ECONOMIA

À espera de um milagre

O que esperar de um governo que, nos primeiros quatro meses, elegeu a instabilidade e a guerra ideológica como bandeiras?
Por Flávia Bemfica / Publicado em 21 de maio de 2019

Passados quatro meses do início do governo de Jair Bolsonaro (PSL) e a euforia inicial de setores empresariais e do mercado, a economia do país segue estagnada e não há indicativo de retomada. Na verdade, até agora, não há recuperação de renda, o desemprego vem aumentando, e o índice de atividade econômica está em queda

Tudo indica que a economia está derretendo, mas o ministro Paulo Guedes segue com sua agenda de ajuste fiscal e contração de gastos e aposta na reforma da Previdência como a grande solução para a retomada do crescimento

Foto: José Cruz/Agência Brasil

Tudo indica que a economia está derretendo, mas o ministro Paulo Guedes segue com sua agenda de ajuste fiscal e contração de gastos e aposta na reforma da Previdência como a grande solução para a retomada do crescimento

Foto: José Cruz/Agência Brasil

No final de abril, o Brasil registrou nove semanas consecutivas de redução na expectativa de crescimento do PIB. O PIB, descrito como o indicador que mede a riqueza de um país, é a soma de todos os bens e serviços finais que ele produz em determinado período. Para que aumente, o que significa crescimento da economia, quatro fatores são determinantes: o consumo das famílias, o gasto público, os investimentos privados e as exportações. Nenhum dos quatro vai bem no Brasil em 2019.

Ao invés de sinalizar com gastos, a União corta e comprime programas, e a expectativa é de retração, e não de aumento, nos investimentos públicos. Sem saber o que esperar de um governo que, nos primeiros quatro meses, elegeu a instabilidade e a guerra ideológica como bandeiras, e atentos a uma conjuntura econômica mundial desfavorável, empreendedores privados também seguram os investimentos. Há estagnação no consumo das famílias, que entra com 63% na composição do PIB, e alguns indicadores já apontam que ele registra queda importante neste início de ano. Os dados da balança comercial também não geram alento. No primeiro trimestre de 2019, o saldo caiu 13,9% na comparação com o mesmo período do ano passado, de 12,2 bilhões de dólares para 10,5 bilhões de dólares, conforme o Indicador do Comércio Exterior (Icomex), divulgado pela Fundação Getúlio Vargas (FGV). É o menor patamar desde o primeiro trimestre de 2016. Na indústria de transformação, o déficit na balança, nos primeiros três meses, bateu nos 60%.

Para o futuro próximo, a desaceleração na expansão da economia global, já apontada pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), combinada à linha adotada pelo governo brasileiro, que mistura fatores religiosos e indiferença à questão climática, não deve ajudar o desempenho do país. No final de abril, por exemplo, 600 cientistas europeus publicaram um manifesto na revista científica Science, solicitando que a União Europeia vincule as importações que faz do Brasil ao cumprimento de compromissos ambientais.

Em janeiro, conforme o Relatório de Mercado Focus, divulgado todas as segundas-feiras pelo Banco Central (BC) com as expectativas colhidas junto a bancos, empresas, gestores de recursos, distribuidoras, consultorias e corretoras, a projeção era de que o PIB crescesse 2,53% em 2019. No final de março, baixou para 1,98%. Na última semana de abril, estava em 1,70%. Já é apontada como concreta a possibilidade de que o crescimento no ano não ultrapasse o 1%. E, neste primeiro trimestre, seja negativo.

Para além dos fatores que compõem o PIB, existe uma sucessão de indicadores ruins. O Índice de Confiança do Empresário Industrial (Icei), calculado pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), caiu 0,2 ponto em fevereiro, 2,6 pontos em março e 3,5 pontos em abril. Os empresários indicam recuo das expectativas e piora na avaliação das condições de negócios. O Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br), medido pelo BC, caiu 0,41% em janeiro e 0,73% em fevereiro. O IBGE apontou 0,2% de crescimento no volume de vendas do comércio varejista no país em março, na comparação com o mês anterior, mas, segundo os boletins informativos da Fecomércio-SP, os empresários percebem sinais de arrefecimento, não acreditam que as vendas serão tão boas nos próximos meses e temem a volta da inflação. Os informes da entidade tomam por base a variação do volume de mercadorias estocadas nas lojas.

O conjunto pouco promissor foi coroado no final de abril com a divulgação dos resultados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, do IBGE, que mostrou deterioração ainda maior do mercado de trabalho. Conforme os dados do IBGE, mais de 1,2 milhão de pessoas entraram para a população desocupada no primeiro trimestre do ano, na comparação com o último trimestre de 2018. Com isso, o total de pessoas à procura de emprego no país é agora de 13,4 milhões. A taxa de desocupação subiu para 12,7%. Não por coincidência, a inadimplência bate recorde. Em março, segundo dados da Serasa Experian, o número de pessoas com o nome sujo ou com dívidas em atraso bateu nos 63 milhões. Isso significa que 40,3% da população adulta do país está inadimplente.

Paul Krugman

Foto: Divulgação

Teoria da austeridade expansionista, ou ‘fada da confiança’, na definição de Krugman,…

Foto: Divulgação

Joseph Stiglitz

Foto: Greg Salibian

… e Joseph Stiglitz, foi um fracasso tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil

Foto: Greg Salibian

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Os indicativos de que a economia está ‘derretendo’ não parecem abalar as convicções da equipe econômica do governo, que segue firme na agenda de ajuste fiscal e contração de gastos, anuncia a reforma da Previdência como a grande solução para a retomada do crescimento e vaza pontos de uma pretensa reforma tributária ,na qual se destaca a recriação de uma CPMF disfarçada. Na metade de abril, o governo propôs para o Orçamento de 2020 uma correção do salário mínimo apenas pela inflação. É a interrupção de uma política de ganho real que existia desde o governo de Fernando Henrique Cardoso, em 1994, primeiro informalmente e, depois, já no governo Lula, com o estabelecimento de uma fórmula oficial de reajuste. O arrocho acontece em um momento em que a renda per capita do brasileiro permanece estagnada em R$ 32 mil ao ano. O valor está 9% abaixo do pico, que, no passado recente, foi alcançado no primeiro trimestre de 2014. Na prática, isso significa que, há 19 trimestres, a renda média é menor.

Glaucia, da Ufrgs: o momento requer a interferência de um agente econômico não interessado no lucro imediato

Foto: Igor Sperotto

Glaucia, da Ufrgs: o momento requer a interferência de um agente econômico não interessado no lucro imediato

Foto: Igor Sperotto

“Essa ideia de que um governo, para ser sério, precisa fazer superávit fiscal, conter, conter e conter, pela primeira vez está sendo questionada no Brasil até pelos economistas ortodoxos. Fora do país, não é assim que funciona. Em época de crise, só tem uma coisa que puxa o gasto privado: o gasto público. Em momentos como o que vivemos, é necessária a presença de um agente econômico não interessado no lucro imediato”, aponta a professora da Faculdade de Ciências Econômicas da Ufrgs Glaucia Campregher.

A professora se refere à conhecida hipótese de ‘austeridade expansionista’, segundo a qual o corte no gasto público restaura a confiança empresarial. Nessa concepção, movidos pela confiança em uma trajetória ou expectativa de trajetória descendente na dívida pública, os empresários retomariam seus investimentos, apesar dos prejuízos que a contração na demanda pública gera sobre as vendas das empresas. E, além disso, também como forma de compensar os mesmos. Apelidada de ‘fada da confiança’ pelos economistas Joseph Stiglitz e Paul Krugman, a ‘austeridade expansionista’ foi adotada na Europa e nos Estados Unidos em 2010, mas não surtiu os efeitos esperados. Em sua versão tupiniquim, ressurgiu duas vezes sob o comando da ex-presidente Dilma Rousseff (PT), também com consequências conhecidas.

Nos meios acadêmicos, a discussão ganhou fôlego a partir de artigos escritos pelo economista e banqueiro André Lara Resende para o jornal Valor Econômico. Um dos idealizadores do Plano Real, Lara Resende questiona nos textos o papel da dívida pública e aborda a possibilidade da emissão de moeda como forma de solução para o financiamento dos gastos públicos em determinadas situações, pontos da chamada Moderna Teoria Monetária (MMT), de Randall Wray.

“O mais preocupante é que o governo não deve alterar a linha que adotou. Eu diria que não há plano para a economia e que as revisões das agências e bancos para os indicadores cada vez mais se aproximarão da realidade, na qual o que predomina é um discurso ‘esdrúxulo’”, considera Glaucia.

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