JUSTIÇA

Moro convenceu Dallagnol a não apreender celular de Cunha

Ao ser preso em 2018, ex-presidente da Câmara guardava diálogos com detentores de foro privilegiado, o que poderia levar o processo para o STF
Por Gilson Camargo* / Publicado em 13 de agosto de 2019
O ex-presidente da Câmara, Eduardo Cunha, embarcou para Curitiba após ser preso pela Polícia Federal e não precisou entregar o celular à Lava Jato. Já os netos de Lula...

Foto: Wilson Dias/Agência Brasil

O ex-presidente da Câmara, Eduardo Cunha, embarcou para Curitiba após ser preso pela Polícia Federal e não precisou entregar o celular à Lava Jato. Já os tablets dos netos de Lula…

Foto: Wilson Dias/Agência Brasil

Mensagens do Telegram trocadas entre o procurador federal Deltan Dallagnol, coordenador da Lava Jato, e o então juiz da operação, Sergio Moro, obtidas pelo site The Intercept Brasil e analisadas e publicadas pelo BuzzFeed News, revelam que os procuradores foram convencidos pelo então juiz a não apreender celulares do ex-presidente da Câmara, Eduardo Cunha para evitar que o caso fosse deslocado da alçada de Moro na Justiça Federal de Curitiba para o Supremo Tribunal Federal (STF) em Brasília. “A decisão de não apreender os celulares de Cunha, que já não tinha mais foro privilegiado desde setembro de 2016, destoa do padrão da Lava Jato. Saíram dos celulares de executivos de empreiteiras, por exemplo, muitas anotações e mensagens que embasaram investigações”, aponta o texto do BuzzFeed, que passou a publicar o conteúdo da série #VazaJato. Estranha que a força-tarefa da Lava Jato, que agiu com tanto rigor ao apreender telefones e outros equipamentos de outros investigados – o exemplo mais escandaloso são a busca e apreensão dos tablets dos netos do ex-presidente Lula – tenha aliviado Cunha na hora da prisão.

Os diálogos entre Moro e o chefe dos investigadores ocorreram no dia 18 de outubro de 2016, véspera da prisão do peemedebista:

11:45:25 Deltan: Um assunto mais urgente é sobre a prisão

11:45:45 Deltan: Falaremos disso amanhã tarde

11:46:44 Deltan: Mas amanhã não é a prisão?

11:46:51 Deltan: Creio que PF está programando

11:46:59 Deltan: Queríamos falar sobre apreensão dos celulares

11:47:03 [Moro]: Parece que sim.

11:47:07 Deltan: Consideramos importante

11:47:13 Deltan: Teríamos que pedir hoje

Após ouvir as ponderações do procurador, Moro responde o seguinte:

11:47:15 [Moro:] Acho que não é uma boa

Apesar da resposta, Deltan insiste e tenta agendar uma reunião com Moro para tratar do assunto:

11:47:27 Deltan: Mas gostaríamos de explicar razões

11:47:56 Deltan: Há alguns outros assuntos, mas este é o mais urgente

11:48:02 [Moro]: bem eu fico aqui até 1230, depois volto às 1400.

11:48:49 Deltan: Ok. Tentarei ir antes de 12.30, mas confirmo em seguida de consigo sair até 12h para chegar até 12.15

12:05:02 Deltan: Indo

Não houve registro da reunião presencial dos dois. Às 14h16, Deltan envia nova mensagem a Moro, dizendo que, após conversar com procuradores e ao levar em consideração o que foi dito pelo então juiz, a força-tarefa desistiu de pedir a apreensão dos celulares.

14:16:39 Deltan: Cnversamos [Conversamos] aqui e entendemos que não é caso de pedir os celulares, pelos riscos, com base em suas ponderações

E Moro respondeu:

14:21:29 [Moro]: Ok tb

No dia seguinte Eduardo Cunha era preso em Brasília. Teve tempo de fazer diversos telefonemas para parlamentares ligados ao então ministro Moreira Franco e ao então presidente Michel Temer para articular uma eventual revogação da prisão. Ao ser informado que seria encaminhado para Curitiba, Cunha questionou os agentes da PF se devia entregar o celular. A resposta foi negativa, segundo seus advogados. Cunha foi condenado por Moro a 15 anos e quatro meses de prisão por corrupção passiva, lavagem de dinheiro e evasão de divisas, sentença foi confirmada pelo STF em abril.

 

“Fingi que não sabia”, diz Dallagnol sobre Caixa 2 de Onyx

Onyx Lorenzoni foi relator pró-forma das 10 medidas contra a corrupção escrito por Dallagnol

Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

Onyx Lorenzoni foi relator pró-forma das 10 medidas contra a corrupção escrito por Dallagnol

Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

No Twitter, o Intercept publicou uma troca de mensagens de 2017 entre Fábio Oliveira, líder do movimento de extrema-direita cooptado pela Lava Jato, o Mude – Chega de Corrupção e Dallagnol, na qual o procurador-chefe da operação revela que sabia do envolvimento do então deputado federal Onyx Lorenzoni (DEM-RS), atual ministro da Casa Civil, com crimes de Caixa 2, mas nada fez.

As evidências apareceram na “Lista de Fachin”. Em abril de 2017, o relator do petrolão no STF, ministro Edson Fachin, autorizou a abertura de inquéritos de um grupo de políticos com direito a foro especial, entre os quais Lorenzoni.

O parlamentar gaúcho que virou porta-voz do governo Bolsonaro em diversos assuntos, inclusive quando se trata de economia, foi citado por um delator da Odebrecht pelo suposto recebimento, em 2006, de R$ 175 mil pelo Caixa 2. O texto do projeto de lei de iniciativa popular das Dez 

Imagem: Reprodução

Imagem: Reprodução

Medidas Contra a Corrupção foi escrito por Dallagnol. Onyx foi o relator do projeto na Câmara e deixou passar as aberrações concebidas pelo procurador, como o fim do habeas corpus, teste de honestidade, admissão de provas ilegais em juízo e discricionariedade para prisões preventivas. Como estavam trabalhando juntos para tentar aprovar o projeto, o procurador fez vistas grossas ao envolvimento de Onyx com corrupção.

Depois disso, em uma sequência de declarações repletas de cinismo e ironias, Onyx admite publicamente ter recebido dinheiro de caixa 2 da JBS e seria defendido pelo futuro ministro da Justiça. O projeto não foi aprovado e o inquérito contra Onyx foi arquivado em junho de 2018. “Ele já admitiu e pediu desculpas”, declarou Moro em uma coletiva em Curitiba.

Na troca de mensagens com o líder do Mude, Dallagnol revela: “tive que fingir que não sabia”.

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*Com informações do Intercept e BuzzFeed News.

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