Autonomia do Banco Central impõe derrota ao país, diz Fattorelli

Para coordenadora da Auditoria Cidadã da Dívida, projeto aprovado no Senado cria um BC independente do Estado mas entregue a banqueiros
Sessão Deliberativa Remota do Senado aprovou no dia 3 o acolhimento de depósitos voluntários de instituições financeiras pelo Banco Central, que na prática representa a remuneração milionária da sobra de caixa dos bancos privados; e requisitos para nomeação e demissão do presidente e dos diretores do BC

Sessão Deliberativa Remota do Senado aprovou no dia 3 o acolhimento de depósitos voluntários de instituições financeiras pelo Banco Central, que na prática representa a remuneração milionária da sobra de caixa dos bancos privados; e requisitos para nomeação e demissão do presidente e dos diretores do BC

Foto: Jefferson Rudy/Agência

 

A aprovação do Projeto de Lei Complementar que estabelece mandatos fixos para o presidente e diretores do Banco Central (BC), PLC 19/19, ocorrida na terça-feira, 3, no Senado é considerada por Maria Lucia Fattorelli uma grande derrota. Na realidade, “uma vergonha”, desabafa.

Segundo a coordenadora da Auditoria Cidadã da Dívida (ACD), a decisão que ainda precisa passar pela Câmara dos Deputados, oficializa o histórico de um BC comandado por banqueiros, mas que “tem um porém” agravante da situação. A decisão acaba de vez com a possibilidade da “exigência de um “Banco Central do Brasil, não dos bancos, caso eleito um presidente da República de fato estadista”, afirma.

“Em duas semanas a matéria foi anunciada e votada. Qual era a urgência desse projeto? Não tinha nada a ver com a pandemia. Era passar uma pauta do mercado”, questiona Maria Lucia

“Em duas semanas a matéria foi anunciada e votada. Qual era a urgência desse projeto? Não tinha nada a ver com a pandemia. Era passar uma pauta do mercado”, questiona Maria Lucia

Foto: Divulgação

Maria Lucia ressalta que em países da Europa e mesmo nos Estados Unidos, onde os bancos centrais são independentes, existe uma exigência. “Os cargos de comando são exercidos por funcionários de carreira para impedir a vinculação orgânica entre reguladores e regulados”, explica.

Da forma como foi aprovado, na opinião da experiente administradora tributarista, o BC ficará independente do Estado, mas “entregue aos próprios banqueiros”.

PL 3877 – Maria Lucia faz questão de registrar outro ponto aprovado ontem no Senado e que segue a linha do que acredita ser “uma política monetária suicida” para o país.

Foi o Projeto de Lei que autoriza o recebimento de depósito voluntário remunerado de instituições financeiras pelo BC (PL 3877/20). Para a viabilização da iniciativa, é tirado do cálculo da dívida pública o custo que o BC tem com as transações bancárias, as chamadas operações compromissadas.

“Isso quer dizer que os bancos vão poder depositar o que quiserem e vão ser remunerados pelo Banco Central. Outra vergonha”, afirma, indignada.

Projeto que cria autonomia do BC deve ser iniciativa do Executivo e não do Legislativo e criação do depósito voluntário remunerado passa por cima da Lei de Responsabilidade Fiscal ao criar uma despesa nova sem indicar os recursos, aponta coordenadora da ACD

Projeto que cria autonomia do BC deve ser iniciativa do Executivo e não do Legislativo e criação do depósito voluntário remunerado passa por cima da Lei de Responsabilidade Fiscal ao criar uma despesa nova sem indicar os recursos, aponta coordenadora da ACD

Foto: Marcello Casal JrAgência Brasil

A questão central para a coordenadora da Auditoria Cidadã da Dívida é: “Temos dinheiro sobrando para remunerar a sobra de caixa dos bancos?”, questiona.

Para Maria Lucia, em um país onde milhares de pessoas estão morrendo e milhões desempregadas “ficar dando dinheiro para bancos” é um acinte. “Ainda por cima, isso fica amarrando a economia”, declara ao referir-se aos recursos que ficarão parados no BC ao contrário de estar fomentando a economia do país.

ATROPELO – A coordenadora da ACD questiona a votação atropelada do Senado em sessão remota, devido à pandemia. “Em duas semanas a matéria foi anunciada e votada. Qual era a urgência desse projeto? Não tinha nada a ver com a pandemia. Era passar uma pauta do mercado”, critica.

Tudo, em sua opinião, integra uma “política de assalto aos cofres públicos”, tema que a ACD tem denunciado em seu site. Segundo Fattorelli, existem problemas jurídicos no que foi aprovado no Senado.

O que cria a autonomia do BC, não poderia ser de iniciativa do Legislativo, mas do Executivo. Já o que permite o depósito voluntário remunerado, passa por cima da Lei de Responsabilidade Fiscal ao criar uma despesa nova sem indicar os recursos.

O projeto que cria a autonomia do BC é de autoria do senador Plínio Valério (PSDB-AM). A PL 3877, do senador Rogério Carvalho (PT-SE).

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