,6% de crédito não concedido dos R$ 17,1 bi solicitados. Do total de solicitações feitas para o Rio Grande do Sul desde fevereiro de 2023, em 0,8% foram registrados alertas de indícios de desmatamento ilegal.

Os 3.723 alertas ativos de indícios de desmatamento ilegal registrados desde fevereiro de 2023 equivalem a 1% das 337,2 mil solicitações de crédito rural encaminhadas ao BNDES neste período. São consideradas de crédito rural as operações dos programas agropecuários do Governo Federal, com juros equalizados; da linha BNDES Crédito Rural e aquelas que tenham marcação de crédito agrícola pelo Banco Central (BC).

Regiões –A região Norte teve o maior percentual de financiamentos evitados (2,2% dos R$ 4,3 bilhões solicitados), com alertas ativos de indícios de desmatamento ilegal em 2,5% das quase 7,2 mil solicitações. O Nordeste foi a região que registrou a maior taxa de alertas ativos de indícios de desmatamento ilegal (2,8% das mais de 9,4 mil solicitações) e segundo maior percentual entre as regiões de financiamentos evitados (1,6% de R$ 5,95 bilhões).

Os melhores indicadores têm sido registrados no Sudeste, com bloqueio de 0,4% do total de 15,4 bilhões de volume de crédito solicitado e alertas de indícios de desmatamento ilegal de 0,3% das 46,3 mil solicitações de crédito rural. No Centro-Oeste, foram bloqueados 0,8% dos R$ 20,1 bilhões solicitados, e emitidos alertas de indícios de desmatamento ilegal em cerca de 1% das 22,3 mil solicitações. A região Sul teve evitados 0,9% dos R$ 42,3 bilhões solicitados e apresentou 1,1% das 252,1 mil solicitações de alertas de indício de desmatamento ilegal.

Em todo o período de vigência da parceria entre o BNDES e o MapBiomas, o Estado do Amazonas teve os maiores percentuais, com 6,25% de alertas de desmatamento em 48 solicitações de crédito e 12,64% de financiamentos evitados dos quase R$ 13 milhões solicitados.

Entre os 10 estados com maiores percentuais de financiamentos evitados, quatro são da região Norte (Amazonas, Tocantins, Acre e Rondônia); e seis, do Nordeste (Maranhão, Paraíba, Pernambuco, Piauí, Rio Grande do Norte e Ceará). Entre todos os entes federativos, o Distrito Federal e o Amapá foram os únicos que não tiveram alertas, muito em função do menor número de solicitações de crédito rural ao BNDES.

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