Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
12/03/2019
MOISÉS MENDES
COLUNISTA

Imagem: Reprodução/ Arte Fabio Alves (Bold)

Imagem: Reprodução/ Arte Fabio Alves (Bold)

O fascismo brasileiro assumiu suas feições verde-amarelas. É um fascismo de costumes, que se dissemina do poder institucional para o cotidiano. Ser fascista no Brasil é corresponder aos estímulos de quem exerce função política e odeia mulheres.

O fascista escolheu seu alvo. Não é mais apenas o político inimigo, o ambientalista, o sindicalista, o índio, o gay, o negro. O alvo do fascismo brasileiro é preferencialmente a mulher.

Quando o assassinato de Marielle Franco completa um ano (dia 14) e finalmente chegam aos seus assassinos, a filósofa e escritora Márcia Tiburi anuncia que vai deixar o Brasil. Concorreu ao governo do Rio de Marielle, subiu morros, desafiou a ira das milícias e passou a ser perseguida pela extrema direita. Vai morar nos Estados Unidos.
Não é dos traficantes que o Rio tem medo. O Rio teme as milícias, e as milícias são amigas dos Bolsonaros. O ex-sargento e agora miliciano apontado como o matador de Marielle é vizinho do presidente no mesmo condomínio na Barra da Tijuca.

O fascista brasileiro, que convive com todos nós, inspira-se na família do pai poderoso e dos três filhos que tudo fazem para se aproximar das expressões do machismo e depreciar as mulheres.

Bolsonaro enfrenta dois processos no Supremo (agora suspensos, porque está na presidência) por incentivo ao estupro e por injúria contra a deputada Maria do Rosário. Bolsonaro atacou Rosário por temer todas as mulheres destemidas.

Poucos se lembram, mas em 2015 ele e o deputado Pastor Feliciano atacaram uma prova do Enem porque a frase-tema da redação daquele ano era da feminista francesa Simone de Beauvoir: “Ninguém nasce mulher”.

A frase atormentou os dois, porque nenhum deles conseguia decifrá-la. Foi ali que se explicitou a linha de conduta ‘moralista’ do bolsonarismo, muito antes da ambição do tenente de chegar à presidência.

Bolsonaro não perde a oportunidade de se dirigir de forma ofensiva às mulheres. Agora mesmo, para atacar a imprensa, acusada por ele de perseguição, difundiu nas redes sociais uma notícia falsa em que acusa a jornalista Constança Rezende, do Estadão, de participar de um conluio para derrubá-lo.

A informação é falsa, foi divulgada em um site francês que já desmentiu seu conteúdo. Mas Bolsonaro, acossado por Globo, Folha e Estadão, precisava atacar seus inimigos da imprensa. Poderia escolher um homem. Atacou uma mulher.

Eduardo Bolsonaro, o filho deputado, é investigado pelo Supremo por ter ameaçado de morte uma jornalista e ex-namorada. Damares Alves, a ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, refere-se quase sempre à mulher de forma depreciativa.

No dia 8, Dia Internacional de Mulher, Damares afirmou, com ar de sabedoria, que as mulheres não podem tentar se igualar aos homens. Porque isso daria a entender que, “já que a menina é igual, aguenta apanhar”. Uma mulher bolsonarista ajuda a levar a reflexão sobre a condição feminina para a reafirmação da violência machista.

O feminicídio cresce em quase todas as regiões do país. Agridem, mutilam, estupram e matam mulheres. Uma mulher é assassinada a cada duas horas no Brasil. Os machos agressores têm mais chances do que um homicida comum de ficar impune.
A cultura do fascismo machista se alastra porque, como diz Márcia Tiburi, o fascista passou, a partir do final do século 20, a temer as mulheres. É a mulher quem mais desafia suas inseguranças.

Os assassinos de Marielle Franco poderiam ter matado qualquer um dos tantos homens que consideram uma ameaça às milícias e aos políticos da extrema direita. Mas preferiram acabar com a vereadora.

As mulheres também são as grandes vítimas do desmonte da Previdência. São perdedoras na reforma proposta pelo governo as trabalhadoras rurais, as professoras e as viúvas.
Por isso a conversa de Damares Alves, de que os homens serão mais gentis se oferecem rosas às mulheres, é a crueldade da poesia ruim.

O bolsonarismo parte para a revanche contra as mulheres, que foram, em alguns momentos antes da eleição, o contingente que mais o rejeitava ao lado de jovens e negros.
Além dos ataques à Maria do Rosário, Bolsonaro já dirigiu ofensas à Dilma Rousseff, à deputada Benedita da Silva, à cantora Preta Gil e à ex-ministra Eleonora Menicucci. Não há ataques de Bolsonaro, no mesmo nível, a nenhum homem. Nenhum.

O bolsonarismo fragiliza as mulheres porque sabe que elas podem ameaçá-lo como poder político mais do que os homens e os estudantes. Bolsonaro gostaria de viver num mundo só de machos e de mulheres submissas.

Não terá essa chance. As investigações que esclarecem a morte de Marielle são conduzidas por mulheres do Ministério Público e da Polícia. O bolsonarismo terá de enfrentar mais e mais Marielles.

* Moisés Mendes é jornalista, escreve quinzenalmente para o jornal Extra Classe

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