A praga das bets

O Brasil gasta mais em apostas virtuais do que em saúde pública. O gasto com as bets em 2026 já passa de incríveis R$ 30 bilhões mensais, enquanto o orçamento mensal do SUS não chega a R$ 20 bilhões

 

A praga das bets

Arte: Extra Classe/Reprodução

Agora que a Copa do Mundo acabou de maneira constrangedora para os brasileiros, um dos assuntos mais quentes é a discussão sobre a praga das apostas virtuais (as chamadas “bets”) e os danos que elas causam à sociedade. Para quem ainda não sabe, o vício em jogo já é bem estabelecido como uma doença mental (o transtorno do jogo ou ludopatia) e pode causar tantos males à saúde quanto o vício em cigarros, álcool, drogas e outras tantas adições.

Porém, as chamadas bets representam algo muito mais pernicioso para a sociedade, uma vez que a tentação está sempre presente na tela do smartphone ou computador do usuário, o que garante que o vício seja perpetuado por meio de um círculo vicioso alimentado por doses generosas de ganância e dopamina. É basicamente como ter um traficante de drogas dentro de casa e sempre à disposição.

As histórias de pessoas que perdem as economias de uma vida em apostas virtuais ou que cometem suicídio em decorrência disso têm aumentado de maneira assustadora, não deixando dúvida de que o vício em bets representa um problema gigante em termos de saúde pública. Para se ter uma ideia, um levantamento nacional sobre o assunto mostrou que mais de 10 milhões de pessoas apresentam problemas relacionados ao jogo no Brasil, muitas vezes envolvendo as apostas virtuais, o que desencadeia doenças mentais graves e dificuldades financeiras que envolvem não apenas o paciente e a família, mas toda a sociedade.

As pesquisas também mostram que o país gasta mais em apostas virtuais do que em saúde pública. O gasto com as bets em 2026 já passa de incríveis 30 bilhões mensais, enquanto o orçamento mensal do SUS não chega a 20 bilhões. A simples observação desses números deixa claro que vivemos em uma sociedade absurdamente adoecida. Para piorar, gastamos duplamente com as bets: gastamos bilhões ao fazer as apostas e depois gastamos mais um tanto para oferecer atendimento a uma população cada vez mais viciada.

Para quem ainda acredite na lisura dessas apostas virtuais, é interessante observar um estudo de 2023-2024 realizado pelo Itaú após analisar, durante um período de 12 meses, as movimentações financeiras envolvidas na jogatina desvairada: enquanto os brasileiros gastaram nada menos que 68 bilhões em apostas, os prêmios arrecadados pelos poucos felizardos somaram escassos 200 milhões. Ou seja, as casas de apostas embolsaram descaradamente bilhões de reais dos jogadores incautos.

Mas o problema mais grave envolvendo as chamadas bets e a sociedade talvez seja a desfaçatez com que lidamos com o problema. Enquanto os profissionais de saúde lidam diariamente com um número crescente de doenças relacionadas ao vício em jogo, a sociedade segue aplaudindo exatamente aquelas pessoas que só fazem piorar o problema, ou seja, todos aqueles que aceitam dinheiro das empresas de apostas virtuais para fazer propaganda da jogatina e levar as pessoas e a sociedade à bancarrota econômica e moral.

Essas são as chamadas celebridades, aquelas pessoas que, muitas vezes por motivos alheios ao bom senso, a sociedade escolheu para serem celebradas e servirem de modelo à nação. Entre essas celebridades que canhestramente emprestam seu nome e imagem para a exploração das bets estão muitos jogadores de futebol, astros da música popular e apresentadores de programas de TV. O que todos eles têm em comum, além de uma queda por ganhar dinheiro fácil, é o descaso pelas consequências de suas decisões.

A lista de simpatizantes que aceitam ganhar dinheiro para aumentar a jogatina sórdida não se limita a pessoas físicas. As transmissões de jogos da Copa do Mundo foram majoritariamente patrocinadas pelas bets. E o problema não se restringe ao futebol, pois as transmissões dos campeonatos de voleibol e de outros esportes também são patrocinadas pelas bets. Além disso, é grande o número de veículos jornalísticos que são patrocinados pelas bets e, assim, também fomentam essa nova forma de extrativismo digital.

Existirá quem diga, infelizmente não sem alguma razão, que as bets são legalizadas e que, portanto, o problema seria “apenas” moral. Mas uma vez que a decisão sobre a legalidade dessas apostas depende de um colegiado de legisladores que nutre uma chamada “bancada das bets” e cujo líder desfruta de viagens nababescas em companhia de um empresário das bets, fica difícil imaginar que algo será feito sem uma pressão popular forte. Assim, ser legal ou não, nesse caso, passa a ser até mesmo um pouco relativo.

Um bom exercício mental é imaginar o vício em apostas online como um vício análogo ao vício em cigarros e outras drogas. O que pensaríamos se nossas celebridades e meios de comunicação fizessem propaganda escancarada dessas drogas? Ocorre que essa comparação não é assim tão disparatada, pois, como as drogas, as apostas envolvem vício, doença, sofrimento e impotência governamental em graus comparáveis. Se o tamanho do problema das bets ainda é menor que o das drogas, talvez isso seja apenas uma questão de tempo.

No final das contas, todos que aceitam o dinheiro das bets para fazer apologia ao jogo são em alguma medida responsáveis pela tragédia que já se desenrola em frente aos nossos olhos. Não há como qualquer pessoa, empresa ou meio de comunicação alegar atualmente que não sabe que as bets são prejudiciais à sociedade. Alegar isso só poderia ser feito com uma boa dose de desfaçatez ou ignorância. E boba essa gente não é. De um lado há verdadeiras vítimas; de outro, apenas espertalhões enriquecendo com a desgraça alheia.

Somos obrigados a concluir que a praga das bets é causada por nossas más escolhas feitas enquanto sociedade. Ao escolhermos democraticamente ídolos e legisladores que não estão à altura de nossa generosa confiança, o que temos feito é abrir caminho para a praga das bets e outras tantas pestes que assolam o país. Então nosso vício mais grave talvez seja o de insistir nas más escolhas que fazem apenas perpetuar a nossa desgraça.

André Islabão é médico, integrante do movimento Slow Medicine Brasil e autor dos livros Slow Medicine – Sem pressa para cuidar bemO risco de cair é voar e Entre a estatística e a medicina da alma – Ensaios não controlados do Dr. Pirro.

 

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