Alvos preferenciais da polícia ainda são jovens e crianças de pele negra

Seis anos após o Extra Classe mostrar que a polícia “mata por engano, mas não erra a cor da pele”, relatório confirma que a letalidade segue em alta e atinge, sobretudo, jovens negros

Alvos preferenciais da polícia ainda são jovens e crianças de pele negra

Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

Em julho de 2020, o Extra Classe estampou na capa a reportagem A polícia que mata por engano, mas não erra a cor da pele. Seis anos depois, os números mostram que o diagnóstico permanece atual – e ainda mais grave. Mudam os governos, as estratégias de enfrentamento ao crime e a geografia das facções. Já o perfil de quem morre, entretanto, continua praticamente o mesmo.

Em 2025, nove das 27 unidades federativas brasileiras registraram 4.330 mortes decorrentes de ações policiais, aumento de 6,4% em relação ao ano anterior. Das vítimas, 3.104 eram negras – 86,3% do total. A juventude continua no centro da política de confronto: 2.804 pessoas mortas (64,8%) tinham até 29 anos, entre elas 310 crianças e adolescentes, o equivalente a 10 salas de aula com 30 estudantes cada.

Ou seja, o número de crianças e adolescentes negras e pobres mortas pela polícia nos nove estados analisados é 5,5 vezes (554%) maior que o total de vítimas fatais registradas em ataques de violência extrema em escolas brasileiras entre 2001 e 2025 (um quarto de século), e que somam 56 mortos conforme o MEC.

Os dados integram a sétima edição do relatório Pele Alvo – entre Racismo e Letalidade, o Amanhã, da Rede de Observatórios da Segurança, do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC), com base em informações oficiais dos estados de Amazonas, Bahia, Ceará, Maranhão, Pará, Pernambuco, Piauí, Rio de Janeiro e São Paulo.

Segundo o estudo, pessoas negras têm, em média, quatro vezes mais chances de serem mortas pela polícia do que pessoas brancas. Em Pernambuco, esse risco chega a ser 11 vezes maior; no Rio de Janeiro, seis vezes maior. “Ao transformar adolescentes de favelas e periferias em alvos preferenciais de um confronto permanente, o aparato policial sabota o futuro de comunidades inteiras”, resume o relatório.

Os pesquisadores observam que a expansão das facções para o Norte e o Nordeste alterou a dinâmica do crime, mas não o perfil das vítimas. Homens, jovens e negros seguem concentrando a esmagadora maioria das mortes provocadas por agentes do Estado.

O levantamento registra recordes de letalidade desde 2019 no Ceará, Maranhão, Pará e São Paulo. No estado maranhense, o aumento chegou a 86,8% em relação a 2024. Na Bahia, mesmo após uma pequena redução, houve mortes decorrentes de ações policiais em 346 dos 365 dias de 2025.

Os governos estaduais sustentam que as operações seguem critérios técnicos e que os confrontos decorrem da ação do crime organizado. Os números, contudo, contam outra história. Seis anos depois da reportagem publicada pelo Extra Classe, o país continua produzindo a mesma vítima em escala: jovem, negra e periférica. A diferença é que, agora, as estatísticas tornam essa realidade ainda mais difícil de negar.

Nem os mortos escapam da invisibilidade

O relatório também expõe um problema menos visível, mas igualmente revelador: a precariedade dos registros oficiais sobre raça e cor das vítimas. Maranhão e Ceará ainda apresentam elevado número de ocorrências sem identificação étnico-racial, embora tenham melhorado a qualidade das informações nos últimos anos. À medida que os dados passaram a ser preenchidos com maior rigor, cresceu também a proporção de vítimas negras identificadas: 22 pontos percentuais no Maranhão e cerca de oito no Ceará. Para os pesquisadores, a invisibilidade estatística não é uma simples falha burocrática. Ela dificulta o controle social, reduz a transparência das políticas públicas e contribui para ocultar a dimensão racial da violência policial.

A exceção confirma que há outro caminho

Entre os nove estados analisados, apenas o Piauí apresentou redução nas mortes decorrentes de intervenções policiais em 2025, com queda de 16,67%. O relatório associa o resultado, entre outros fatores, à pressão de movimentos sociais, universidades públicas e Ministério Público, mostrando que transparência e controle social podem influenciar políticas de segurança.

No Rio Grande do Sul, que não integra o levantamento da Rede de Observatórios da Segurança do CESeC, dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública indicam redução de 141 para 80 mortes por intervenção policial entre 2024 e 2025 (-43,2%). O estado, porém, não divulga o perfil racial e etário dessas vítimas, destaca o jurista Rodrigo Ghiringhelli de Azevedo, do Fórum Nacional de Segurança Pública. Apesar da lacuna, ele destaca, no entanto, que o Atlas da Violência 2026, com dados de homicídios até 2024, mostra que a letalidade policial também tem cor no RS: foram 412 homicídios de pessoas negras naquele ano. A ausência do recorte racial e etário impede avaliar se esse padrão se repete ou não no estado.

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