Esther Grossi: 90 anos de saber e compromisso com a educação

Sua trajetória pessoal, marcada por disciplina, ética e sensibilidade, complementa sua obra profissional, construindo uma narrativa de excelência e de inspiração para os professores

Esther Grossi na Aula Magna “Minhas Descobertas Surpreendentes Nas Ciências do Aprender”, realizada na quinta-feira, 23 de abril de 2026, na Ufrgs, em comemoração ao seu aniversário de 90 Anos

Foto: Divulgação

Celebrar noventa anos de vida é, por si só, um marco raro e significativo. No caso da professora Esther Pillar Grossi, esse jubileu adquire contornos ainda mais relevantes, pois coincide com a trajetória de uma vida dedicada à educação, à formação cidadã e à construção de políticas públicas que transformaram o cenário educacional no Rio Grande do Sul e no Brasil.

Nascida em 24 de abril de 1936, em Santa Maria, Esther Grossi cedo percebeu a centralidade da educação na construção de sociedades mais equitativas. Ao longo de de sua trajetória, não apenas se destacou como educadora, mas personificou valores de rigor intelectual, sensibilidade social e incansável compromisso com a inclusão e a justiça educacional.

Esther Grossi chegou a Porto Alegre na década de 1950 trazendo consigo uma curiosidade insaciável e um desejo profundo de compreender os mecanismos de aprendizagem e ensino. Optou por se formar em Matemática (1953 – 1957) na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), área na qual desenvolveria não apenas sua carreira acadêmica, mas também sua visão inovadora sobre educação. Desde cedo, mostrou interesse em investigar como o conhecimento matemático poderia ser transmitido de forma mais eficaz e inclusivo, unindo rigor lógico com estratégias pedagógicas sensíveis às necessidades dos alunos.

Essas inquietações levaram-na, entre 1968, décadas 1970 e 1980, a ampliar sua formação internacionalmente, passando por França, Bélgica, Canadá e Suíça, onde consolidou sua compreensão sobre o desenvolvimento cognitivo e a aprendizagem matemática, estabelecendo-se como referência no estudo da interseção entre matemática, pedagogia e psicologia.

A trajetória profissional de Esther Grossi é marcada por conquistas emblemáticas. Como docente, pesquisadora e articuladora de políticas educacionais, destacou-se por introduzir métodos inovadores de ensino que buscavam adaptar o currículo às necessidades da diversidade social. Durante a década de 1970, em um período de restrições políticas e desafios educacionais, Grossi já defendia a democratização do acesso à educação e a valorização do professor, princípios que orientariam suas futuras contribuições acadêmicas e legislativas.

Entre suas iniciativas mais relevantes, destaca-se a fundação, em 1970, do Geempa (Grupo de Estudos Sobre Educação, Metodologia de Pesquisa e Ação), considerado até hoje um importante espaço de investigação e experimentação pedagógica voltado à formação de professores, elaboração de materiais didáticos e desenvolvimento de pesquisas aplicadas sobre aprendizagem matemática. Sob sua liderança, o grupo consolidou uma abordagem inovadora, integrando teoria, prática e pesquisa em educação, e influenciando significativamente a formação de educadores no Rio Grande do Sul e em todo o Brasil.

O alcance de sua obra ultrapassou os limites estaduais. No cenário nacional, Esther Grossi participou ativamente de debates e conselhos voltados à educação, incluindo a Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação (Anped) e a Conferência Nacional de Educação (Conae), contribuindo para políticas públicas de formação docente e inclusão educacional. Sua defesa constante de programas de capacitação e integração escolar ajudou a inspirar diretrizes nacionais que priorizam a valorização do professor e a equidade educacional, consolidando sua reputação como referência em educação no Brasil.

A dimensão humana de Esther Grossi também merece destaque. Reconhecida por colegas e alunos como uma líder inspiradora, sua postura conciliadora e ética tornou-se referência em ambientes acadêmicos e institucionais. O cuidado com o desenvolvimento integral dos estudantes e o respeito às singularidades individuais reforçam uma faceta de sua personalidade que se manifesta não apenas na teoria, mas na prática cotidiana da educação. Esse equilíbrio entre exigência intelectual e sensibilidade humana define um traço raro: a capacidade de transformar a autoridade do conhecimento em inspiração e orientação.

Além de suas realizações profissionais, Esther Grossi tem sido presença ativa no debate público sobre os desafios da educação contemporânea. Em entrevistas, palestras e artigos publicados em periódicos acadêmicos como a Revista Brasileira de Educação e os Cadernos de Pesquisa, abordou questões como alfabetização, formação docente, avaliação educacional e inclusão, sempre com uma perspectiva crítica e fundamentada. Suas reflexões reforçam a compreensão de que a educação é mais que um indicador estatístico; é um processo social, cultural e historicamente enraizado.

O legado de Esther Grossi também se manifesta em sua influência direta sobre gerações de educadores e gestores. Muitos de seus discípulos ocupam hoje posições estratégicas em escolas, universidades e órgãos públicos, perpetuando suas ideias e ampliando o impacto de suas iniciativas. Este efeito multiplicador evidencia um princípio central de sua filosofia: investir no conhecimento e na formação humana é garantir que a educação se torne um vetor de transformação social duradoura.

Ao longo de sua carreira, é possível delinear uma linha do tempo de realizações que refletem seu compromisso com a educação pública. Na década de 1970, iniciou programas de formação docente voltados à alfabetização e à inclusão escolar no Rio Grande do Sul, enquanto, nos anos 1980, participou de iniciativas estaduais que buscavam a integração das escolas com as comunidades locais, reforçando o vínculo entre educação formal e cidadania ativa. Nos anos 1990, sua atuação em fóruns nacionais consolidou sua influência em políticas de educação inclusiva, fortalecendo programas de formação continuada que se tornariam referência em todo o país.

Entre os projetos de maior destaque, pode-se citar a coordenação de programas de capacitação docente em cidades como Porto Alegre, Canoas e Caxias do Sul, onde estabeleceu metodologias de acompanhamento contínuo, promovendo oficinas, cursos e seminários que integravam teoria, prática pedagógica e avaliação participativa. Estes programas eram estruturados de forma a permitir que os professores adaptassem as técnicas pedagógicas às realidades locais, criando um modelo de educação sensível ao contexto social que ainda hoje é considerado inovador.

No percurso de Esther Grossi, sua atuação política surge como uma extensão natural de tudo aquilo que sempre defendeu na educação: o compromisso com a transformação concreta da vida das pessoas.

Entre 1989 e 1992, quando esteve à frente da Secretaria Municipal de Educação de Porto Alegre na gestão de Olívio Dutra, viveu de perto o desafio de traduzir ideias pedagógicas em políticas públicas, buscando fortalecer escolas, valorizar professores e ampliar o sentido de comunidade no processo educativo. Alguns anos depois, em 1994, foi eleita deputada federal pelo PT do Rio Grande do Sul, assumindo o mandato em 1995, e levando ao Congresso Nacional essa mesma inquietação transformadora. Como membro titular da Comissão de Educação, Cultura e Desporto, fez da sua atuação um espaço de continuidade entre a reflexão e a ação, dedicando especial atenção às áreas da educação, da cultura e da ciência e tecnologia.

Mais do que ocupar funções institucionais, sua presença na vida pública reflete uma coerência rara entre pensamento e prática, sempre guiada pela convicção de que políticas educacionais só ganham sentido quando nascem do compromisso real com a equidade e com o direito de aprender.

Por fim, Esther Grossi também consolidou sua presença como formadora de opinião no campo da educação, participando de conferências nacionais e internacionais, sempre defendendo a educação pública como instrumento de justiça social. Sua trajetória mostra que a educação é um processo vivo e dinâmico, e que políticas eficazes dependem de compromisso, pesquisa, liderança ética e compreensão profunda das comunidades atendidas. Estes princípios transformaram não apenas escolas e professores, mas toda a percepção sobre o papel da educação no desenvolvimento do Brasil contemporâneo.

Ao completar noventa anos, Esther Grossi simboliza não apenas uma vida dedicada à educação, mas a concretização de uma visão de sociedade em que o saber é instrumento de cidadania e de justiça. Sua trajetória pessoal, marcada por disciplina, ética e sensibilidade, complementa sua obra profissional, construindo uma narrativa de excelência, inspiração e compromisso.

Celebrar seus noventa anos é, portanto, celebrar a educação brasileira em sua dimensão mais ampla: aquela que une conhecimento e humanidade, política e ética, teoria e prática. Esther Grossi, com sua vida exemplar, construiu um legado indelével, provando que a educação não é apenas uma profissão, mas um compromisso vitalício com a construção de um futuro mais justo e iluminado.

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