EDUCAÇÃO

Como a pesquisa acadêmica ajuda o movimento dos entregadores de aplicativos

Por César Fraga / Publicado em 18 de agosto de 2020
pesquisador Rafael Grohmann tem subsidiado movimentos de entregadores que visam formar cooperativas de trabalho em plataformas digitais. Entregadores Antifascistas já realizaram duas greves nacionais

Fotos: (à esq.) Iris Borges/ Divulgação | (à dir.) Roberto Parizotti /Fotos Públicas

O pesquisador Rafael Grohmann tem subsidiado movimentos de entregadores que visam formar cooperativas
de trabalho em plataformas digitais. Entregadores Antifascistas já realizaram duas greves nacionais

Fotos: (à esq.) Iris Borges/ Divulgação | (à dir.) Roberto Parizotti /Fotos Públicas

Em meio à pandemia e às rotinas impostas pelas medidas de afastamento social, os serviços de entrega se tornaram gênero de primeira necessidade. Não tardou para que movimentos reivindicatórios dos trabalhadores desse setor pipocassem pelas grandes capitais brasileiras e resultassem nas primeiras greves e tentativas de organização. Trata-se do movimento dos Entregadores Antifascistas, que têm buscado a formação de cooperativas de entrega com plataformas próprias para reduzir a precarização a que estão expostos.

E é aí que que entra o conhecimento acumulado em pesquisas do jovem professor paulista e pesquisador do CNPQ recentemente radicado no Rio Grande do Sul, Rafael Grohmann, de 32 anos. Para além da sua atuação nas salas de aula do curso de graduação em Comunicação da Unisinos e nos Programas de Pós-Graduação (PPG) de mestrado, doutorado e pesquisa da Universidade, ele também se tornou uma espécie de consultor informal de grupos de entregadores que pretendem formar cooperativas para concorrer com aplicativos que detêm o monopólio no setor, como Ifood, Uber Eats, Gloovo, entre outros.

Grohmann é, antes de mais nada, um entusiasta da organização dos trabalhadores em sistemas de plataformas digitais que venham a proporcionar melhores condições de trabalho e remuneração e vê, no formato de cooperativa e nas organizações por associações e sindicatos, maneiras de atenuar a precarização causada pela economia 4.0, vulgarmente chamada no Brasil de “uberização”, termo que ele prefere não utilizar. “Uso o termo plataformização do trabalho, que considero mais adequado”, justifica.

PESQUISA – “Venho pesquisando cooperativismo e cooperativismo de plataforma. Este tema a gente tem levado também para a sala de aula, pois faz parte na disciplina Sociedade em Rede. Também envolve o debate sobre colonialismo de dados e outros temas contemporâneos da cultura digital”, relata.

DIGILABOUR – “Eu mantenho uma newsletter semanal que já tem cerca de 2 mil assinantes, que trata de trabalho digital. Ela faz parte de um site chamado Digilabour (digilabour.com.br), que integra o PPG em Comunicação. Temos feito lives para debater o assunto, com participação de pesquisadores, organizações de trabalhadores e cooperativas de entregadores de outros países, como da Espanha. As atividades são uma intersecção do ensino, pesquisa e extensão”, sintetiza.

ATUAÇÃO – Grohmann é doutor em Comunicação pela USP, com estágio pós-doutoral na UFRJ. Atua com os seguintes temas: comunicação e trabalho; trabalho digital; cooperativas de comunicadores e cooperativismo de plataforma; trabalho dos jornalistas; teorias da comunicação e circulação de sentidos.

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Leia entrevista que o professor Rafael Grohmann concedeu sobre  plataformização do trabalho e economia 4.0 ao Extra Classe.

Extra Classe – Como tem sido a interação da pesquisa acadêmica com a sociedade?
Rafael Grohmann – Tem sido movimento natural. Tenho dado muitas entrevistas, participado de lives. Acaba sendo uma consequência esperada, de que os envolvidos em algumas iniciativas afins, nos chamem para fazer essa ponte do saber universitário e acadêmico com a realidade. Como também sou professor da cadeira de Comunicação das Ciências,  preciso saber como me comunicar em diferentes plataformas. Da mesma forma acho natural que cooperativas emergentes queiram saber o que há de pesquisas acadêmicas sobre o tema. Quais podem planejar os próximos passos e o que dizem as pesquisas sobre experiências já existentes. Tanto em relação a potencialidades como em relação a limites. Tenho algumas pesquisas e entrevistas realizadas com pessoal de cooperativas de plataformas de vários setores da economia e isso tem ajudado aos emergentes, como é o caso dos entregadores, como subsídio. Tenho ajudado nessa ponte de como o conhecimento acadêmico subsidiar acoes concretas no âmbito dessas cooperativas.

EC – Com quais cooperativas o senhor está mantendo interlocuções no momento?
Grohmann – Atualmente estou auxiliando em duas. Uma é dos Entregadores Antifascistas, chamada Despatronados, no Rio de Janeiro. A outra é a Señoritas Courier, que é um coletivo de mulheres entregadoras LGBT, de São Paulo. Ambas pretendem ter plataformas próprias. Então, quando falo de transformação digital dentro da universidade, também falo dessa transformação neste cenário de plataformização do trabalho associado à noção de trabalho decente.

EC – Como é a sua interlocução com sindicatos?
Grohmann – Também fui convidado recentemente a participar da interlocução com um sindicato dos Estados Unidos que quer estimular a criação de um sindicato de trabalhadores em plataformas no Brasil na área de tecnologia. Como já tenho uma certa interlocução nesse sentido com a Federação Nacional dos Jornalistas e sindicatos de jornalistas, me chamaram. Existe uma nova onda de sindicalização deste setor da economia 4.0.

EC – Acabou a ilusão de que as empresas de tecnologia são boazinhas para os trabalhadores?
Grohmann – Nos últimos quatro ou cinco anos, trabalhadores do setor de tecnologia, inclusive do Vale do Silício, abandonaram essa bobageira de que eles são empreendedores e trabalham no que gostam. E os próprios trabalhadores do Google estão se sindicalizando.

EC – Tem uma pesquisa de Oxford que o senhor coordena no Brasil. O que é?
Grohmann – Eu faço a coordenação da parte brasileira dessa pesquisa que ocorre em dez países. A partir de um acordo que a Unisinos assinou com a Universidade de Oxford, na Inglaterra, visando melhoria das condições de trabalho nas plataformas a partir do conceito de trabalho decente da OIT. Essa pesquisa envolve necessariamente pesquisa e extensão. Então, desde o desenho dos instrumentos de pesquisa tem de ser feito em co-criação com Ministério Público do Trabalho, com sindicatos e associações de trabalhadores de diferentes setores. Temos feito esse diálogo desde o início do ano. E essa pesquisa já tem alcançado efeitos práticos em outros lugares do mundo, onde está mais avançada, como África do Sul e Índia. Esse projeto tem resultado também em diálogos com a sociedade civil e pactos sociais, de internacionalização do debate e publicação de artigos em periódicos, além da troca de experiências. Junta tudo o que considero o coração de uma universidade.

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