Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 177 | Ano 18 | Set 2013
CULTURA

O erudito cada vez mais popular

Orquestras, artistas e grupos de diversas formações, apesar das dificuldades, consolidam-se na agenda cultural da região Metropolitana e interior do estado
Por Priscila Pasko

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Igor Sperotto

Igor Sperotto

A música erudita figura cada vez mais na agenda cultural de Porto Alegre e de outras regiões do estado. Espaço conquistado pela trajetória consistente das várias orquestras sinfônicas e filarmônicas, por meio de projetos como os Concertos Comunitários, realizados pelo coral e pela Orquestra da Pucrs há 26 anos; por quintetos, duos, quartetos e demais formações criadas nos últimos anos pelos músicos; e por outras iniciativas e projetos como a Série Master de Concertos Studio Clio, os Concertos Populares e oMusical Évora do Theatro São Pedro. Cada vez mais comuns são também os festivais dedicados à música erudita, como o Festival Internacional Sesc de Música (Pelotas), o Festival Internacional da Música no Pampa (Bagé) e o Festival de Inverno, promovido pela UFSM, no Vale Vêneto, − este último, realizado desde 1986 −, que reúnem artistas e estudantes de música, tanto do RS quando de outros países. Completam esse cenário, a criação de orquestras em universidades públicas e privadas nas últimas décadas, entre elas as orquestras da Ulbra, Unisinos e UCS. Para uns, um quadro alentador, para outros, fruto de muito esforço e pouco reconhecimento. Mas uma coisa é certa, o público ganha crescente acesso à diversidade de propostas musicais. Não é incomum músicos daqui com reconhecimento internacional. O diretor artístico da Orquestra Sinfônica de Porto Alegre (Ospa) e regente da Orquestra de Câmara da Ulbra, Tiago Flores, mostra-se otimista e enxerga um bom cenário para os instrumentistas de orquestras. Ele garante que todo músico com boa formação tem emprego. “É claro que, dependendo do instrumento, tem menos ou mais trabalho”, observa. Tiago Flores diz que, levando em conta o tamanho do Rio Grande do Sul, comparado com outros estados (em tamanho geográfico, população e PIB), apenas São Paulo e Minas Gerais têm maior atividade. Bahia e Rio de Janeiro estariam no mesmo patamar que o Rio Grande do Sul. A Confraria do Sax, por exemplo, foi idealizada em 2002 pelo professor da disciplina de saxofone da Ufrgs, Amauri Iablonovski, para proporcionar aos alunos a experiência e convívio com as práticas em conjunto e de música de câmara. O grupo começou a fazer parte das atividades acadêmicas e logo começaram a surgir convites para que participasse de algumas atividades e eventos oficiais da Universidade. Não demorou muito para esses convites tomarem maior abrangência. “O fator primordial em nosso grupo é a amizade, algo que sempre cultivei muito. O grupo se mantinha por uma certa fama no meio, no boca a boca, nos comentários positivos. Mas confesso que, baseado em minha carreira como professor (na Ufrgs, na Uergs), quando estamos com a intenção de fazer algo, nós produzimos, procuramos espaço, vamos atrás, corremos os riscos. Se quiséssemos viver só do quarteto, teríamos que ensaiar todos os dias, além de nos inscrever em muitos projetos. Quem quer se mexe. Não posso dizer que o mercado é amplo, mas existem possibilidades”, explica Iablonovski.

Estado concentra investimentos na Ospa

Alunos do Instituto de Artes da Ufrgs se preparam para o mercado de trabalho

Igor Sperotto

Alunos do Instituto de Artes da Ufrgs se preparam para o mercado de trabalho

Igor Sperotto

O governo do Rio Grande do Sul está concentrando seus esforços em relação à música erudita com investimentos na Ospa, que conta hoje com 82 músicos. Neste ano, foi reaberta a Escola de Música da Ospa (Conservatório Pablo Komlós) – fechada durante nove anos, reativada no primeiro semestre de 2013, com 224 vagas para aulas gratuitas ministradas pelos próprios músicos da Orquestra, em três níveis, dos 8 aos 24 anos, nas modalidades violino, viola, violoncelo, contrabaixo, flauta transversal, oboé, clarinete, fagote, trompa, trompete, trombone, tuba e percussão. Em 2012, foi criado um plano de carreira para a Ospa, o que refletiu, entre outras melhorias, no aumento salarial – o menor salário subiu de R$ 3.201,26 para R$ 4.801,89 (com carga horária de 30 horas semanais entre ensaios e apresentações) − ampliação da orquestra e suporte ao coro sinfônico. O orçamento da Ospa em uma temporada é composto pela verba que vem do governo do Estado, R$ 11.514.554,02, em 2013, somado ao que é arrecadado com ingressos (previsão de R$ 70.000,00 em 2013), mais os patrocínios no projeto atual. A Orquestra tem autorização para captar via Lei Rouanet até R$ 500.000,00. Além disso, após 60 anos de criação, a Ospa terá sede própria, junto ao Parque Maurício Sirotsky Sobrinho (Harmonia). Cerca de 80% dos recursos já foram garantidos. Por meio de convênio entre o Ministério da Cultura e o governo do Estado há o repasse da verba, aprovada por emenda parlamentar, que somado à contrapartida do estado, o total de recursos atinge o valor de R$ 23,8 milhões. A previsão é de que a Sala Sinfônica da Ospa seja inaugurada no segundo semestre de 2014. Com recursos do Banrisul, o governo do Estado também mantém a Orquestra Jovem do estado, projeto que executa a inclusão social por meio da música erudita. PORTO ALEGRE − Em Porto Alegre, o coordenador de Música da Secretaria Municipal de Cultura, Jorge André Brittes, informa que a Prefeitura investe não menos do que R$ 3 milhões/ano só em salários dos 45 músicos concursados da Banda Municipal, que já completou 88 anos de existência, além de destacar a música instrumental erudita como categoria no Prêmio Açorianos de Música, que é anual. “Também apoiamos projetos sazonais, como o Festival Internacional de Música Erudita, promovido pelo Instituto Goethe e no projeto Orfeão, que ocorre no Studio Clio”, completa. FEDERAL − No âmbito federal, os recursos são limitados, segundo o coordenador de música erudita da Fundação Nacional de Artes (Funarte), Flávio Silva. “Em função disso, não está sendo possível continuarmos a realizar projetos de circulação de concertos por todo o Brasil, nem apoios a orquestras, edição de partituras e de livros sobre música”, explica. “Há, sim, outras atuações na área de reciclagem de regentes de corais e de coralistas, que beneficiam tanto a música erudita como a popular”.

Muito trabalho fora do palco

Adriano Persh

Igor Sperotto

Adriano Persh

Igor Sperotto

“Eu costumo dizer que se ‘sobrevive’ de música, pois você vive fazendo concessões. Um instrumentista tem necessidade muito grande de ensaios e preparação.” A afirmação é de Adriano Persh, um dos integrantes do Quinteto Persch, criado em 1999 com o objetivo de difundir o acordeão por meio da música de câmara. O grupo conta com dois discos, o primeiro deles, Quinteto Persch(2009), selecionado no Projeto Petrobras Cultural 2006/2007, eQuinteto Persch − 10 anos (2012), aprovado pela Lei Rouanet. Persch diz que as políticas públicas do Estado destinadas ao segmento “pararam” e são “apáticas”, o que só agrava o trabalho de grupos menores de instrumentistas. “Resta aos músicos, neste caso, o papel de divulgar, inserir, promover e procurar viabilizar seu trabalho por meio dos poucos editais”, desabafa. “Função esta que deveria ser exercida por um profissional raro no mercado, o produtor artístico”. O Quinteto faz cerca de 30 apresentações por ano, não recebe subsídios de empresas, por isso os integrantes estão sempre à procura de outras oportunidades. O apoio empresarial é restrito a poucos. “O apoio costuma ser decidido pelo setor de marketing e eles acabam priorizando projetos que garantam grande visibilidade, por meio de artistas famosos. Dessa forma, usam de mecanismos e de leis de incentivo se promovendo duas vezes: por meio da propaganda e da renúncia fiscal”, critica. Outros grupos também experimentam um repertório um pouco mais popular, porém, apoiados na formação erudita, como o Barlavento Quarteto de Saxofones, Confraria do Sax e Mafuá Trio Instrumental. Mais uma forma de atrair o público.

MÚSICA

Espaços tradicionais já estão ocupados

Diego Silveira, percussionista da Ospa

Igor Sperotto

Diego Silveira, percussionista da Ospa

Igor Sperotto

Trabalhar com música erudita e ser reconhecido por seu trabalho requer muito investimento de tempo e dinheiro. Mesmo assim, fora do Brasil, o violoncelista Pedro Huff não vê a hora de poder voltar ao país. Ele se formou em 2003 pela Escola de Música e Belas Artes do Paraná. Seis anos depois, fez mestrado na University of Tennessee, em Knoxville, e, em junho deste ano, concluiu o doutorado na Louisiana State University. “Tudo isso bancado por bolsas de estudo das mesmas instituições onde eu era aluno. Anos depois de eu ter saído de Porto Alegre é que fui entender o quão sortudo a gente é de ter todas essas orquestras, corais, casas de recitais, faculdade de música, e tal”. Huff critica a postura acomodada de alguns profissionais que não se adaptam às novas oportunidades. “Eu tenho a impressão de que, no caso da música instrumental erudita, é muito comum as pessoas decorarem um repertório standard e achar que vai dar tudo certo no futuro. O problema com isso é que os empregos mais tradicionais como orquestra ou dar aula na academia já estão quase todos tomados”. ESTABILIDADE – É quase consenso neste meios de que estar empregado em uma orquestra permite estabilidade, como explica Diego Silveira, percussionista da Ospa. “Além de não ser produtivo, me incomodava depender de shows avulsos, por isso acabei fazendo concursos”, conta o músico que também mantém trabalhos paralelos (90% dos músicos das orquestras do Rio Grande do Sul trabalham em duas orquestras ou ministram aulas). Para Diego, o mercado de trabalho para o músico erudito parece ser mais receptivo do que o popular, pois a concorrência é maior e o salário menor. “Acredito que quem escolheu ser músico dificilmente será feliz em outra profissão. O trabalho artístico é árduo. Para mim, carreira não é só dinheiro”. Orquestra de Teutônia  O maestro da Orquestra de Teutônia, Astor Jair Dalferth, critica o poder municipal. Quando a orquestra foi criada, em 1983, cada músico recebia um salário mínimo, além de receber da Prefeitura trajes, e instrumentos. Com o tempo, os valores diminuiram e o grupo transformou-se em uma orquestra comercial, que já gravou CDs e DVDs. “Nesses projetos não há um centavo da Prefeitura. Convivemos com um corte de 45% de nosso convênio com o município e cada músico recebe como ajuda de custo em torno de R$ 350,00. Maestro recebe R$ 1,5 mil”. Conforme o subsecretário de Cultura e Turismo de Teutônia, Orlando Dahmer, o grupo “é uma associação”, portanto, sem vínculo com a Prefeitura. Mesmo assim, o município repassa uma subvenção ao grupo − neste ano, o valor foi de R$ 114 mil. A medida é instituída por lei. Investimentos privados Adriana de Almeida é a produtora e responsável há 25 anos pelos Concertos Comunitários, projeto que recebe o apoio e a manutenção da Pucrs e da Cia Zaffari. As apresentações realizadas por todo o estado em parques, igrejas e praças são sempre gratuitas e formadas pelo coral e pela Orquestra Filarmônica da Pucrs. Adriana explica que, apesar de ser muito difícil manter um projeto como esse, a orquestra tem “o privilégio” de contar com o apoio de fortes colaboradores, uma situação difícil diante da posição da música erudita no Brasil. “Vivemos em um mundo em que um carro é mais importante que um instrumento”, lamenta.

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