28 de junho: Stonewall é aqui!

Precisamos fazer memória da Rebelião de Stonewall e nunca esquecer que os poucos direitos que temos são fruto de muita luta

30ª Parada do Orgulho LGBT+ de São Paulo, em junho de 2026

Foto: Elaine Cruz/Agência Brasil

Mais um dia 28 de junho chega. Da parte da comunidade LGBTIAPN+ e das pessoas aliadas, podemos nos questionar: há o que celebrar ou do que se orgulhar?. Já, entre as pessoas que desejam que voltemos para os armários, poderá se perguntar: “Por que sair às ruas e fazer festa, se não há dia do orgulho heterocisgênero?”. Para ambos os grupos, trago aqui algumas reflexões neste dia.

Primeiramente, acredito que precisamos sempre relembrar o que aconteceu na madrugada do dia 28 de junho  de 1969, no bar Stonewall Inn, em Nova York. Cansadas de apanhar e de sofrer violências físicas e psicológicas, um grupo de pessoas trans, lésbicas, gays e drag queens, decidiu enfrentar a polícia e dizer que iria continuar ocupando aquele espaço, pois não estavam fazendo nada de ilegal, apenas exercendo o seu direto à diversão e ao lazer, assim como todas as outras pessoas nos demais bares que existiam na cidade.

No ano seguinte, houve uma caminhada/manifestação para relembrar o que aconteceu naquele dia, ocupando não somente o bar, mas também algumas ruas da cidade. Desde então, o que fazemos anualmente é rememorar o ocorrido em 1969, ocupando as ruas das cidades mundo afora e dizendo “esse espaço também é nosso, também temos o direito de estar aqui”. Para muitas pessoas LGBTIAPN+, este ainda é o único momento em que podem ocupar a cidade e manifestar nossas existências sem medo ou preocupação.

Além da dimensão relacionada à ocupação da cidade, há também uma dimensão de orgulho associada a isso. Bem antes de 1969 – e ainda hoje – nossos gêneros e nossas sexualidades, que não se adequam ao que a sociedade espera, são vistos por muitas pessoas como motivo de vergonha. Quantas pessoas LGBTIAPN+ não foram expulsas de casa, não sofreram violências e humilhações na rua, no trabalho e na escola? Muitas pessoas ainda veem nossos gêneros e nossas sexualidades como vergonhosas, antinaturais e como motivo para sofrermos violências e sermos desrespeitados e humilhados – assim como ocorreu em Stonewall. Então, para nós, celebrar o orgulho é afirmar que nossas existências são tão importantes e tão válidas quanto a de todas as outras pessoas e que temos orgulho de quem somos!

Stonewall é aqui!

O Brasil, dos dias atuais, ainda nos apresenta muitos desafios, os quais entendo que somente conseguiremos superar com muita luta, organização e união. Segundo o Grupo Gay da Bahia (GGB), tivemos 257 mortes violentas de LGBTIAPN+ no ano de 2025. Em se tratando especificamente de pessoas trans e travestis, segundo a Associação Nacional de Travestis e Transsexuais do Brasil (ANTRA), foram 80 mortes.

Para quem não é morto, a vida também não é das mais fáceis: segundo a Pesquisa Nacional sobre o Bullying no Ambiente Educacional Brasileiro, realizada em 2024, 86% das pessoas LGBTIAPN+ entrevistadas sentiam-se inseguras dentro da escola. Já em relação às violências, 90% relataram terem sido vítimas de agressão verbal e 34% de violência física.

segundo a pesquisa Inclusão econômica e geração de renda da população LGBTQIA+ no Brasil, realizada também em 2024, 40% das pessoas LGBTIAPN+ entrevistadas afirmaram se sentirem rejeitadas no mercado de trabalho. Some-se a esses dados a verdadeira “caça às bruxas” feita contra a utilização dos banheiros por mulheres trans, as tentativas de proibir discussões sobre gêneros e sexualidades nas escolas, bem como a proibição de crianças nas paradas realizadas nas diversas cidades do país afora. Não bastasse tudo isso, agora temos a tentativa de retirar a Parada de São Paulo – a maior do mundo – da Avenida Paulista. Se em 1969 não nos queriam no bar, hoje não nos querem nas escolas, nos banheiros, nas ruas, nos trabalhos… Querem realmente que voltemos para os armários.

Por isso, cada vez mais precisamos celebrar o Orgulho LGBTIAPN+! Precisamos fazer memória da Rebelião de Stonewall e nunca esquecer que os poucos direitos que temos são fruto de muita luta. Muitas pessoas da nossa comunidade deram o sangue para que pudéssemos estar aqui hoje comemorando esse dia. Precisamos nos unir e mostrar nossa força mobilizadora para não retrocedermos. Não sejamos ingênuos: qualquer direito que seja retirado de um dos grupos da nossa comunidade afeta e enfraquece toda a comunidade. Hoje, atacam de maneira mais forte as mulheres trans e travestis. Contudo, se não lutarmos e apoiarmos elas, amanhã estarão atacando nós, homens gays, e as demais pessoas que compõem a nossa comunidade.

Celebremos! Nos orgulhemos! E estejamos vigilantes!

“Querida, eu quero meus direitos, agora!”

Marsha P. Johnson (mulher trans, pioneira da Revolta de Stonewall)

 

Rudson Adriano Rossato da Luz é professor e historiador. Mestre e doutor em Educação pela Universidade de Caxias do Sul (UCS).

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