JUSTIÇA

MP denuncia assassino de adolescente Kaingang em Redentora

Jovem foi aliciada por homem de 33 anos em uma festa de rua nas proximidades da maior reserva indígena do Rio Grande do Sul, no início de agosto
Da Redação / Publicado em 6 de outubro de 2021

Foto: Observador Regional/Reprodução

Julia Sales e o advogado contratado pela família para acompanhar o processo (C) e o cacique Carlinhos Alfaiate

Foto: Observador Regional/Reprodução

O Ministério Público formalizou ao judiciário a denúncia contra o acusado pelo homicídio qualificado da adolescente Kaingang Daiane Griá Sales, 14 anos. Morador de Redentora, o acusado, de 33 anos, está no Presídio Estadual de Três Passos. Indiciado pela polícia civil no dia 16 de setembro, ele foi acusado dos crimes de estupro de vulnerável e homicídio com seis qualificadoras (meio cruel, motivo torpe, dissimulação, recurso que dificultou a defesa da vítima, para assegurar a ocultação de outro crime e feminicídio).

O crime – que teve repercussão mundial – ocorreu na madrugada de 1º de agosto, na Terra Indígena da Guarita, município de Redentora, a 425 quilômetros de Porto Alegre. Maior reserva do estado, com 24 mil hectares, a Guarita ocupa parte dos territórios de Redentora, Tenente Portela, Erval Seco e Miraguaí e abriga mais de 9 mil indígenas em 16 setores Kaingang e dois da etnia Guarani. Moradora no Setor de Bananeiras, a vítima foi aliciada em uma festa de rua antes de ser violentada e morta por estrangulamento próximo de uma lavoura da reserva.

Segundo o promotor de Justiça Miguel Germano Podanosche, o denunciado conduziu seu carro por uma localidade no interior de Redentora, “ciente de que ali aconteciam alguns bailes naquela noite”, e passou a oferecer carona a jovens indígenas que se movimentavam a pé pelas imediações. “A vítima aceitou a carona e foi conduzida até o local do crime, especialmente selecionado em razão de ele o conhecer muito bem, dado que sua família havia possuído, em outros tempos, uma propriedade lindeira por ele frequentada. Lá, a ofendida, embriagada excessivamente, sem poder resistir, foi estuprada, estrangulada e morta”, explica.

“Desprezo pela condição indígena”

A prática, conforme a denúncia, decorreu de motivo torpe, correspondente ao desprezo do denunciado para com a população originária Kaingang e seus integrantes (etnofobia), nutrido pela falsa ideia de que tal comunidade e as autoridades constituídas reagiriam com passividade ao estupro em razão de sua condição de indígena, anotou o promotor.

“Convém esclarecer que o denunciado estava procurando sua vítima em eventos sabidamente frequentados por jovens indígenas, havendo, inclusive, oferecido carona a outras garotas da mesma etnia, de modo que se pode afirmar que o fato de a ofendida integrar tal etnia foi fator determinante para que ela fosse objeto preferencial da escolha do denunciado”.

De acordo com Podanosche, a “infração penal foi perpetrada mediante dissimulação, dado que a vítima fora atraída para o cenário dos eventos criminosos aceitando uma proposta de carona oferecida pelo denunciado, sem sequer imaginar o que lhe poderia acontecer em seguida”.

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