Evasão escolar e violência extrema

Meninos de nossas periferias que saíram precocemente da escola constituem o “exército de reserva” dos grupos armados que disputam o controle do tráfico
Crianças da comunidade escolhem livros na abertura da Festa Literária das Periferias (Flupp), no Rio de Janeiro

Crianças da comunidade escolhem livros na abertura da Festa Literária das
Periferias (Flupp), no Rio de Janeiro

Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

Todos que conhecem um pouco de criminologia sabem que, mesmo entre aqueles indivíduos que constroem carreiras criminais, apenas uma pequena parcela é capaz de praticar atos de violência extrema, compreendida como a violência que surge, aparentemente, fora de uma moldura racional, diante de provocação mínima ou mesmo na ausência de qualquer provocação. Nesse sentido, a contribuição do criminólogo norte-americano Lonnie Athens é seminal. Foi ele quem, ao início dos anos 1990, se dispôs a estudar o que chamou de “criminosos violentos e perigosos”, chamando a atenção para o que, presumidamente, havia de diferente na formação daqueles sujeitos. Athens entrevistou condenados que aguardavam, em presídios em Iowa e Califórnia, a execução da pena capital, encontrando um padrão de graves violências sofridas por muitos deles na infância e na adolescência.  Com essa base empírica e de maneira persuasiva, formulou sua “Teoria da Violentização”, ainda hoje pouco conhecida no Brasil.

Em 2013, realizei pesquisa sobre o tema, o que estruturou minha tese de doutoramento em Sociologia na Ufrgs, recentemente editada com o título A Formação de Jovens Violentos, estudo sobre a etiologia da violência extrema (Appris, 2016, 385 p.). A investigação partiu de um grupo de 17 jovens privados de liberdade na Fundação de Atendimento Socioeducativo (Fase, antiga Febem do RS), selecionados de acordo com a gravidade dos atos violentos a eles atribuídos, incluindo casos de múltiplos homicídios. Entrevistei esses jovens com a abordagem de história de vida (life story approach) e, ao final de cada entrevista, solicitei que me indicassem um colega de infância não envolvido com o crime. Por esse caminho, localizei outros 11 jovens, de mesma idade e sexo, igualmente pobres que, não obstante as dificuldades que enfrentaram, se tornaram trabalhadores e seguiram estudando. Então, repeti com eles as entrevistas em profundidade.

Naquele momento, imaginava que a comparação entre esses dois grupos poderia revelar os processos de formação de jovens especialmente violentos. O estudo comparativo, entretanto, mostrou realidades antípodas na maioria dos temas, mas também semelhanças importantes nos fatores de risco a que todos foram expostos, o que impedia a identificação de dinâmicas causais inequívocas. Para encontrar a resposta ao problema de pesquisa, seria preciso ultrapassar as limitações comuns aos estudos qualitativos e formular um modelo causal, em abordagem quantitativa. O modelo delineado tratou de medir as experiências potencialmente associadas à disposição de praticar atos de extrema violência a partir dos campos etiológicos (causais) fundamentais: a família, a escola e a vida comunitária. Em um recorte teórico nas variáveis independentes, adicionei um campo específico de violência sofrida na primeira infância, a “brutalização” referida por Athens.

Adaptei o questionário empregado por Hirschi (2001) em seu Estudo sobre a juventude de Richmond (High School Questionnaire, Richmond Youth Study), e lidei com a “Escala de Socialização Violenta” (Violent Socialization Scale), desenvolvida por Rhodes (2001), a qual mede a teoria de Athens. Além dos dois grupos iniciais, apliquei os questionários a detentos do Presídio Central de Porto Alegre, condenados por crimes com violência (homicídio) e sem violência (receptação), e a alunos de uma escola da periferia da mesma cidade. O procedimento me ofereceu as respostas de 111 jovens do sexo masculino, em uma mesma faixa etária e condição social, viabilizando o processamento estatístico de uma expressiva quantidade de informações.

Após análise fatorial e cálculos de regressão, encontramos que a disposição violenta dos jovens está informada, basicamente, pelo “treinamento violento”, confirmando em parte a Teoria da Violentização. Quando analisamos a influência causal (β), vimos que esse processo responde por 54,2% da disposição violenta da amostra. Ou seja, sem essa experiência, o problema seria reduzido a menos da metade.

Muito bem, mas em que consiste o “treinamento violento” no Brasil? A resposta aponta para uma dinâmica perversa em que alguém mais velho, via de regra apenas alguns anos mais velho, introduz adolescentes e pré-adolescentes no mundo do crime, ensinando-lhes desde o manuseio de diferentes armas de fogo até os valores do grupo criminal. Assim, meninos de nossas periferias que saíram precocemente da escola constituem o “exército de reserva” dos grupos armados que disputam o controle do tráfico.

São os jovens que se evadem da escola pública aqueles que estão mais amplamente expostos aos riscos da socialização em comunidades menores e ultraviolentas. Em contextos dessa natureza, permanecer mais tempo na escola faz uma diferença enorme e costuma ser a única chance para a ampla maioria.

O que a pesquisa sugere é que o fenômeno específico da violência extrema, ao contrário do que se costuma crer, parece ter pouca relação direta com as famílias dos jovens e mesmo com experiências disruptivas comuns à adolescência. Trata-se de um tipo de violência coletiva que envolve uma identidade grupal para autores e vítimas. Nas periferias, é comum que uma parte dos jovens do sexo masculino conviva com “instrutores” violentos, um tipo de associação que, obviamente, é favorecida pela negligência, pela ausência paterna e pela falta de estruturas de cuidado, como escolas infantis e clubes juvenis. O ponto de virada para o que Juan Mario Fandiño chamou de “transição criminológica”, entretanto, a partir das oportunidades abertas pelo tráfico de drogas, só se afirma como realidade para muitos jovens pobres na exata medida em que a escola pública falha em lhes oferecer perspectiva diversa. Também por conta disso, o fenômeno da evasão escolar deveria ser objeto de especial preocupação no Brasil, demandando políticas públicas específicas e, ao que tudo indica, profundas mudanças na escola.

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