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Ilustração: Dieferson Trindade
Quando pus as malas no chão da vida de Dalva, Fridinha já estava lá, e boa parte do que sei a respeito das suas primeiras aventuras nesse terreno é só de ouvir falar. Antes, vivia nas ruas de Baldim, onde alimentava-se de fraldas sujas; a condição de adotada veio só depois de muita chantagem emocional. Dalva, que até então desconhecia o afeto dos cães, saía para caminhar, e lá ia Fridinha atrás, com a sua eterna cara de coitada. Não demorou muito para que o coração da antropóloga recém-chegada de Lisboa amolecesse de vez, e a partir daí o “tec-tec-tec-tec” das quatro patinhas passou a fazer parte da casa para sempre. Aliás, das casas, porque Dalva, que àquela altura da vida já havia residido aqui, ali e acolá, parece fadada às mudanças, e Baldim não foi a última parada no seu tour vida afora.
A morada seguinte ficava em Belo Horizonte. Casa de fundos, pátio grande, muito céu, até goiabeira e ora-pro-nóbis. Fridinha adorava. Não dava para medir a alegria com que cagava perto do portão e saía correndo, tentando evitar o flagrante. Mas também foi nesse novo lar que conheceu o maior de todos os seus desafetos. Porque, não, o maior de todos os seus desafetos não chegou a ser Zezé, o irmão de Dalva, que, nos tempos de Baldim, reclamava do seu fedor e conspirava contra a sua adoção; também não chegou a ser o Scooby, primeiro animal de estimação da família, duas vezes maior e três vezes mais pesado do que Fridinha, com quem ela precisava disputar a ração depois de por fim adotada. Não, nada disso. O maior de todos os seus desafetos foi o ladrão dos seus sonhos vespertinos, digamos assim. Dada a longas sonecas após o almoço, nesse novo lar Fridinha viu tal prazer impossibilitado pelo cachorro do vizinho, que preferia aproveitar as tardes latindo como se não houvesse amanhã para qualquer borboleta que passasse.
No auge da pandemia, viajei a Belo Horizonte para passar uns tempos com Dalva nessa casa, e foi assim que Fridinha e eu nos conhecemos. Amor à primeira cheirada. E digo isso porque não é só ela que me cheira: desde aqueles tempos até hoje tenho o hábito de pegá-la no colo, enfiar o nariz no seu pescoço e cafungar, dizendo “ô, meu bebeinho!” com a voz mais ridícula que me é possível. Dalva mostrou-se incomodada desde o princípio.
– “Bebeinho”? Pelo amor de Deus, Preto! A cadela até cria já deu! É adulta, tem agência!
Vendo, porém, que a cada dia que passava Fridinha gostava mais de mim, decidiu mudar de estratégia:
– Isso que ocê faz tem nome: é alienação parental.
Nunca discordei; mas, em minha defesa, eu acrescentaria que trata-se de uma alienação parental culposa, quando não há a intenção de alienar. A minha intenção, no fim das contas, era a mesma intenção de Dalva: proporcionar bem-estar ao nosso bebeinho.
Agora a situação se inverteu: Dalva e Fridinha vieram morar comigo, em Porto Alegre. O bebeinho já não tem a mesma energia de antes; envelheceu, passou por cirurgias, enfrentou doenças difíceis. Tornou-se, basicamente, uma espécie de sommelier de caminhas: temos várias espalhadas pelo apartamento, e Fridinha passa o dia dormindo um pouco numa, outro pouco noutra, aparentemente tentando comparar as maciezas. De vez em quando fica olhando para longe, absorta, decerto se perguntando se dá tempo de mais um cochilinho antes do próximo cochilinho. Tadinha. Deve estar tentando tirar o atraso dos tempos em que o cachorro do vizinho, lá em Belo Horizonte, a impedia de dormir à tarde.
Sou escritor; talvez por isso goste tanto de colocar as coisas em termos de linguagem. Quaisquer coisas. Já pararam para pensar nisso? Dá para dizer “tchau” agitando a mão no ar, por exemplo. Mesmo manter-se em silêncio costuma carregar uma porção de significados. Na verdade, qualquer ato pode ser descrito como um componente linguístico. Não era senão uma frase completa quando o bebeinho se sentava ao meu lado, lá em Belo Horizonte, à hora do café, para ficar me encarando com a sua eterna cara de coitada, enquanto eu comia os pasteizinhos comprados na padaria Pádua.
A cada dia que passa, porém, a comunicação com Fridinha se torna mais precária. Já não é possível chamá-la por meio da voz, porque ela não escuta; já não é possível avisar-lhe que a ração está servida mostrando a vasilha, porque ela não enxerga. Mas quando ela acorda assustada tarde da noite, paro tudo o que estou fazendo, a pego no colo, enfio no nariz no seu pescoço e cafungo. Tenho certeza de que ela compreende muito bem o que estou querendo dizer com isso, assim como eu também compreendo muito bem a resposta que ela sempre dá a essa gesto: coloca um palmo de língua para fora, fecha os olhinhos, volta a dormir.
José Falero é escritor e roteirista, autor dos livros Vila Sapo, Os Supridores, Vera e Mas em que mundo tu vive? e, desde março de 2026, escreve mensalmente para o Extra Classe.