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Nº 026 | Ano 3 | Out 1998
ENSINO PRIVADO

Sinpro/RS presta tributo à Educação

Da Redação

A noite de 14 de outubro poderá entrar para a história da educação gaúcha. Na véspera do Dia do Professor, o Sinpro/RS avançou em direção ao resgate da auto-estima da categoria e da valorização da Educação. Nesta data foi entregue o Prêmio Educação RS. Mais de 200 convidados compartilharam um momento ímpar. A cerimônia transcorreu no Teatro do Ipe, em Porto Alegre, integrando a programação alusiva aos 60 anos do Sindicato. Os cinco agraciados receberam o troféu Pena Libertária, criado pelo escultor uruguaio, Gustavo Nakle e o certificado do Prêmio Educação RS. O prefeito de Porto Alegre, Raul Pont, professor associado ao Sinpro e durante anos militante da categoria, prestigiou a cerimônia.

Na abertura, um momento de civismo. A flauta de Plauto Cruz e o violão de Mário Barros conduziram os acordes para a execução do Hino Nacional. O coordenador da Secretaria de Educação do Sinpro/RS, professor Celso Floriano Stefanoski se pronunciou em nome da diretoria colegiada da entidade. “O Prêmio Educação/RS chega ao seu ponto culminante. Marca o Dia do Professor e reconhece, publicamente, aqueles que trabalham pela valorização da educação. O Sinpro/RS se destaca como um verdadeiro Sindicato Cidadão, na busca de uma sociedade mais digna, mais humana”.

Atuações anônimas ou restritas a pequenos segmentos, mas essenciais na democratização do acesso à educação e sua qualificação, adquiriram a dimensão pública. A qualidade dos trabalhos concorrentes tornou difícil a escolha, disse Mari Forster, da Comissão Julgadora. Em 1998 os agraciados foram – Edy Vinãs Pereira, por seus 60 anos dedicados ao magistério; Projeto Integrar RS, da Confederação Nacional dos Metalúrgicos da CUT, destinado a desempregados; Movimento de Alfabetização de Porto Alegre (MOVA), pelo desafio de reduzir o índice de analfabetismo; o padre Elli Benincá, de Passo Fundo, estudioso e divulgador do método Paulo Freire, desde os árduos anos de ditadura militar e a Universidade de Santa Cruz do Sul (UNISC), pela gestão democrática e sua política de expansão. A cerimônia foi encerrada com o hino rio-grandense executado pelos músicos Plauto Cruz e Mário Barros que, posteriormente acariciaram os ouvidos do público com uma dezena de melodias, entre elas o Brasileirinho e Tico-tico. Assim transcorreu a entrega da 1ª Edição do Prêmio Educação/RS. No próximo ano, novos projetos e educadores serão destacados e reconhecidos.

Atuação dos agraciados

De seus 79 anos de idade, 60 foram dedicados à educação. A professora Edy Vinãs Pereira sempre adorou uma sala de aula. Neste recinto estudou Pedagogia, Filosofia e Direito e ensinou da pré-escola ao terceiro grau. Começou a lecionar em 1937, numa escola municipal de Bagé, depois ingressou no magistério estadual e é fundadora da Universidade da Campanha (Urcamp). “A Pena libertária coincidiu com os ideais desenvolvidos durante toda a minha vida junto aos meus alunos. A liberdade se estrutura em cima do conhecimento e da cultura. Não há liberdade sem cultura”. Emocionada com a deferência, Edy disse que a caminhada da humanidade é sempre evolutiva. Para ela, as etapas vão se sucedendo com altos e baixos. E o magistério é uma carreira que tem no amor a parte fundamental – amor à criança, ao jovem, à profissão, como um corolário de um ideal, que inspira o professor”.

O prefeito de Porto Alegre, professor Raul Pont, sócio do Sinpro/RS, acha impossível a democracia participativa sem o acesso dos cidadãos ao conhecimento. “O MOVA é um dos projetos que mais nos orgulha. São dezenas de pessoas, centenas de entidades com o propósito de diminuir o analfabetismo”. O Secretário Municipal de Educação de Porto Alegre, José Clóvis Azevedo disse que o projeto atende pessoas privadas do direito elementar da cidadania – o acesso às letras. A meta é reduzir o índice de analfabetismo de 4% para 1%, até o ano 2000, projeta Azevedo. Até agora, 3 mil e 500 pessoas, das mais variadas idades, foram alfabetizadas.
As bases da proposta estão alicerçadas na concepção antropológica de Paulo Feire, no construtivismo interacionista de Jean Piaget e na dimensão do pesquisador Vigotski. Este estudioso russo demonstra o quanto os indivíduos aprendem entre si. Denominados “educadores populares”, os 250 professores do MOVA são indicados pela própria comunidade e atuam nas regiões do orçamento participativo. A SMED oferece um curso de capacitação de 40 horas e reuniões semanais. “É fundamental que as pessoas não leiam só o texto, mas o contexto”, completa o professor.

O Secretário Geral da Confederação Nacional dos Metalúrgicos da CUT e um dos responsáveis pelo Projeto Integrar, Marco Maia, explicou que a iniciativa alia a formação profissional ao ensino fundamental. Três ações norteiam o trabalho. No curso regular, os trabalhadores têm aulas de formação profissional concatenadas com o ensino fundamental. É a oportunidade de aprenderem computação, cálculo técnico, matemática, geografia e história, por exemplo. O apoio pedagógico desenvolve atividades sócio-culturais. Nesta etapa, os alunos são levados a teatros, museus e cinemas. O terceiro estágio desenvolve a pedagogia auto-sustentável. Neste momento, os estudantes constróem novas alternativas de trabalho, como cooperativismo, autogestão, enfim, como edificar suas próprias alternativas de trabalho e renda. Destinada a desempregados, ou metalúrgicos com risco de perder o emprego, a proposta trata, também sobre gênero, saúde do trabalhador e inovações tecnológicas. “A intenção é resgatar a cidadania”. O programa iniciou em 1996, em São Paulo e se espalhou por outros 10 estados brasileiros. No Rio Grande do Sul, desde a segunda metade de 1997 até hoje já diplomou 600 trabalhadores-alunos. Em outubro de 1997 foi assinado o contrato entre a CNM/CUT e a STCAS/RS, que repassa os recursos do FAT para o desenvolvimento do Programa. Pela portaria 183/97, o Ministério da Educação e do Desporto reconheceu o Programa Integrar como equivalente ao Ensino Fundamental e credenciou a Escola Técnica Federal de Pelotas a expedir os certificados aos alunos.

 O reitor da Universidade de Santa Cruz, Luiz Augusto Costa A. Campis lembrou que no país há três tipos de universidades – as públicas, as particulares e as comunitárias, como a de Santa Cruz, Passo Fundo e Ijuí. “Na Unisc, 44% dos professores têm mestrado e doutorado e 35% estão cursando um pós-graduação. Lá os professores têm horas para dedicar à pesquisa e extensão. Temos o melhor salário de professor no estado. E realizamos eleições diretas para todos os cargos diretivos. Isto mostra o que é uma universidade comunitária”.

• O padre Elli Benincá dedicou o prêmio a seus colegas de Passo Fundo. “Esta iniciativa é para apoiar movimentos, projetos e trabalhos capazes de promover experiências novas no campo da educação”, justificou. O livro Educação e universidade – práxis e emancipação, editado pela Ediup e organizado por Telmo Marcon em homenagem a Elli Benincá foi lançado na mesma data. Com 400 páginas e comercializado a R$ 20,00, a obra apresenta instrumentos para a reflexão sobre educação, universidade, ensino e pesquisa. A publicação resultou de um esforço coletivo de um grupo de professores da Universidade de Passo Fundo. Os textos refletem questões teóricas, metodológicas, experiências, vivências e convivências dentro e fora da universidade.

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