OPINIÃO

A educação na caverna

Por Gabriel Grabowski / Publicado em 8 de dezembro de 2020

Foto: Reprodução/Web

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Assumir a ilusão como realidade e ficar na caverna é mais fácil. A sombra é agradável. A luz e o conhecimento incomodam. José Saramago diz que “Nós nunca vivemos tanto na caverna de Platão como hoje. Hoje é que estamos de fato a viver na caverna de Platão. Porque as próprias imagens que nos mostram da realidade, de tal maneira substituem a realidade. Estamos no mundo audiovisual e estamos a repetir a caverna de Platão, passamos aprisionados olhando a frente, vendo sombras e acreditando nelas”.

E vai ser cada vez mais, pois vivemos num mundo audiovisual, digital, de redes socais, sem saber o que temos, o que somos, o que queremos com nossa vida.

A caverna, diz Platão, é o mundo sensível onde vivemos. A réstia de luz que projeta as sombras na parede é um reflexo da luz verdadeira – as ideias, o conhecimento) sobre o mundo real. Somos os prisioneiros. As sombras são as coisas aparentes que tomamos pelas verdadeiras.

Dialética

Os grilhões são nossos preconceitos, nossa confiança em nossos sentidos e opiniões. O instrumento que quebra os grilhões e faz a escalada do muro é a dialética. O prisioneiro curioso que escapa é o filósofo (Ser que pensa). A luz que ele vê é a luz plena do Ser, isto é, o Bem, que ilumina o mundo inteligível como o Sol ilumina o mundo sensível.

O retorno à caverna é o diálogo filosófico. Os anos despendidos na criação do instrumento para sair da caverna são o esforço da alma para produzir a “faísca” do conhecimento verdadeiro pela “fricção” dos modos de conhecimento. Conhecer é um ato de libertação e de emancipação.

Para Martin Heidegger, pensador alemão, o mito, enquanto teoria de conhecimento, nos ensina muito mais. Estabelece uma relação interna ou intrínseca entre a paideia e a alétheia: a filosofia é educação ou pedagogia para a verdade, recuperando o sentido da alétheia como não esquecimento e não ocultamento da realidade.

A verdade é concebida enquanto visão plena da inteligência e das evidencias e, a filosofia, conhecimento da verdade, é conhecimento da ideia do Bem, princípio incondicionado de todas as essências. E, em lugar de dizermos que o verdadeiro é o não escondido, Platão nos leva a dizer que a verdade é o plenamente visível para o espírito.

Falsas noções

Nesta luta do conhecimento contra a ignorância, Francis Bacon (1561-1621) formulou a Teoria dos Ídolos para deixar o homem consciente das falsas noções que congestionam sua mente:

a) “Os ídolos da tribo estão fundados na própria natureza humana, na própria tribo ou espécie humana. (…) O intelecto humano é semelhante a um espelho que reflete desigualmente os raios das coisas e, dessa forma, as distorce e corrompe”;
b) “Os ídolos da caverna são os dos homens enquanto indivíduos tem uma caverna ou uma cova que intercepta e corrompe a luz da natureza: seja devido à educação ou conversação com os outros; seja pela leitura dos livros ou pela autoridade daqueles que se respeitam e admiram”;
c) “Há também os ídolos do foro provenientes, de certa forma, do intercurso e da associação recíproca dos indivíduos do gênero humano entre si, cujas palavras, impostas de maneira imprópria e inepta, bloqueiam espantosamente o intelecto” e,
d) “Há, por fim, ídolos que migram para o espírito dos homens por meio das diversas doutrinas filosóficas e, também, pelas regras viciosas da demonstração. São os ídolos do teatro: por parecer que as filosofias adotadas ou inventadas são outras tantas fábulas, produzidas e representadas, que figuram mundos fictícios e teatrais”.

Preconceitos

À porta da modernidade, Mia Couto, escritor moçambicano, diz existir Os sete sapatos sujos que precisamos descalçar para romper nosso fardo de preconceitos e entrarmos na modernidade.

Os sapatos sujos mentais que precisamos descalçar são:
1º) a ideia que os culpados são sempre os outros e nós somos sempre vítimas;
2º) a ideia de que o sucesso não nasce do trabalho;
3º) o preconceito de que quem critica é um inimigo;
4º) a ideia de que mudar as palavras muda a realidade;
5º) a vergonha de ser pobre e o culto às aparências;
6º) a passividade perante a injustiça e,
7º) a ideia de que para sermos modernos temos que imitar os outros.

Transpondo para o caso brasileiro, Márcia Tiburi e Rubens Casara, em Ódio à inteligência: sobre o anti-intelectualismo, apontam, que nesses tempos, a oferta de preconceitos se torna imensa. No sistema de preconceitos, o objeto do preconceito varia, conforme uma estranha oferta: se há muitos judeus, pode-se dirigir o ódio, que é o afeto básico do preconceito, contra eles. Se há mulheres, homossexuais, negros, indígenas, lésbicas ou travestis, o ódio será lançado sobre eles, conforme haja oportunidade.

Verdade que o ódio é sempre dirigido àquele que ameaça, ou seja, no fundo do ódio há muito medo. O preconceituoso é, na verdade, em um sentido um pouco mais profundo, alguém que tem muito medo, mas em vez de enfrentar seu medo com coragem, ele usa a covardia, justamente porque é impotente para enfrentar seu próprio medo. O preconceituoso é, basicamente, um covarde.

Conhecimento

Da Filosofia à educação, da Cultura à Ciência, não pode persistir o preconceito e o medo. A ephisteme (conhecimento) rompe com a dóxa (mera opinião) e o senso comum. É pela educação e pelo conhecimento que nos libertaremos das cavernas, dos falsos ídolos, dos preconceitos, dos negacionismos vigentes e dos muros que erguemos hoje e sempre.

Atacar universidades, intervir nas escolas, ignorar a ciência e os cientistas, blasfemar contra professores e artistas, é uma estratégia de nos aprisionar nas cavernas das redes sociais, dos meios de informação e comunicação, das plataformas digitais programadas e, inclusive, da inteligência artificial alimentada pela captura de dados pessoais.

Primeiro se desconstitui as instituições educacionais enquanto espaços formativos e de livre pensar, para, depois, propor plataformas digitais programadas para controlar. Todas essas ferramentas tecnológicas são necessárias e irreversíveis, porém, se mal utilizadas pelos homens e pelos sistemas políticos – a serviço de interesses econômicos –, nos transformam em meros objetos manipulados. E, uma vez manipulados, somos os atuais prisioneiros das cavernas e das telas digitais.

Negacionismo

A caverna bolsonarista brasileira é o negacionismo científico, cultural, educacional e ambiental. Mentiras e distorções sistemáticas são assistidas e aplaudidas pelos cúmplices. É a aposta na ignorância mediante a negação do livre exercício de cátedra, da autonomia intelectual e política dos docentes e estudantes.

É, também, o ensino religioso nas escolas públicas, o combate à “ideologia de gênero”, o programa “escola sem partido”, a educação domiciliar, as escolas cívico-militares e a intervenção na autonomia das universidades. A nomeação de reitores sem representatividade e legitimidade da comunidade acadêmica é a evidência maior.

Já a caverna dos reformadores educacionais (neo)liberais é vincular, cada vez mais, a educação aos interesses do mercado, das parceria público-privada (especialmente aos fundos educacionais) e a lógica meritocrática. Para tanto, ampliam a Educação a Distância (EAD) – historicamente de péssima qualidade no Brasil –, em todos os níveis e modalidades da educação básica, massificando e customizando sua oferta.

A BNCC aprovada e o “novo” ensino médio, promovem a profissionalização desde a educação básica, reduzem dos componentes curriculares formativos imprescindíveis, diminuem a carga horária da formação geral, reintroduzem a pedagógica das competências e habilidades e promovem o empreendorismo de carreira profissional individual. Caverna do mercado e do desemprego formal.

Que o ano letivo de 2020, com as adaptações virtuais e de ensino remoto, decorrentes da experiência pandêmica do covid-19, seja uma experiência suficientemente forte para demonstrar a necessidade do justo equilíbrio entre presencialidade e tecnologias educacionais.

Humanização

Não precisamos ficar aprisionados nem a sala de aula e o power point, mas, da mesma forma, a caverna das telas desligadas e mudas demonstram não ser a alternativa adequada. As escolas e universidades continuarão sendo, por excelência, o espaço de humanização, onde se aprender a escutar, a pertencer a uma coletividade diferente do núcleo familiar e social, a conhecer e respeitar o Outro como ele é, desenvolvendo novos conhecimentos e ampliando horizontes para além do umbigo particular.

Uma educação de sujeitos livres, criativos, protagonistas, sujeitos de suas histórias e vida, com senso e responsabilidade social e coletiva, implica romper com todas as cavernas de hoje, descalçar nossos sapatos sujos de velhas ideias e romper com falsos ídolos e preconceitos. Raul Seixas nos legou que “nada é eterno, mas algumas coisas permanecem e a desobediência é uma virtude necessária à criatividade”.

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